São João Baptista

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Friday, 19 February 2010

O Barroco

     

Na periodização da literatura portuguesa, o barroco é um período literário precedido do maneirismo - que prolonga em aspectos temáticos e estilísticos, mas de que se distingue por essenciais diferenças  de atitude perante o mundo e perante a literatura - e seguido de um neoclassicismo racionalista que se afirma precisamente em oposição à estética literária barroca.
A estética clássica  já tinha sido desviada pelo maneirismo que coexistiu nas obras de certos clássicos como Camões com as normas renascentistas da criação artística. Antes do barroco, o maneirismo tinha significado uma reacçao contra as ideias de normatividade, de equilíbrio, de beleza regular e contra a filosofia optimista do humanismo, substituída por um pessimismo fundamental relativo ao homem e ao lugar dominante no centro do universo. Segundo Vítor Aguiar e Silva, o barroco define-se por um carácter sensorial e naturalista, apelando para as sensações fruídas na variedade do mundo físico. O barroco é uma arte acentuadamente realista e popular, animada de um poderoso ímpeto vital e que se compraz numa sátira exagerada. Tende frequentemente para o ludismo e o divertimento e dissolve  deliberadamente a tradição poética petrarquista. O barroco caracteriza-se pela ostentação, pelo esplendor e pela proliferação dos elementos decorativos, pelo senso da magnificência que se revela em todas as suas manifestações, tanto nas festas de corte como nas cerimónias fúnebres.
O início do período barroco na literatura portuguesa pode-se situar na segunda e terceira década do século XVII, pois nesses se publicam obras e se afirmam poetas, que significam uma profunda alteração dos padrões literários.
            A literatura, particularmente a poesia, que por esta altura começa a surgir, apresenta já um carácter diferente do que dominava a produção poética das décadas anteriores: atenua-se o tom ascético e acentua-se a propensão para a representação do belo e do vistoso; a atitude galhofeira (brincalhona, divertida) e satiricamente realista torna-se corrente; e o carácter artificioso do trabalho poético passa a constituir frequentemente o fulcro do interesse do poema. Sem que se assista a uma clara ruptura em relação à literatura do período anterior, o panorama poético vai surgindo alterado, quer na visão do mundo que apresenta, quer nas formas estilísticas por que a exprime.
            O período barroco vai prolongar-se por mais de um século. Como limite ad quem fixou-se 1750, altura em que os sinais de ruptura com a literatura barroca se multiplicam e assumem grande relevância no panorama cultural: entre estes sinais se podem citar a publicação, em 1746, do Verdadeiro Método de Estudar de Luís António Verney  e a criação, em 1756, da Arcádia Lusitana.

A poesia barroca

            No período barroco foram muito poucos os poetas que publicaram em edição própria os seus poemas. Estes foram recolhidos em duas colectãneas: Fénix Renascida, que saiu em cinco tomos de 1716 a 1728, e o Postilhão de Apolo, que saiu em dois tomos, em 1761-1762.
            Entre os principais autores contam-se: Francisco Rodrigues Lobo, D.Francisco Manuel de Melo, Soror Violante do Céu, Jerónimo Baía, Frei António das Chagas, Soror Maria do Céu.

A poética barroca

Para se compreender a poesia barroca torna-se necessário conhecer o conceito de poesia, o ideal de discurso poético que subjaz à sua produção.
A época produziu um grande número de textos teóricos em Espanha (considerada por alguns autores o centro de irradiação do barroco) e em Itália, país que continuava a ser o principal foco irradiador de arte e cultura. Entre os tratadistas do barroco em podem-se citar  Matteo Peregrini e Emmanuele Tesauro.
Mas é a obra de Baltasar Gracián, Agudeza y arte de ingenio, publicada em 1648 que é a primeira codificação das regras da poética barroca, apresentando uma arte (no sentido de técnica, conjunto de regras e métodos) da agudeza.
O essencial da poética da agudeza consiste no trabalho do espírito na descoberta de relações insólitas entre as coisas, entre as palavras, e o trabalho sobre o discurso para o fazer dizer essas relações novas e insuspeitadas. Não se pode compreender a literatura barroca sem se pensar no peso que a retórica assumiu na formação mental dos homens desta época e, consequentemente, nos textos que produziram. Recorde-se que a retórica ocupava lugar de destaque no plano curricular das escolas jesuíticas, escolas que foram os centros de instrução dominantes do tempo, não só em Portugal, como em quase toda a Europa católica. Mas, do esquema retórico legado pela antiguidade- da inventio à pronuntatio, passando pela dispositio, elocutio e memoria -a época barroca valorizou sobretudo a elocutio, o trabalho de verbalização das ideias, o moldar das palavras.
A literatura barroca, principalmente a poesia, valorizou esses processos a ponto de muitas vezes fazer deles os protagonistas do texto. É que, ao contrário do que acontecia com a retórica clássica, o objectivo aqui não é propriamente persuadir racionalmente o destinatário, mas captá-lo por meio do deleite, fazer do texto um objecto produtor de prazer estético.
Do vasto arsenal de figuras retóricas, a literatura barroca destaca aquelas que melhor servem os seus ideais estéticos, que constituem instrumentos mais adequados à concretização do seu conceito de texto poético.
A figura dominante da poética barroca é a metáfora. Instrumento privilegiado de expressão do ideal barroco de metamorfose, de transfiguração, a metáfora domina quer nos textos teóricos, quer na produção poética. A poética da metáfora é minuciosamente teorizada e três qualidades lhe são exigidas: novidade, clareza, brevidade. A novidade é a qualidade mais apreciada: uma relação entre termo próprio e termo figurado insólita e inesperada que, por isso mesmo, provoca a admiração, o deslumbramento do leitor. A clareza significa que a metáfora tem de ser perceptível para o leitor, caso contrário perder-se-á o seu efeito, pois ninguém pode apreciar o que não entende. A brevidade  é a capacidade de dizer relações novas, por vezes complexas, de forma sucinta. Nos poemas barrocos é raro o aparecimento de metáforas isoladas. Elas aparecem geralmente em séries, despenham-se em cascata pelo poema numa redundância intensificadora, numa festa de imagens, de palavras. Aparecem também com frequência em técnica de metáfora continuada: uma série de metáforas pertencentes ao mesmo campo semãntico introduzida por uma metáfora-síntese que se vai particularizando ao longo do texto.
Com a metáfora se articula directamente a hipérbole, expressão do gosto do excessivo que dominava o barroco. Outra figura dominante do panorama retórico barroco é a antítese que exprime o conflito, o choque dos contrários, ou a sua justaposição.
A poética barroca explora também a materialidade fónica da palavra: as semelhanças (paronímia), as convergências e divergências de som e sentido (homonímia) e o consequente jogo de equívocos.
Um aspecto relacionado com o visualismo barroco é o uso da hipotipose: descrição destinada a impor o objecto descrito à visão do leitor: pela acumulação de pormenores, grande número de notações visuais, sobretudo cromáticas, o apelo à visão dirigido ao leitor. O visualismo faz com que os poetas se aproximem de outros sistemas de signos: poemas em forma de objectos.
Uma divisão estilística característica do barroco e corrente na época é a entre o cultismo e o conceptismo. O cultismo consiste numa sobrecarga de elementos ornamentais, com superlativação, uso de metáforas, hipérboles, perífrases e outros recursos, tendentes a salientar a forma. O conceptismo é o desdobramento discursivo de um conceito ou de uma premissa, em que se toma como realidade uma metáfora e a partir dela se vai discorrendo, por raciocínios engenhosos, até dar num imprevisto paradoxo. Tal como o cultismo era a extravagãncia da expressão, o conceptismo é a extravagãncia da ideia.


Temas da poesia barroca


O mundo barroco é dominado pela figura do tempo, pela visão obsessiva do seu fluir e do seu império sobre os homens e as coisas. A consciência aguda do tempo que foge constitui assim o núcleo de uma constelação temática - a efemeridade, a transitoriedade, o desengano - e confere unidade semântica a motivos tão diversos como a rosa, o relógio, as ruínas, a morte.Os relógios constituem um motivo obsessivo da constelação temática temporal.
Esta constelação funde-se com outra linha temática: a ilusão, a confluência de aparência e realidade, a indistinção entre a vida e o sonho. Paradigmático deste núcleo temático é Segismundo de La Vida es sueño de Calderón de la Barca. À mesma temática pertence o espelho que reduplica e confunde a realidade e a ilusão.
            Embora o amor não seja dos temas mais frequentes da poesia barroca, não deixam de estar presentes os sofrimentos amorosos, a saudade. É de salientar a acentuação hiperbólica dos traços, a intensificação dos elementos visuais, a proliferação desmedida da metáfora descritiva. Surge também a imagem de um amor sensual, traduzida numa linguagem realista, quando não mesmo obscena. Muitos dos poemas de amor da época barroca funcionam como reflexo de uma realidade social- os chamados amores freiráticos, ou seja, as relações amorosas centradas nos conventos e que originaram uma abundante produção poética.
            A religiosidade é outro filão poético do barroco. Nos poemas religiosos, o homem apresenta-se geralmente como pecador, numa posição de dependência total em relação ao amor e misericórdia de Deus. A figura de Cristo surge no centro desta poesia e dos episódios da sua vida destacam-se o nascimento e a Paixão. A natureza dos temas não obsta ao seu tratamento moldado pelas tendências mais marcantes da retórica do tempo: o gosto lúdico da expressão paradoxal, da associação de contrários, a confusão entre religiosidade e erotismo.
            O mundo da poesia barroca revela faces contraditórias: ao lado da meditação desenganada sobre o homem e o seu destino, o repetir da lição horaciana do carpe diem, o apelo à fruição imediata; ao lado da visão idealizada do amor, a visão sensual e a sua expressão mais despudorada; ao lado da exaltação panegírica, o retrato caricatural. O poeta barroco percebeu que toda a realidade, por mais trágica ou sublime, tem a sua face grotesca e exibiu essa face em poemas em que o cómico é o ethos fundamental. O poeta barroco ri de tudo: de si próprio e dos outros, de defeitos físicos e morais, de costumes da sociedade, ri de poetas e da própria poesia, de tópicos e textos literários. Ele recorre jocosamente (é o estilo joco-sério) à intertextualidade e à paródia de textos sagrados da memória cultural.
            O tratamento dos temas barrocos apresenta-se geralmente como representação emblemática. O emblema era uma representação pictórica acompanhada de uma legenda que explicitava não só as figuras concretas representadas mas também o seu significado alegórico. Temos assim na caracterização dos emblemas dois elementos - o visual e o verbal -e os dois níveis de significação próprios da alegoria- o literal e o transposto. Na poesia barroca predomina uma forma de representação relacionável com a técnica do emblema.Os poemas chamam a atenção do leitor para objectos ou cenas concretas levando-o a visualizá-los, e explica depois o significado profundo que eles veiculam. À descrição segue-se a explicitação do seu significado. A descrição no texto corresponde à representação pictórica do emblema, assim como a explicação corresponde à legenda.
Emblemas evocados na poesia barroca: a fénix concretiza as duas faces do barroco: a ostentação e a metamorfose; a rosa significa sempre a efemeridade da beleza; as representações macabras apontam a realidade iniludível da morte. Emblemas polissémicos são o espelho, a água, o relógio. 

O Maneirismo


Designação utilizada pelo historiador de arte italiano Vasari (1511-1574) para caracterizar a obra de certos pintores e escultores europeus — mais especificamente italianos — do século XVI, que realizam uma arte de acordo com a maneira (o estilo) de certos artistas do Renascimento, muito embora superando-a no sentido de uma distorção subjectiva mais ou menos acentuada das regras canónicas das proporções e da harmonia, da simetria e do equilíbrio. Como tal, o maneirismo define um movimento de libertação dos princípios formais renascentistas que, nas artes plásticas, se pode verificar nas últimas obras de Miguel Ângelo, ou nas criações de Parmigianino, El Greco, ou dos portugueses Gaspar Dias, Diogo Teixeira e Simão Rodrigues.
Na periodização da literatura portuguesa, o maneirismo (1680-1620) segue a renascença e é prolongado pelo barroco em certos aspectos temáticos e estilísticos. As principais características desta corrente são o movimento, a fantasia, o drama e o subjectivismo.
A estética clássica é desviada pelo maneirismo que coexiste nas obras de certos clássicos como Camões com as normas renascentistas da criação artística. Antes do barroco, o maneirismo significa uma reacçao contra as ideias de normatividade, de equilíbrio, de beleza regular e contra a filosofia optimista do humanismo, substituída por um pessimismo fundamental relativo ao homem e ao lugar dominante no centro do universo. A expressão do patético, a consciência dos contrastes, limitações e vanidade da vida humana tornam-se mais agudas, manifestando-se, por exemplo, em inúmeras referências ao tema do desconcerto do mundo, frequente em Camões.
Enquanto o maneirismo se  manifesta numa ligação aos modelos literários  clássicos que apura e refina as suas características, sublinhando os  pormenores da composição e o seu carácter estático, seguindo um pendor melancólico, o barroco vai definir-se pela exibição espectacular de conflitos e oposições semânticas e sintácticas, em torno da reflexão sobre o tempo e a  mudança.
Ao longo do século XVI, o sentimento de confiança nas capacidades humanas que caracterizara o movimento renascentista sofreu alguns abalos. Crises sociais na Europa, conflitos entre Estados e grupos religiosos, levaram a um sentimento de cepticismo em relação à vida que, de certa forma, relegou para um plano mais teorético o papel interventivo dos humanistas. Assim, gerou-se um clima de alguma instabilidade e pessimismo, que se reflectiu, nas artes e na literatura, numa ruptura com a ortodoxia dos cânones estéticos do classicismo.

Em Portugal, esta situação geral somou-se ao declínio do império, favorecendo um sentimento de cepticismo e pessimismo, de frustração, avivado pela consciência do declínio, do contraste entre a grandeza passada (cantada por Camões em Os Lusíadas) e a mesquinhez do presente — consciência também dos limites humanos e da vanidade da vida.
A perda da independência nacional, em 1580, teve consequências importantes na literatura portuguesa, uma vez que a corte de Lisboa, que era o grande centro político e cultural, desapareceu. Assim sendo, muitos escritores refugiaram-se em paços senhoriais de província ou em Madrid, ou ainda em ordens religiosas. O bilinguismo, que já antes era corrente, acentuou-se. Dominou, neste período, a literatura devota e histórica produzida em ambiente conventual, para o que a Contra-Reforma, recuperando a escolástica, muito contribuiu.

São de destacar, pela sua importância e quantidade, as obras hagiográficas e a historiografia, principalmente do mosteiro de Alcobaça. Esta última é de extrema importância, na medida em que foi frequentemente veículo da justificação da existência de Portugal como país autónomo da Espanha. Neste âmbito se insere a Monarquia Lusitana, iniciada por frei Bernardo de Brito, em que é já manifesta a tendência para romancear, enriquecendo o texto histórico com numerosas narraçőes e enredos de natureza mitológica, fantástica ou cavaleiresca, atestando a falta de uma investigação histórica rigorosa.