São João Baptista

São João Baptista

Saturday, 8 May 2010

Manuel Maria Barbosa du Bocage (1765 - 1805)



Poeta português natural de Setúbal, de ascendência francesa por parte da mãe. A sua vocação foi incentivada pelo ambiente familiar. Madame Fiquet du Bocage, uma tia-avó do poeta, era uma poetisa ilustre na época e traduzira o poeta suíço pré-romântico Gessner. O próprio pai de Bocage lia o pré-romântico inglês Young e cultivava a poesia nas horas vagas. Igualmente o marcou, como ele próprio o sublinhou, a morte da mãe aos dez anos de idade («Aos dois lustros a morte devorante/me roubou, terna mãe, teu doce agrado»). Frequentou a Academia Real dos Guarda-Marinhas, para onde entrou em 1783, entregando-se, mais do que aos estudos, à boémia literária da Lisboa da época, frequentando botequins, sobretudo o Nicola, do Rossio, ao qual o seu nome ficou para sempre ligado, como famoso improvisador de versos. Embarcou para Goa (1786) e serviu na guarnição de Damão (1789). Mais tarde, desertou, embarcando para Macau, e daí regressou a Lisboa em 1790, ano em que foi fundada a Nova Arcádia, na qual ingressou, adoptando o nome poético de Elmano Sadino. Dela foi expulso, em 1794, devido ao seu espírito independente, sarcástico e indisciplinado.
Inquieto e atraído pela vida boémia, foi preso a 10 de Agosto de 1797, acusado de ideias contra a ordem social, expressas na «Epístola a Marília», texto anti-religioso, e no soneto dedicado a Napoleão, símbolo do ideal revolucionário da época. Julgado, apesar de tudo, com alguma benevolência, por «erro contra a religião», a Inquisição ordenou que o preso fosse «doutrinado». Obrigado, por sentença, a recolher ao Hospício das Necessidades, aí se dedicou ao estudo e à tradução de várias obras, entre as quais as Metamorfoses, de Ovídio. Saiu em liberdade em 1799, convertendo-se a uma vida mais regrada em casa da irmã, Maria Francisca, que sustentou com trabalhos de tradução. Marcado pelas atribulações do seu percurso, a sua vida terminou precocemente e com um doloroso arrependimento, patente nos seus últimos poemas. Bocage é um poeta pré-romântico em que o arcadismo ainda está bem presente. Dos seus poemas irradia o angustiado sentido da existência e do aniquilamento, expresso em oposições dramáticas (o amor, céu e inferno, a morte, horror e libertação) e o gosto pelo macabro, em simultâneo com o convencionalismo arcádico das alegorias. De entre as formas poéticas que cultivou destaca-se o soneto.
Muitas vezes evocando o paralelismo entre a sua vida e a de Camões, morreu aos 40 anos, em Lisboa, deixando publicadas, em três volumes, Rimas (1791, 1799 e 1804), completadas com a publicação póstuma de novos volumes e obras sobre a sua criação poética (Poesia de Manuel Maria de Barbosa du Bocage, de Inocêncio da Silva, 1853, e Obras Poéticas de Bocage, de Teófilo Braga, 1875).
A personalidade de Manuel Maria Barbosa du Bocage parece simbolizar a fase final e insanável do conflito entre o arcadismo e o romantismo, entre a dependência relativamente às instituições senhoriais-absolutistas e relativamente ao público editorial, entre o enquadramento absolutista-senhorial e o enquadramento mercantil e trocista do escritor. O Elmano Sadino da Nova Arcádia é já romântico por temperamento, apesar de muito vocabulário e muito alegorismo arcádicos e dos seus laivos de iluminismo. A sua arte versificatória, sobretudo no soneto, tem tido muitos admiradores, entre os quais, significativamente, o parnasiano brasileiro Olavo Bilac. Todavia, esse encanto é um tanto monótono e fácil, e a sua orquestração verbal das grandes expansões tumultuosas soa muitas vezes a falso. O que o distingue melhor é a agitação psicológica que traz pela primeira vez à poesia portuguesa: o sentimento agudo da personalidade, o horror do aniquilamento na morte. Tal egotismo percebe-se ainda na maneira abstracta e retórica com que, em nome da Razão, se revolta contra a humilhação da dependência e contra o despotismo; no gosto do fúnebre e do nocturno, e nos clamores não menos retóricos de ciúme, de blasfémia ou contrição. Esse gosto já tão romântico do funéreo e tenebroso percorre grande parte da poesia de Bocage. Quero fartar o meu coração de horrores, desfecho de um dos sonetos mais característicos, compendia a sua imaginação sedenta do hórrido ou horrendo, de horríssonos furores: tempestades reais ou míticas, crimes lendários, históricos ou noticiados nas gazetas, pesadelos, agonias frenéticas, visões de antros ou abismos, minuciosas descrições de beberagens, esconjuros e outros bruxedos. Não se sabe em que medida isto é o simples saborear de uma estética (dantesca, shakespeariana e, então, romântica) do locus horrendus, que vira do avesso o locus amoenus do pastoralismo clássico; em que medida o poeta é efectivamente presa de uma obsessão irracional incontrolável, uma espécie de pavor sagrado à procura de imagens; ou em que medida isso traduz uma ânsia, ao mesmo tempo inextinguível e medrosa, de abarcar numa consciência humana todos os medos e dores que ela, espontaneamente, evita, que ela mal enfrenta sem se desagregar. Em qualquer caso, a expressão mais vivida, original e comunicativa dos seus horrores encontra-se nos sonetos, epístolas e no poema narrativo Trabalhos da Vida Humana, onde refere as suas provações e aflições do cárcere.


Camões, grande Camões, quão semelhante


Camões, grande Camões, quão semelhante
Acho teu fado ao meu, quando os cotejo!
Igual causa nos fez, perdendo o Tejo,
Arrostar co'o sacrílego gigante;


Como tu, junto ao Ganges sussurrante,
Da penúria cruel no horror me vejo;
Como tu, gostos vãos, que em vão desejo,
Também carpindo estou, saudoso amante.


Ludíbrio, como tu, da Sorte dura
Meu fim demando ao Céu, pela certeza
De que só terei paz na sepultura.


Modelo meu tu és, mas... oh, tristeza!...
Se te imito nos transes da Ventura,
Não te imito nos dons da Natureza.




Importuna Razão, não me persigas


Importuna Razão, não me persigas;
Cesse a ríspida voz, que em vão murmura;
Se a lei de Amor, se a força da ternura
Nem domas, nem contrastas, nem mitigas;


Se acusas os mortais, e os não obrigas,
Se (conhecendo o mal) não dás a cura,
Deixa-me apreciar minha loucura,
Importuna Razão, não me persigas.


É teu fim, teu projecto, encher de pejo
Esta alma, frágil vítima daquela
Que, injusta e vária, noutros laços vejo:


Queres que fuja de Marília bela,
Que a maldiga, a desdenhe; e o meu desejo
É carpir, delirar, morrer por ela.




Liberdade, onde estás? Quem te demora?


Liberdade, onde estás? Quem te demora?
Quem faz que o teu influxo em nós não caia?
Porque (triste de mim!), porque não raia
Já na esfera de Lísia a tua aurora?


Da santa redenção é vinda a hora
A esta parte do mundo, que desmaia.
Oh!, venha... Oh!, venha, e trémulo descaia
Despotismo feroz, que nos devora!


Eia! Acode ao mortal que, frio e mudo,
Oculta o pátrio amor, torce a vontade,
E em fingir, por temor, empenha estudo.


Movam nossos grilhões tua piedade;
Nosso númen tu és, e glória, e tudo,
Mãe do génio e prazer, ó Liberdade!




Ânsias terríveis, íntimos tormentos


Ânsias terríveis, íntimos tormentos,
Negras imagens, hórridas lembranças,
Amargosas, mortais desconfianças,
Deixai-me sossegar alguns momentos.


Sofrei que logre os vãos contentamentos
Que sonham minhas doidas esperanças;
A posse de alvo rosto, e louras tranças,
Onde presos estão meus pensamentos.


Deixai-me confiar na formosura,
Cruéis! Deixai-me crer num doce engano,
Blasonar de fantástica ventura.


Que mais mal me quereis, que maior dano
Do que vagar nas trevas da loucura,
Aborrecendo a luz do desengano?




Magro, de olhos azuis, carão moreno


Magro, de olhos azuis, carão moreno,
Bem servido de pés, meão na altura,
Triste de facha, o mesmo de figura,
Nariz alto no meio, e não pequeno;


Incapaz de assistir num só terreno,
Mais propenso ao furor do que à ternura,
Bebendo em níveas, por taça escura,
De zelos infernais letal veneno;


Devoto incensador de mil deidades
(Digo, de moças mil) num só momento,
E somente no altar amando os frades;


Eis Bocage em quem luz algum talento;
Saíram dele mesmo estas verdades,
Num dia em que se achou mais pachorrento.




Meu ser evaporei na lida insana


Meu ser evaporei na lida insana
Do tropel de paixões, que me arrastava;
Ah! Cego eu cria, ah! mísero eu sonhava
Em mim quase imortal a essência humana.


De que inúmeros sóis a mente ufana
Existência falaz me não dourava!
Mas eis sucumbe a Natureza escrava
Ao mal, que a vida em sua origem dana.


Prazeres, sócios meus, e meus tiranos!
Esta alma, que sedenta em si não coube,
No abismo vos sumiu dos desenganos.


Deus, oh Deus!... Quando a morte a luz me roube,
Ganhe um momento o que perderam anos,
Saiba morrer o que viver não soube.




Apenas vi do dia a luz brilhante


Apenas vi do dia a luz brilhante
Lá de Túbal no empório celebrado,
Em sanguíneo carácter foi marcado
Pelos Destinos meu primeiro instante.


Aos dois lustros a morte devorante
Me roubou, terna mãe, teu doce agrado;
Segui Marte depois, e em fim meu fado
Dos irmãos e do pai me pôs distante.


Vagando a curva terra, o mar profundo,
Longe da pátria, longe da ventura,
Minhas faces com lágrimas inundo.


E enquanto insana multidão procura
Essas quimeras, esses bens do mundo,
Suspiro pela paz da sepultura.




Fiei-me nos sorrisos da Ventura


Fiei-me nos sorrisos da Ventura,
Em mimos feminis. Como fui louco!
Vi raiar o prazer; porém tão pouco
Momentâneo relâmpago não dura.


No meio agora desta selva escura,
Dentro deste penedo húmido e oco,
Pareço, até no tom lúgubre e rouco,
Triste sombra a carpir na sepultura.


Que estância para mim tão própria é esta!
Causais-me um doce e fúnebre transporte,
Áridos matos, lôbrega floresta!


Ah!, não me roubou tudo a negra Sorte:
Inda tenho este abrigo, inda me resta
O pranto, a queixa, a solidão e a morte.




Oh retrato da Morte, oh Noite amiga


Oh retrato da Morte, oh Noite amiga
Por cuja escuridão suspiro há tanto!
Calada testemunha de meu pranto,
De meus desgostos secretária antiga!


Pois manda Amor, que a ti somente os diga,
Dá-lhes pio agasalho no teu manto;
Ouve-os, como costumas, ouve, enquanto
Dorme a cruel, que a delirar me obriga.


E vós, oh cortesãos da escuridade,
Fantasmas vagos, mochos piadores,
Inimigos, como eu, da claridade!


Em bandos acudi aos meus clamores;
Quero a vossa medonha sociedade,
Quero fartar meu coração de horrores.




Já Bocage não sou!... À cova escura


Já Bocage não sou!... À cova escura
Meu estro vai parar desfeito em vento...
Eu aos Céus ultrajei! O meu tormento
Leve me torne sempre a terra dura.


Conheço agora já quão vã figura
Em prosa e verso fez meu louco intento;
Musa!... Tivera algum merecimento
Se um raio de razão seguisse pura!


Eu me arrependo; a língua quase fria
Brade em alto pregão à mocidade,
Que atrás do som fantástico corria.


Outro Aretino fui... A santidade
Manchei!... Oh! Se me creste, gente impia,
Rasga meus versos, crê na eternidade!

Anastácio da Cunha

José Anastácio da Cunha (1744-1787) nasceu em Lisboa e seguiu a carreira das armas. Esteve algum tempo a fazer serviço em Valença como oficial de artilharia, sendo nomeado pelo Marquês de Pombal lente da Universidade de Coimbra devido aos seus profundos conhecimentos de Matemática. Além de obras sobre essa disciplina, escreveu poesia. É considerado um dos pré-românticos portugueses. As suas obras poéticas foram publicadas em 1836 sob o título de Composições Poéticas. Em 1826 foi publicada em Paris A Voz da Razão.




                     POEMA


Tantos anos de amor na prisão dura.
Padecendo martírios cento a cento.
Já sair não espero da amargura.
Nem para me queixar já tenho alento.


Informam-te da minha desventura
Os ecos dos meus ais. Ah ! Se algum vento,
Benigno a teus ouvidos, porventura,
Levar alguns, tem dó do meu tormento.


Se deres algum pranto à crueldade
Do meu mal, poderei menos senti-lo:
Teu pranto abrandará sua impiedade.


Louco, que peço? Basta que, ao ouvi-lo.
Te enterneças. Ao menos, por piedade
Basta que digas: – Mísero Mertilo?

Marquesa de Alorna

D. Leonor de Almeida Portugal Lorena e Lencastre, Marquesa de Alorna (1750-1839) nasceu em Lisboa. Tendo seu pai sido preso acusado de participar no atentado ao rei D. José, Leonor, de oito anos, entrou com sua irmã para o convento de Chelas, vindo somente a sair após a morte do Marquês de Pombal. Casou com o Conde de Oeynhausen e viajou por Viena, Berlim e Londres. As suas obras obras foram publicadas em 1844 em seis volumes com o título genérico de Obras Poéticas.


                                      Soneto


Vai a fresca manhã alvorecendo
Vão os bosques as aves acordando,
Vai-se o Sol mansamente levantando
E o mundo à vista dele renascendo.


Veio a noite os objectos desfazendo
E nas sombras foi todos sepultando;
Eu, desperta, o meu fado lamentando.
Fui coa ausência da luz esmorecendo.


Neste espaço, em que dorme a Natureza.
Porque vigio assim tão cruelmente?
Porque me abafa ó peso da tristeza?


Ah, que as mágoas que sofre o descontente,
As mais delas são faltas de firmeza.
Torna a alentar-te, ó Sol resplandecente!

O Pré-Romantismo



Dá-se este nome, na história da literatura portuguesa, ao conjunto de manifestações duma sensibilidade e dum gosto românticos antes de 1825, data que se toma convencionalmente para marcar o início do Romantismo em Portugal. A ideia de que o Romantismo, ou certos aspectos dele, se encontram, em germe, na segunda metade do séc. XVIII remonta à historiografia literária oitocentista...
(...) Hoje podemos definir o Pré-Romantismo pelas seguintes características: inculca-se o perfil do poeta nascido sob o signo infeliz, inclinado à melancolia e ao desespero; assim, o poeta compraz-se no isolamento e na paisagem emsombrada, lúgubre; a intuição do mistério do universo leva-o a confiar em agouros e pressentimentos, aumentando a sua inquietação; o poeta vive intensamente pelos afectos, pelas emoções e até pelos sentidos, é um ser vibrátil, apaixonado, e o instrumento da perseguição dos Fados é muitas vezes um amor total, de corpo e alma, avassalador, ou então violentamente sensual; o instinto, segundo a lição de Rousseau, é nimbado de inocência, e chega-se a entender o amor como um absoluto, uma espécie de religião depuradora e exaltante que a sociedade não tem o direito de tolher; a poesia dá vazão ao tumulto interior, torna-se expansiva e confidencial, tende a confundir-se com a vida; por outro lado, procura-se uma linguagem nova, não só impressionante, excessiva, de tintas violentas, mas capaz de traduzir imediata e fielmente o próprio fluxo subjectivo (aqui oscila-se entre a espontaneidade emocional e a declamação espectacular); reagindo-se contra o racionalismo iluminístico, exprime-se a nostalgia do maravilhoso ou do pitoresco folclórico (lendas, contos de fadas, velhos usos e tradições); enfim, o gosto da paisagem diferente e do maravilhoso etnográfico leva aos primeiros assomos de exotismo (entre nós o exotismo brasílico).
Estes aspectos, que naturalmente se entrelaçam, abrangem a maior parte, e a mais significativa, do que virá a ser o Romantismo; mas surgem, por ora, associados, não raro de modo paradoxal, quer ao neoclassicismo (figuração mitológica, alegoria, imitação, adopção de modelos greco-latinos e quinhentistas), quer ao iluminismo (afirmações de deísmo, endeusamento da Razão e da Liberdade). Note-se que, rigorosamente, não há Pré-Romantismo, pois não se trata de um movimento uno e de directrizes conscientes, mas sim pré-românticos, cada um com a sua feição individual e combinando de modo sui generis ingredientes neoclássicos e pré-românticos. Só depois do Romantismo seria possível tomar consciência de como este movimento se anunciou e foi elaborando no séc. XVIII, ante litteram.
Note-se ainda que os aspectos atrás apontados nem são comuns a todos os autores considerados pré-românticos nem se manifestam simultaneamente. Com efeito, não são comuns: o endeusamento do amor que é paixão voluptuosa e sublimação do instinto encontra-se em José Anastácio, em Bocage, mas não em Xavier de Matos ou em Filinto; mais brando e espiritual é o erotismo de Gonzaga, apesar de certos pormenores «realistas» do retrato físico da noiva; a criação duma linguagem imediata da sensibilidade, incerta e ofegante, é privilégio de José Anastácio; entretanto, não propende este à pintura do locus horrendus onde, solitário, o poeta se afoga em tristeza - pintura em que convergem Xavier de Matos, a Marquesa de Alorna, Bocage (...) o fluminense António Pereira de Sousa Caldas, se tem aqui jus a menção, é pela ode «Ao Homem Selvagem», onde contrapõe as leis sociais, «montão de cadeias» que infelicitam os homens, às leis que escreveu nos nossos peitos a Natureza «simples e constante» (lição de Rousseau), ou pelo estilo caloroso, fremente, ou ainda pela inquietação religiosa, que também se descobre em José Anastácio e Bocage: «A minha alma inconstante / Crê, presume, vacila, incerta treme, / E em dúvidas cruéis aflita geme»; a nostalgia do maravilhoso popular ou tradicional (contos de fadas, literatura de cordel) singulariza Filinto Elísio, acicatado pelas saudades da Pátria e da infância e sob o estímulo do germanismo introduzido em Portugal por Alcipe (a Marquesa de Alorna); são também as queixas do exilado o que mais impressiona em Bento Luís Viana, «Filinto Insulano» (S. Miguel, 1794-Londres, 1823)? cujas Poesias (Paris, 1821) cantam a Liberdade e exaltam «Rousseau, Voltaire, Montesquieu divinos»; o exotismo brasílico aproxima Santa Rita Durão e J. Basílio da Gama, nascidos na colónia, e o árcade Cruz e Silva, nascido na metrópole, já atento à natureza e às lendas do Brasil (nomeadamente nas Metamorfoses).
Por outro lado, convém insistir, esses aspectos não se afirmam simultaneamente. Agrupar os chamados pré-românticos em gerações ajudaria a compreender o modo como o Pré-Romantismo se processou entre nós.
Coelho, Jacinto do Prado, DICIONÁRIO DE LITERATURA, 3ª edição, 3º volume




O terceiro quartel do século XVIII em Portugal foi profundamente perturbado pela acção do marquês de Pombal, «déspota esclarecido» segundo um modelo que a conjuntura nacional o temperamento do ministro afeiçoaram de maneira empírica, apressada e contraditória. A ideologia ou as ideologias do «Iluminismo» penetraram com dificuldade nos esquemas mentais Nação que deviam retomar propostas de há século já. Adoptaram-se assim ideias de Colbert ainda eis para a definição do estatuto social de uma nova classe sobre a qual Pombal devia apoiar seu sistema. As reformas do ministro tendiam a levar a cabo uma cisão entre a corte e a sua nobreza ainda barroca e uma elite burguesa empreendedora no plano dos negócios. Cisão - mas também fusão, se a nobreza aceitasse servir, m derrogação, as ideias progressistas de Pombal. O Colégio dos Nobres, instalado em lugar Colégio dos Jesuítas expulsos, velará por esta fusão necessária. O processo de evolução ti social foi, na aparência, provocado e sem dúvida p acelerado pelo terramoto de 1755, que permitiu ao ministro ver-se investido de plenos poderes. Uma nova cidade saiu então da sua vontade ; os planos de Lisboa pombalina traduzem esquemas ideológicos novos, a sua realização será sobretudo devida aos capitais dos apaniguados de Pombal (1) .Pode falar-se então de uma espécie de mutação na vida nacional. A Lisboa nova, espécie de Salento real, será o décor que o «terrível marquês» oferece à sua própria acção reformadora - comparável também a um terra- moto.
Nesta cidade em ruínas, cujos projectos de reconstrução, sob um desenho barroco voluntariamente empobrecido e ainda derivado do maneirismo espanhol de Herrera, anunciam as virtudes do neoclassicismo - nesta cidade racional, os próprios poetas exaltavam a sageza de uma realidade burguesa e quotidiana. Constituindo então a poesia o único domínio literário importante pela sua qualidade, nela devemos procurar os sintomas significativos de uma alteração estrutural. Sob Pombal, a poesia, levada por esta reforma da mentalidade, tinha por dever instruir. Verney, conselheiro filosófico que o ministro conservava prudentemente a distância, impunha-lhe limites demasiado estreitos que um poeta como Correia Garção (meio Diderot meio Boileau, pela força de circunstâncias anacrónicas) alargava com a sua verve crítica, no quadro da nova Arcádia, academia de poetas fiel ao ditador.
As regras que resistiam ainda aos dados do quotidiano impunham, porém, o uso de uma cultura clássica ancilosada cujas imagens mito- lógicas encontravam uma justificação nas poéticas de Aristóteles e de Horácio, manejadas com constância. Horácio, Virgílio, Ovídio e Píndaro também são modelos seguidos e frequente- mente traduzidos. Mas, por detrás da hábil fachada de um neoclassicismo literário, fortes sentimentos individuais despontavam já, mesmo entre os amigos do marquês reformador .
Dois poetas nascidos em 1774 vão permitir-nos precisar o movimento subtil que orienta a cultura dos árcades e marca já o seu processo de dissolução. Os historiadores da literatura dão-lhes o nome de «pré-românticos», separando-os, assim, da sua geração ainda submetida a valores clássicos - e nós devemos aceitar este nome, sem dúvida perigoso mas que sugere os caminhos do futuro. Actores no seio da crise de consciência da segunda metade do século XVIII, Tomás António Gonzaga e José Anastácio da Cunha, um magistrado e um matemático, procuram no interior do código académico uma possibilidade de expressão erótica. Ê precisa- mente por aí que o código explode...
Os amores adocicados dos pastores da Arcádia, ficções ad usum dos «outeiros» dos conventos de religiosas, salons de uma sociedade cristalizada em hábitos do século XVII, não poderão bastar quando a carne geme verdadeira- mente ou se abandona ao prazer. Separado da sua jovem amada por um destino trágico de pseudoconspirador posto a ferros, Gonzaga, aos quarenta anos, desenrola, na sua prisão, um longo canto de amor e de agonia, em sequências poéticas às quais dá o nome sugestivo de «liras».
Eu tenho um coração maior que o mundo,
Tu, formosa Marília, bem o sabes:
Um coração, e basta,
Onde tu mesma cabes.
Este coração que o poeta compara ao mundo é posto a nu pela primeira vez numa análise onde o próprio mundo deve caber, por intermédio do quotidiano. Descrições, evocações, lamentações, planos para o futuro ( um futuro burguês e horaciano ao mesmo tempo), o medo de ter perdido todas as coisas, inclusivamente a sua bela - tudo isto flui no poema de Gonzaga, em versos por vezes muito belos na sua simplicidade.
É certo que o poeta deu um nome de pastora à sua amada e ele próprio tomou um nome pastoril. «Marília» e «Dirceu» não são, porém, mais do que pseudónimos de circunstância que a convenção poética impõe: nem por isso o jogo do poeta deixa de ser um jogo novo, em que ele inteiramente se compromete. Mesmo se, deportado para Moçambique, Gonzaga aí se casa um ano mais tarde, enquanto a sua «Marília», casada também, morrerá octogenária, inspirando então um folhetim irónico a um jovem escritor dos anos 50...
A vida pregou a ambos uma partida que se tornará numa simples recordação, Pode comentar-se cinicamente a sua história lembrando a pressa que Gonzaga pôs em publicar o poema, no próprio ano em que tomou o caminho do exílio: esta história de amor infeliz alcança uma solução sábia e realista de que os pastores antigos não teriam sido capazes. Ela não deixou por isso de se tornar um tema de «Modinha» brasileira, docemente melancólica...
Também José Anastácio da Cunha dá um nome de pastora à amada, mas a sua Margarida, maciça camponesa disposta aos jogos sensuais do poeta, está presente por detrás de «Marfida», com a sua inteira verdade carnal. José Anastácio leu e traduziu Anacreonte, Horácio, Virgílio e também Milton, Pope e Shakespeare, Montesquieu e Voltaire - mas o que nos interessa é marcar a nova perspectiva que ele propôs à poesia portuguesa :
Não vês, inda de gosto sufocados,
Um no outro nossos peitos esculpidos?
- uma flama, um ardor dos sentidos, o glorioso desespero de possuir a mulher, a própria febre do amor físico de que o poeta traduz quase o ritmo tumultuoso.
A sinceridade destes dois casos, a definição de uma situação pessoal que se dirige à própria realidade, que se identifica inteiramente com ela, significa uma mutação que não é somente intelectual: é preciso ver aí um dos elementos de base de uma nova estrutura sociocultural que se anuncia. E não é certamente por acaso que Gonzaga, filho de brasileiro, integrado na vida da colónia, participou numa conspiração nacionalista cujo fim era a independência. :m igualmente significativo que José Anastácio (autor de um lúcido quadro-requisitório da cultura portuguesa, em 1780, mantido em estado de manuscrito) tivesse sido vítima da Inquisição, acusado de más leituras filosóficas. A libertação e a liberdade, referidas a uma pátria ou a um espírito, casam-se com o conhecimento do amor: José Anastácio, morto aos quarenta e três anos, é, em certa medida, um «libertino» - um libertino provinciano e tranquilo, como convinha ao fim do século XVIII português, que, após a queda de Pombal (1777), era varrido por uma feroz reacção clerical. Por isso ele não será publicado antes de 1839, editado então pelos liberais românticos, que, treze anos antes, não suspeitavam ainda da existência da parte mais significativa da sua obra - e que não deixaram, aliás, de fazer apreender a edição, por «abuso de liberdade de imprensa em matéria religiosa»...
Também como libertino será considerado um poeta vinte anos mais jovem mas falecido em 1805, quatro anos antes de Gonzaga: Bocage . Detenhamo-nos nesta outra personagem-chave do panorama literário do fim do século XVIII. Figura popular da boémia lisboeta, improvisa- dor célebre, Bocage  esbanjou o seu talento em escaramuças de poetas calaceiros, clientes habituais de cafés de nomes pitorescos -proletariado intelectual resultante da mutação da sociedade portuguesa que, tendo perdido os seus mecenas, não tinha podido substituí-los. Agrupados numa «Nova Arcádia», enganavam-se eles a si próprios com uma ilusão académica que já não era do seu tempo. Situada entre duas épocas, a sua poesia não era, muitas vezes, mais do que um jogo hábil de palavras em que a cultura clássica se esvaziava de sentido. Assim fazia Bocage  - mas o seu talento lançava-o mais longe, como que contra a própria vontade.
Por detrás das suas numerosas paixões, marcadas por eternos nomes de pastoras, e das suas sátiras, de rara violência, rompem a inquietação e a angústia. A obsessão da morte é o tema-chave da poesia de Bocage : a morte que ele reclama e teme - libertação, castigo ou per- dão. Mas, sobretudo, uma espécie de terror per- manente, uma presença nocturna que não o abandona - e que já não é o trio das Parcas, mesmo se ele ainda pode assim chamá-la. Este terror abre-se sobre o vazio, sobre o nada- sobre uma vida eterna que não seria mais do que ilusão e engano. Angustiado, o poeta gritará contra a «pavorosa ilusão da eternidade»; mas ditará no seu leito de morte um arrependimento de além tumba: «Já Bocage  não sou! ...À cova escura...»
Com Bocage  , é a morte e a noite ( «Oh retrato da morte, oh noite amiga» ) que surgem no sentido de modernidade dos Portugueses. Mas, com ele, a liberdade ( «mãe dos prazeres, doce Liberdade» ) adquire também uma cor nova que a França libertina ilumina, ao mesmo tempo que lhe oferece «o Deus da razão», 0 seu Deus que Bocage  brandirá contra o «Deus do fanatismo», o «Deus que horroriza a Natureza». A Inquisição condenará as suas ideias filosóficas - mas não poderá nada contra o sentido da natureza que o poeta descobria traduzindo Bernardin de Saint-Pierre e Delille, já que, mesmo iludindo as descrições precisas do primeiro, ele não deixava de ser sensível às «ruínas», aos «castelos», aos «conventos abandonados» do segundo, arsenal de imagens de um gosto novo.
Chefe de fila dos Elmanistas, clã de poetas que, no limiar do Romantismo, se reclamavam da Arcádia, feliz ele próprio por usar um nome de pastor antigo, Bocage-Elmano é, contudo, um homem solitário, à sombra da morte que outros poetas só quarenta anos mais tarde sen- tirão. E a sua morte não deixará de ser interpretada pelos românticos de 1849 como um «suicídio» - desfecho lógico das «lutas de uma vocação incompreendida com as exigências miseráveis da sociedade». Ao mesmo tempo, um poeta ilustre insistirá sobre o seu carácter popular, vendo nele «um homem do povo», «o criador de uma poesia plebeia» ; mas vendo também nele um poeta maldito - igual a Camões, «pobre», «criminoso» e «malfadado» como ele. Camões, de quem José Anastácio da Cunha havia já denunciado, em cólera pré-romântica, o destino miserável que a pátria lhe tinha oferecido...
Um equívoco popular e anedótico se constituiu à volta da vida de Bocage , tanto quanto um equívoco literário em torno da sua obra; é preciso, porém, observar que, nele, os valores instintivos prevalecem sobre os valores culturais. O seu lugar é portanto ao lado de José Anastácio e de Gonzaga e não junto de Filinto Elísio, o chefe de fila dos Filintistas, poetas-«pastores» que vão opor-se aos Elmanistas, numa guerra pueril que precede a formação de uma consciência crítica dos problemas do Romantismo.
O P.e Nascimento, «Filinto Elísio» para os poetas, merece por seu lado uma pausa no nosso inquérito.
Contemporâneo de Gessner e de Wieland, este padre horaciano, que, passada a quarentena, em 1778, fugiu da Inquisição e foi instalar-se em Paris, onde morreu em 1819, foi uma espécie de pólo e de plaque tournante da poesia portuguesa nos fins do século XVIII. O seu nome encontra-se em relação com o dos poetas que marcam a transição do esquema cultural que era o seu para uma inspiração nova que não podia ainda definir-se e que Filinto não poderia certamente aceitar. A sua poética composta em Paris, em 1790, ocupação se não obsessão de emigrado comprometido na «defesa da língua (portuguesa)», é já um tratado arcaizante; a sua poesia, obedecendo às mesmas ideias, não é mais do que um monumento de gosto horaciano: ele sabe evitar as armadilhas académicas, mas, cantando a liberdade e lamentando-se do exílio, não procura inovações sentimentais, antes pelo contrário. E, contudo, os elogios de Filinto Elísio constituíram a melhor das recompensas para Bocage  e para a sua aluna Alcipe, tradutora de Thomson, de Gray e de Wieland - que ele próprio traduzirá, assim como Chateaubriand. Lamartine, a quem deu lições de português, consagrou-lhe estâncias em que falava do seu exílio. O maior dos poetas românticos, Garrett , valer-se-á dele, defendê-lo-á sempre, após ter-lhe atribuído a composição de um dos seus primeiros poemas-romances, pelo qual o Romantismo surgia na literatura portuguesa. A fidelidade de Garrett  ao velho poeta traduzia-se então por uma forma hábil e requintada, obedecendo, ela própria, aos mais puros valores clássicos. Ê através do ensino de Filinto que a influência de Horácio persistirá na cultura da primeira geração romântica nacional: E assim, paradoxalmente, os Filintistas foram mais modernos que os companheiros de Bocage ...
Entre uma e outra geração há, contudo, um poeta que nos ajuda a compreender a ev9lução dos sentimentos e das formas, ao longo destes anos incertos: «Alcipe», que Filinto baptizou, como ela baptizou «Filinto». O velho poeta foi seu mestre, enleado, talvez, num amor platónico; Bocage  dedicar-lhe-á as próprias poesias, em 1804.

França, José-Augusto, O ROMANTISMO EM PORTUGAL, volume I, Livros Horizonte, Lisboa, 1975-1977

Verney VERDADEIRO MÉTODO DE ESTUDAR

                                     ESTILO SIMPLES E ESTILO MEDÍOCRE


Ao estilo sublime contrapomos o estilo simples ou humilde. Assim  como as coisas grandes devem explicar-se magnificamente, assim o que é  humilde deve-se dizer com estilo mui simples e modo de exprimir mui natural. As expressões do estilo simples são tiradas dos modos mais comuns de falar a língua; e isto não se pode fazer sem perfeito conhecimento da dita língua. Esta é, segundo os mestres da arte, a grande dificuldade do estilo simples. Fácil coisa é a um homem de alguma literatura ornar o discurso com figuras; antes todos propendemos para isso, não só porque o discurso se encurta, mas porque talvez nos explicamos melhor com uma figura do que com muitas palavras. Pelo contrário, para nos explicarmos naturalmente e sem figura, é necessário buscar o termo próprio, que exprima o que se quer, o qual nem sempre se acha, ou, ao menos, não sem dificuldade, e sempre se quer perfeita inteligência da língua para o executar. Além disto, as figuras encantam o leitor e impedem-lhe penetrar é descobrir os vícios que se cobrem com tão ricos vestidos. Não assim no estilo simples, o qual, como não faz pompa de ornamemtos, deixa considerar miudamente os pensamentos do escritor...


Isto que digo das expressões comuns e naturais deve-se entender com proporção. Não quero dizer que um homem civil fale como a plebe, mas que fale naturalmente. A matéria do estilo humilde não pede elevação de figuras, etc., mas nem por isso se deve exprimir com aquelas toscas palavras de que usa o povo ignorante. Não é o mesmo estilo baixo que estilo simples. O estilo baixo são modos de falar dos ignorantes e pouco cultos: o estilo simples é modo de falar natural e sem ornamentos, mas com palavras próprias e puras. Pode um pensamento ter estilo sublime, e não ser pensamento sublime; e pode achar-se um pensamento sublime, com estilo simples. Explico-me. Para ser sublime o estilo, basta que eu vista um pensamento e o orne com figuras próprias, ainda que o pensamento nada tenha de sublime. Pelo contrário, chamamos simplesmente sublime (com os retóricos) àquela beleza e galantaria de um pensamento que agrada e eleva o leitor, ainda que seja proferida com as mais simples palavras. De sorte que o sublime pode-se achar em um só pensamento nu figura, etc. Importa muito entender e distinguir isto, para não ser enfadonho nas conversações e nas obras que pedem estilo humilde.


Do que... tenho dito fica claro qual é o estilo medíocre: aquele, digo, que participa de um e outro estilo. Também este estilo não é pouco dificultoso, porque é necessário conservar uma mediania que não degenere em viciosos extremos. e são poucos aqueles que conhecem as coisas na sua justa proporção e formam aquela ideia que merecem. Já disse que a matéria é a que determina qual há-de ser o estilo; e assim uma matéria medíocre pede um estilo proporcionado. A maior parte das coisas de que falamos são medíocres; e daqui vem que neste estilo de falar deve-se empregar um homem que quer falar bem e conseguir fama de homem eloquente. Um homem de juízo, que conhece as coisas como são, Forma delas ideias justas e verdadeiras, e as explica com as palavras que são mais próprias. Donde vem que o estilo medíocre compete propriamente às Ciências todas, à História e outras coisas deste género, nas quais se representam coisas não vis, mas medíocres; porém representam-se da mesma sorte que são, e com palavras próprias.
Também as cartas de negócios graves, ou eruditas, e aquelas de cerimónia a pessoas grandes, etc., costumam ser neste estilo. É, porém, de advertir que o estilo medíocre admite todos os ornamentas da arte: beleza de figuras, metáforas, pensamentos finos, belas descrições, harmonia do número e da cadência. Contudo, não tem a vivacidade e grandeza do sublime. Participa de um e outro, sem se assemelhar a nenhum. Tem mais força e abundância que o simples, menos elevação que o sublime, e prossegue com passo igual e mui brandamente.


                                           Verdadeiro Método de Estudar, Carta VI.

Correia Garção DISSERTAÇÃO TERCEIRA



(... ) Entre as sólidas máximas com que Horácio pretende formar um bom poeta, não é, - como vós sabeis -, menos importante a imitação. Não falo da imitação da Natureza, mas da imitação dos bons autores, daquela imitação à qual deve a Arcádia sua grande reputação e não pequena parte dos honrados elogios com que foi recebida de nossos mais prudentes e doutos patrícios, e que há-de espalhar seu nome pelas nações estrangeiras. Este foi em todos os séculos e será em todas as idades o maior segredo de tão divina arte.


Os Gregos e os Latinos, que dia e noite não devemos largar das mãos, estes soberbos originais, são a única fonte de que manam boas odes, boas tragédias e excelentes epopeias.


Este é o verdadeiro génio a que o vulgo chama veia poética e os doutos entusiasmo.


Muito pode o espírito humano! Mas nunca terá força para subir tão alto se não for pela estrada que trilharam os antigos poetas e oradores. Entre nós, depois que acabaram os bons dias da poesia portuguesa, poucos foram os que penetraram semelhante mistério, de que são miseráveis testemunhas as obras dos seiscentistas. Guardava o Céu para a Arcádia a honra e a vaidade de erguer esta bandeira e levar consigo seus compatriotas. Hoje todos desejam imitar os Antigos, todos estudam pelos Gregos, pelos Latinos e pelos nossos bons autores: mas, fugindo de Cila, quantos varam em Caríbdes?


Querem ser imitadores e não passam de uns humildes plagiários.


Para evitar tão depravado extremo, nos recomenda Horácio o modo com que devem ser imitados os Antigos; e ainda que neste lugar estabeleça outras regras para conseguirmos tão desejado fim, a mim me pareceu, olhando para o vício mais comum, que devia escolher para assunto as poucas mas importantes palavras com que tão grande crítico nos ensina a imitar e nos mostra o perigo de que devemos fugir.


Muitos, querendo imitar Virgílio, fazem uma má tradução desta ou daquela imagem de tão grande poeta; e escravos de suas palavras não passam de tradutores. Não imitam, roubam e despedaçam as obras alheias: desfiguram o que lhes agradou, como se tomassem por empresa fazer-nos aborrecer o que admiramos. Disto acha-se que enfermam tantas quantas são as obras que todos os dias aparecem cheias de lugares dos poetas, não imitados, mas servilmente traduzidos. É tão forte a preocupação de que nascem tão lastimosas desordens que muitos com vaidade e com soberba apontam e mostram os pensamentos ou ideias que roubaram ou traduziram.
[…]


Devemos imitar e seguir os Antigos: assim no-lo ensina Horácio, no-lo dita a razão, e o confessa todo o mundo literário. Mas esta doutrina, este bom conselho, devemos abraçá-lo e segui-lo de modo que mais pareça que o rejeitamos, isto é, imitando e não traduzindo. Os poetas devem ser imitados nas fábulas, nas imagens, nos pensamentos, no estilo; mas quem imita dever fazer seu o que imita. Se imito a fábula, devo conservar a acção, ou alma da fábula; mas devo variar de forma os episódios que pareça outra nova e minha. Se imito as pinturas, não devo no meu poema introduzir um Polifemo, mas do painel deste gigante posso tirar as cores para um Adamastor. Se imito o estilo, não devo servir-me das palavras dos Antigos, mas achar na linguagem portuguesa termos equivalentes, enérgicos e majestosos, sem torcer as frases, nem adoptar barbarismos.


Olhando para a prática dos Latinos e bons Modernos, achamos religiosamente guardados estes preceitos. Assim imita, Virgílio a Homero na sua Eneida, assim imita a Teócrito na sua Bucólica. Assim imitou Camões a Virgílio; António Ferreira a Horácio; Sófocles a Teócrito; Bion a Mosco.


[…] Feliz aquele que não só imita, mas excede ao seu original.


Correia Garção, Dissertação Terceira


(Nota: A "Dissertação Terceira" sobre ser o principal proveito para formar um bom Poeta procurar e seguir somente a imitação dos melhores autores da Antiguidade, recitada na conferência da Arcádia Lusitana no dia 7 de Novembro de 1757).

O ILUMINISMO

Enquanto na Europa se afirmavam o Iluminismo, o Racionalismo e o Experimentalismo em todas as áreas do pensamento, em Portugal vivia-se ainda o tradicionalismo da filosofia escolástica medieval. Sob o ponto de vista cultural, a primeira metade do século XVIII não é mais que um prolongamento do século anterior. Na sociedade de então só restava o exílio aos portugueses que realmente se preocupavam com a situação degradante a que se tinha chegado no país. Chamavam-se «estrangeirados» os intelectuais  obrigados por causa das suas convicções a procurar refúgio no estrangeiro ou que precisavam de forte apoio real para não serem perseguidas pelas suas ideias iluministas, contaminadas portanto pelo «estrangeiro». Alguns tinham sido obrigados a desterrar-se para escapar à fogueira - o Cavaleiro de Oliveira tinha sido queimado «em estátua», num auto-de-fé de Lisboa; outros tinham conseguido um exílio dourado através da nomeação para um cargo diplomático, sendo o regresso condicionado pela protecção pessoal do rei. «Os estrangeirados», representantes das Luzes no espaço português, traziam as novas ideias iluministas e julgavam a realidade portuguesa utilizando novos critérios, inaceitáveis para a doxa reinante: assim, eles criticavam a superstição e o fanatismo, os abusos da Inquisição e o papel que eles julgavam funesto dos Jesuítas na educação nacional, e promoviam, de acordo com os ideais da época, a extinção dos autos-de-fé, dos processos do Santo Ofício, a justiça e a tolerância. Entre os estrangeirados mais importantes para a evolução ulterior do pensamento português contam-se Luís António Verney, D. Luiz da Cunha, Alexandre de Gusmão. Luís António Verney (1713-1792) publicou em 1746 o Verdadeiro Método de Estudar, que promovia uma série de medidas de reforma do ensino e da mentalidade portuguesa.


Arcádia Lusitana


A Arcádia era uma região da Hélade (Grécia), considerada pelas narrações lendárias como sendo a pátria de poetas e de músicos. Daí, o nome de Arcádia ter sido escolhido pelos literatos do século XVIII para designar as academias então fundadas com a finalidade de reformar a literatura e reagir contra o cultismo e o conceptismo. Também em Portugal se criou, em 1755, a Arcádia lusitana ou Ulissiponense de que foi fundador, entre outros, António Diniz da Cruz e Silva, que redigiu os estatutos. António Diniz da Cruz e Silva foi o autor do célebre poema herói-cómico “O Hissope”, que satiriza a ignorância, vaidade e indolência de certos membros do clero, a mania do francês na linguagem e os gongóricos.
Os sócios da Arcádia eram eleitos por unanimidade, em escrutínio secreto, sendo inicialmente em número de trinta e mais tarde de sessenta. Entre os sócios destacam-se Correia Garção (seu principal doutrinador literário), Francisco José Freire (Cândido Lusitano).
Sendo a crítica literária uma das principais finalidades da Arcádia, foi escolhida como insígnia um meio braço segurando um podão com a legenda «Inutilia truncat» (corta as inutilidades). Como divisa, ostentava um lírio, símbolo da Imaculada, sua padroeira, que, com uma sessão extraordinária, festejavam a 8 de Dezembro.
Na poesia procuraram inspirar-se em temas e formas clássicos, mesmo em algumas que não tinham sido cultivados no século XVI. Na linguagem preferiam formas rebuscadas, epítetos alatinados, compostos aglutinantes de origem grega e utilizavam o verso branco.
Como princípios fundamentais da teoria arcádica há ainda a salientar: a procura da verdade ou, pelo menos, da verosimilhança, a imitação da natureza seleccionada de maneira a compor um quadro belo, a apologia do equilíbrio razoável e da selecção ponderada; o fim útil da poesia que deve contribuir para o aperfeiçoamento moral e social do homem culto, e da razão; e o uso da mitologia de modo claramente inteligível como forma de «ornamentação» do texto poético.
A Arcádia também apostou na renovação do teatro para o que muito contribuiu a acção de Correia Garção, que escreveu duas dissertações sobre o carácter da tragédia e duas peças, «Teatro Novo» e «Assembleia ou Partida».
Nas dissertações recomenda que as cenas da violência sejam substituídas por uma narração eloquente; que a tragédia sirva como meio de purificação dos sentimentos pelo terror e pela piedade; que o útil esteja ligado ao agradável; e que, a imitação dos antigos não seja servil, mas tenha o cunho da originalidade. A Arcádia promoveu ainda a tradução de várias obras, entre outras, as comédias de Molière e diversas artes poéticas.
Apesar dos resultados positivos da Arcádia - depuração do gosto artístico (oposição ao barroco), renovação temporária do teatro, aproximação da literatura do real quotidiano e da vida social, função moral da obra literária, o seu fim estava próximo. Assim, em 1776, após um período de rápido declínio, a A deixou de existir.
Nem todos os literatos da época pertenciam à Arcádia Lusitana. São os dissidentes ou independentes. Alguns destes - José Anastácio da Cunha, Bocage, José Agostinho de Macedo criaram em 1790 a Nova Arcádia ou Academia das Belas Letras de Lisboa, que teve também vida efémera. No entanto, o padre Francisco Manuel do Nascimento (Filinto Elísio) Nicolau Tolentino e a marquesa de Alorna não se filiaram em nenhuma das Arcádias, não deixando porém de ser influenciados pelo seu espírito, chegando até a usar nomes arcádicos. Numa situação de transição do neoclassicismo para o romantismo encontram-se Filinto Elísio, José Anastácio da Cunha, a marquesa de Alorna (figura importante na dinamização da vida cultural da época, através do salão literário que organizava em sua casa) e, sobretudo, Bocage, que marcou o confluir do neoclassicismo e do romantismo. Romântico por temperamento, pela profunda consciência pessoal de que dá mostras, aliada a um sentimento fúnebre, o seu estilo encontra-se ainda marcado por recursos arcádicos. A par do acolhimento dado à sua arte versificadora, é de destacar a popularidade de que veio a gozar como poeta satírico e cómico.
Fora da Arcádia, há também a considerar António José da Silva, O Judeu, um dos maiores dramaturgos portugueses.


António José da Silva, O Judeu


(1705-1739)
Nascido no Rio de Janeiro, filho de cristãos-novos, vem a Lisboa em 1713 acompanhando a mãe que tinha sido presa pelo Santo Ofício. À chegada do Brasil também o pai foi encarcerado. Em 1726 é preso juntamente com a mãe, torturado e penitenciado em auto-da-fé. Conclui a sua formatura em Coimbra e começa a praticar advocacia. Já em 1729 tinha-se tornado famoso como autor de comédias e óperas e por isso lhe chamavam O Plauto Português. Em 1733 representa-se A Vida do Grande D. Quixote de la Mancha e do Gordo Sancho Pança. Entre 1734 e 1739 escreve e faz representar outras peças: Esopaida, Os Encantos de Medeia, O Anfitrião, O Labirinto de Creta, Guerras do Alecrim e da Mangerona.
Em 5 de Outubro de 1737 é preso juntamente com a esposa, que se encontrava grávida, e com a mãe, detida pela terceira vez. Não havia qualquer denúncia registada contra ele nem ordem escrita de captura, o que era excepcional. Excepcional era também ter sido preso por ordem do conselho das Três Inquisições do Reino e não pela Inquisição de Lisboa, como seria normal. Os executores de captura foram importantes familiares do Santo Ofício. Em 1739 é condenado à morte relaxado em carne na fogueira e entregue ao tribunal. Em Outubro foi enforcado e depois queimado como «relapso convicto e negativo». Dele ficou o exemplo cívico de um homem «mártir da inquisição» como lhe chamou Teófilo Braga, que não transige perante as perseguições que lhe foram movidas.


Luís António Verney


Luís António Verney (1713-1792) nasceu em Lisboa e faleceu em Roma. Estudou Filosofia na Casa do Oratório em Lisboa e na Universidade de Évora. Com 17 anos de idade, terminou o bacharelato em Filosofia e licenciou-se dois anos depois na mesma área. Partiu então para Roma, frequentando o curso de Teologia. Regressando a Portugal, dedica-se ao ensino e em 1741 é nomeado pelo papa arcediago de Évora. Parte definitivamente para Roma devido a problemas de saúde e principalmente devido a incompreensões por parte dos seus compatriotas. Em 1746 publica o Verdadeiro Método de Estudar. É uma obra redigida sob a forma epistolar que se apresenta dividida em 16 cartas, tratando questões relacionadas com as disciplinas leccionadas na época e com questões pedagógicas, como o acesso da mulher à cultura.
Eis os principais temas tratados:
Realça a importância da Gramática, da Ortografia e da Pontuação, a superioridade da língua grega e a necessidade de estudar a língua em português e não em latim (Carta Primeira), condenando as gramáticas latinas em latim (Cartas Segunda e Terceira);
Destaca a necessidade de incluir o estudo do grego e do hebraico nos cursos de Teologia e o estudo das línguas modernas - francês e italiano - para todas as ciências (Carta Quarta);
Critica o barroco, descrevendo os vários estilos da oratória, referindo-se às qualidades do Padre António Vieira como epistológrafo e ao exagero como orador, pois "deixou-se arrebatar do estilo do seu tempo" (Cartas Quinta e Sexta);
Refere a necessidade de uma Arte Poética portuguesa e partilha das opiniões de Boileau sobre a importância da verdade na Poesia; indica as duas qualidades essenciais do Poeta (engenho e juízo); critica o uso da mitologia pagã na poesia (a que nem Camões escapa) e das metáforas despropositadas nos poetas barrocos (Carta Sétima);
Elogia os filósofos dos tempos modernos e destaca o papel da educação e da cultura como elementos fundamentais para a promoção social (Cartas Oitava a Décima Primeira);
Destaca a importância da anatomia nos estudos de Medicina (Carta Décima Segunda);
Critica o atraso nas Leis, tece considerações sobre a Jurisprudência e sobre a Teologia (Cartas Décima Terceira a Décima Quinta);
Realça a importância que se deveria atribuir à educação das mulheres e os efeitos benéficos que daí adviriam na vida conjugal, na vida social e na educação dos filhos (Carta Décima Sexta).


Esta obra, onde é evidente o Iluminismo católico, está em sintonia com as modernas correntes de pensamento europeu e dos trabalhos de filósofos como Descartes e Locke.


Eis os principais temas tratados:
·Realça a importância da Gramática, da Ortografia e da Pontuação, a superioridade da língua grega e a necessidade de estudar a língua em português e não em latim (Carta Primeira), condenando as gramáticas latinas em latim (Cartas Segunda e Terceira);
·Destaca a necessidade de incluir o estudo do grego e do hebraico nos cursos de Teologia e o estudo das línguas modernas - francês e italiano - para todas as ciências (Carta Quarta);
·Critica o barroco, descrevendo os vários estilos da oratória, referindo-se às qualidades do Padre António Vieira como epistológrafo e ao exagero como orador, pois "deixou-se arrebatar do estilo do seu tempo" (Cartas Quinta e Sexta);
·Refere a necessidade de uma Arte Poética portuguesa e partilha das opiniões de Boileau sobre a importância da verdade na Poesia; indica as duas qualidades essenciais do Poeta (engenho e juízo); critica o uso da mitologia pagã na poesia (a que nem Camões escapa) e das metáforas despropositadas nos poetas barrocos (Carta Sétima);
·Elogia os filósofos dos tempos modernos e destaca o papel da educação e da cultura como elementos fundamentais para a promoção social (Cartas Oitava a Décima Primeira);
·Destaca a importância da anatomia nos estudos de Medicina (Carta Décima Segunda);
·Critica o atraso nas Leis, tece considerações sobre a Jurisprudência e sobre a Teologia (Cartas Décima Terceira a Décima Quinta);
·Realça a importância que se deveria atribuir à educação das mulheres e os efeitos benéficos que daí adviriam na vida conjugal, na vida social e na educação dos filhos (Carta Décima Sexta).


Esta obra, onde é evidente o Iluminismo católico, está em sintonia com as modernas correntes de pensamento europeu e dos trabalhos de filósofos como Descartes e Locke.


Para além do Verdadeiro Método de Estudar (1746), deixou-nos ainda: Apparatus ad Philosophiam et Theologiam (1751), De Re Metaphysica (1753) e Gramatica Latina (1758).


Correia Garção


Pedro António Correia Garção (1724-1772) nasceu em Lisboa. Frequentou o curso de Direito da Universidade de Coimbra, mas teve de abandonar os estudos, tornando-se oficial de secretaria e redactor da Gazeta de Lisboa. É considerado um dos mais importantes poetas neoclássicos da literatura portuguesa. Pertenceu à Arcádia Lusitana, utilizando o pseudónimo de Corydon Erimantheo. As suas poesias foram publicadas em 1778 num só volume intitulado Obras Poéticas. Escreveu duas comédias: Teatro Novo e Assembleia ou Partida.
Nicolau Tolentino
Nicolau Tolentino de Almeida (1741-1811) nasceu em Lisboa. Estudou em Coimbra e, regressando a Lisboa, torna-se professor de retórica. Ensinou durante quinze anos, conseguindo então um lugar de oficial na Secretaria de Estado dos Negócios do Reino. Foi autor de sonetos, odes, cartas e sátiras, que foram publicados em 1801 no volume Obras Poéticas. Foi um dissidente da Arcádia Lusitana. A edição das suas obras de 1861, organizada por José Torres, inclui algumas gravuras da autoria de Nogueira da Silva.


Filinto Elísio


Filinto Elísio (1734-1819), pseudónimo do Padre Francisco Manuel do Nascimento, foi um dos mais importantes poetas do Neoclassicismo português. Apesar de ser clérigo, lendo livros racionalistas franceses proibidos pela Inquisição, teve de fugir para França, exilando-se em Paris em 1778. Estabeleceu relações de amizade com o poeta Lamartine. As suas poesias foram publicadas em Paris em onze volumes entre 1817 e 1819, seguindo-se uma segunda edição em Lisboa de vinte e dois volumes entre 1836 e 1840. Além de poeta era tradutor, vertendo para português os Mártires de Chateaubriand e as Fábulas de La Fontaine.


Anastácio da Cunha


José Anastácio da Cunha (1744-1787) nasceu em Lisboa e seguiu a  carreira das armas. Esteve algum tempo a fazer serviço em Valença como oficial de artilharia, sendo nomeado pelo Marquês de Pombal lente da Universidade de Coimbra devido aos seus profundos conhecimentos de Matemática. Além de obras sobre essa disciplina, escreveu poesia. É considerado um dos pré-românticos portugueses. As suas obras poéticas foram publicadas em 1836 sob o título de Composições Poéticas. Em 1826 foi  publicada em Paris A Voz da Razão.

POESIAS ARCÁDICAS

Jerónimo Baía  (1620/30-1688)                  


A UMA CRUELDADE FORMOSA


A minha bela ingrata
Cabelo de ouro tem, fronte de prata,
De bronze o coração, de aço o peito;
São os olhos luzentes
Por quem choro e suspiro,
Desfeito em cinza, em lágrimas desfeito,
Celestial safiro;
Os beiços são rubins, perlas os dentes;
A lustrosa garganta
De mármore polido;
A mão de jaspe, de alabastro a planta.
Que muito, pois, Cupido,
Que tenha tal rigor tanta lindeza,
As feições milagrosas,
Para igualar desdéns e formosuras,
De preciosos metais, pedras preciosas,
E de duros metais, de pedras duras?




Gregório de Matos (1636 – 1696)
        
Pintura admirável de uma beleza


Vês esse Sol de luzes coroado? 
Em pérolas a Aurora convertida?
Vês a Lua de estrelas guarnecida?
Vês o Céu de Planetas adorado?


O Céu deixemos; vês naquele prado
A Rosa com razão desvanecida?
A Açucena por alva presumida?
O Cravo por galã lisonjeado?


Deixa o prado; vem cá, minha adorada,
Vês de esse mar a esfera cristalina
Em sucessivo aljôfar desatada?


Parece aos olhos ser de prata fina?
 Vês tudo isto bem? Pois tudo é nada
 À vista do teu rosto, Caterina.


Soror Violante do Céu (1602-1693)


A el-rei D. João IV


Que logras Portugal? Um rei perfeito.
Quem o constituiu? Sacra piedade.
Que alcançaste com ele? A liberdade.
Que liberdade tens? Ser-lhe sujeito.


Que tens na sujeição? Honra e proveito.
Que é o novo rei? Quase deidade.
Que ostenta nas acções? Felicidade.
E que tem de feliz? Ser por Deus feito.


Que eras antes dele? Um labirinto.
Que te julgas agora? Um Firmamento.
Temes alguém? Não temo a mesma Parca.


Sentes alguma pena? Uma só sinto.
Qual é? Não ser um mundo, ou não ser cento
Para ser mais capaz de tal Monarca.




Tomás de Noronha (?-1651)


A um nariz grande


Hoje espero, nariz, de te assoar,
Se para te chegar a mão me dás,
 Ainda que impossível se me faz
Chegar a tanto eu como assoar-te,
Porque é chegar às nuvens o chegar-te.
Das musas a que for mais nariguda
Manda-lhe que me acuda,
Que se a fonte
De Pégaso é verdade está no monte,
O mais alto de todos em ti está
Porque monte tão alto não no há.


Falta o saber, nariz, para o louvor
De que és merecedor.
Que hei-de dizer?
Para espantares tu hão-te de ver,
Porque nunca se pode dizer tanto
Que faça como tu tão grande espanto.
És tão grande, nariz, que há opiniões,
E prova-o com razões
Certo moderno,
Que em comprimento és, nariz, eterno,
Porque ainda que princípio te soubemos,
Notícia de teu fim nunca tivemos.




Correia Garção


Soneto


O louro chá no bule fumegando
De Mandarins e Brâmanes cercado;
Brilhante açúcar em torrões cortado;
O leite na caneca branquejando;


Vermelhas brasas alvo pão tostando;
Ruiva manteiga em prato mui lavado;
O gado feminino rebanhado,
E o pisco Ganimedes apalpando:


A ponto a mesa está de enxaropar-nos.
Só falta que tu queiras, meu Sarmento,
Com teus discretos ditos alegrar-nos.


Se vens, ou caia chuva, ou brame o vento,
Não pode a longa noite enfastiar-nos,
Antes tudo será contentamento.




Nicolau Tolentino


Soneto


Chaves na mão, melena desgrenhada,
Batendo o pé na casa, a mãe ordena
Que o furtado colchão, fofo e de pena,
A filha o ponha ali ou a criada.


A filha, moça esbelta e aperaltada,
Lhe diz co'a doce voz que o ar serena:
- «Sumiu-se-lhe um colchão, é forte pena!
Olhe não fique a casa arruinada...»


- «Tu respondes assim? Tu zombas disto?
Tu cuidas que por ter pai embarcado,
Já a mãe não tem mãos?» E, dizendo isto,


Arremete-lhe à cara e ao penteado.
Eis senão quando (caso nunca visto!)
Sai-lhe o colchão de dentro do toucado.




Filinto Elísio


Soneto


Estende o manto, estende, ó noite escura,
Enluta de horror feio o alegre prado;
Molda-o bem c'o pesar dum desgraçado,
A quem nem feições lembram da ventura.


Nubla as estrelas, céu, que esta amargura
Em que se agora ceva o meu cuidado,
Gostará de ver tudo assim trajado
Da negra cor da minha desventura.


Ronquem roucos trovões, rasguem-se os ares,
Rebentem o mar em vão n'ocos rochedos,
Solte-se o céu em grossas lanças de água.


Consolar-me só podem já pesares;
Quero nutrir-me de arriscados medos,
Quero saciar de mágoa a minha mágoa!

Padre António Vieira SERMÃO DE SANTO ANTÓNIO AOS PEIXES

Vos estis sal terræ (S. Mateus, 5)


I


Vós, diz Cristo Senhor nosso, falando com os pregadores, sois o sal da terra: e chama-lhes sal da terra, porque quer que façam na terra o que faz o sal. O efeito do sal é impedir a corrupção, mas quando a terra se vê tão corrupta como está a nossa, havendo tantos nela que têm ofício de sal, qual será, ou qual pode ser a causa desta corrupção? Ou é porque o sal não salga, ou porque a terra se não deixa salgar. Ou é porque o sal não salga, e os pregadores não pregam a verdadeira doutrina; ou porque a terra se não deixa salgar, e os ouvintes, sendo verdadeira a doutrina que lhe dão, a não querem receber. Ou é porque o sal não salga, e os pregadores dizem uma cousa e fazem outra; ou porque a terra se não deixa salgar, e os ouvintes querem antes imitar o que eles fazem, que fazer o que dizem. Ou é porque o sal não salga, e os pregadores se pregam a si e não a Cristo; ou porque a terra se não deixa salgar, e os ouvintes, em vez de servir a Cristo, servem a seus apetites. Não é tudo isto verdade? Ainda mal.


Suposto, pois, que, ou o sal não salgue ou a terra se não deixe salgar; que se há-de fazer a este sal, e que se há-de fazer a esta terra? O que se há-de fazer ao sal que não salga? Cristo o disse logo: Quod si sal evanuerit, in quo salietur? Ad nihilum valet ultra, nisi ut mittatur foras et conculcetur ab hominibus (Mateus V - 13). Se o sal perder a substância e a virtude, e o pregador faltar à doutrina e ao exemplo, o que se lhe há-de fazer, é lançá-lo fora como inútil, para que seja pisado de todos. Quem se atreverá a dizer tal cousa, se o mesmo Cristo a não pronunciara? Assim como não há quem seja mais digno de reverência e de ser posto sobre a cabeça, que o pregador que ensina e faz o que deve; assim é merecedor de todo o desprezo e de ser metido debaixo dos pés o que com a palavra ou com a vida prega o contrário.


Isto é o que se deve fazer ao sal que não salga. E à terra, que se não deixa salgar, que se lhe há-de fazer? Este ponto não resolveu Cristo Senhor nosso no Evangelho; mas temos sobre ele a resolução do nosso grande português Santo António, que hoje celebramos, e a mais galharda e gloriosa resolução que nenhum santo tomou. Pregava Santo António em Itália na cidade de Arimino, contra os hereges, que nela eram muitos; e como erros de entendimento são dificultosos de arrancar, não só não fazia fruto o santo, mas chegou o povo a se levantar contra ele, e faltou pouco para que lhe não tirassem a vida. Que faria neste caso o ânimo generoso do grande António? Sacudiria o pó dos sapatos, como Cristo aconselha em outro lugar? Mas António com os pés descalços não podia fazer esta protestação; e uns pés, a que se não pegou nada da terra, não tinham que sacudir. Que faria logo? Retirar-se-ia? Calar-se-ia? Dissimularia? Daria tempo ao tempo? Isso ensinaria porventura a prudência, ou a covardia humana; mas o zelo da glória divina, que ardia naquele peito, não se rendeu a semelhantes partidos. Pois que fez? Mudou somente o púlpito e o auditório, mas não desistiu da doutrina. Deixa as praças, vai-se às praias; deixa a terra, vai-se ao mar, e começa a dizer a altas vozes: Já que me não querem ouvir os homens, ouçam-me os peixes. Oh, maravilhas do Altíssimo! Oh, poderes do que criou o mar e a terra! Começam a ferver as ondas, começam a concorrer os peixes, os grandes, os maiores, os pequenos, e postos todos por sua ordem com as cabeças de fora da água, António pregava e eles ouviam.


Se a Igreja quer que preguemos de Santo António sobre o Evangelho, dê-nos outro. Vos estis sal terræ. É muito bom o texto para os outros santos doutores; mas para Santo António vem-lhe muito curto. Os outros santos doutores da Igreja foram sal da terra, Santo António foi sal da terra e foi sal do mar. Este é o assunto que eu tinha para tomar hoje. Mas há muitos dias que tenho metido no pensamento que nas festas dos santos é melhor pregar como eles, que pregar deles. Quanto mais que o são da minha doutrina, qualquer que ele seja, tem tido nesta terra uma fortuna tão parecida à de Santo António em Arimino, que é força segui-la em tudo. Muitas vezes vos tenho pregado nesta igreja, e noutras, de manhã e de tarde, de dia e de noite, sempre com doutrina muito clara, muito sólida, muito verdadeira, e a que mais necessária e importante é a esta terra, para emenda e reforma dos vícios que a corrompem. O fruto que tenho colhido desta doutrina, e se a terra tem tomado o sal, ou se tem tomado dele, vós o sabeis e eu por vós o sinto.


Isto suposto, quero hoje, à imitação de Santo António, voltar-me da terra ao mar e, já que os homens se não aproveitam, pregar aos peixes. O mar está tão perto que bem me ouvirão. Os demais podem deixar o sermão, pois não é para eles. Maria, quer dizer, Domina maris: «Senhora do mar»; e posto que o assunto seja tão desusado, espero que me não falte com a costumada graça. Ave Maria.


II


Enfim, que havemos de pregar hoje aos peixes? Nunca pior auditório. Ao menos têm os peixes duas boas qualidades de ouvintes: ouvem e não falam. Uma só cousa pudera desconsolar ao pregador, que é serem gente os peixes que se não há-de converter. Mas esta dor é tão ordinária, que já pelo costume quase se não sente. Por esta causa não falarei hoje em Céu nem Inferno; e assim será menos triste este sermão, do que os meus parecem aos homens, pelos encaminhar sempre à lembrança destes dois fins.


Vos estis sal terræ. Haveis de saber, irmãos peixes, que o sal, filho do mar como vós, tem duas propriedades, as quais em vós mesmos se experimentam: conservar o são e preservá-lo, para que se não corrompa. Estas mesmas propriedades tinham as pregações do vosso pregador Santo António, como também as devem ter as de todos os pregadores. Uma é louvar o bem, outra repreender o mal: louvar o bem para o conservar e repreender o mal para preservar dele. Nem cuideis que isto pertence só aos homens, porque também nos peixes tem seu lugar. Assim diz o grande doutor da Igreja S. Basílio: Non carpere solum, reprehendereque possumus pisces, sed sunt in illis, et quæ prosequenda sunt imitatione. Não só há que notar, diz o santo, e que repreender nos peixes, senão também que imitar e louvar. Quando Cristo comparou a sua Igreja à rede de pescar: Sagenæ missæ in mare (Mateus XIII - 47), diz que os pescadores recolheram os peixes bons e lançaram fora os maus: Ellegerunt bonos in vasa, malos autem foras miserunt (Ibid. XIII - 48). E onde há bons e maus, há que louvar e que repreender. Suposto isto, para que procedamos com clareza, dividirei, peixes, o vosso sermão em dois pontos: no primeiro louvar-vos-ei as vossas atitudes, no segundo repreender-vos-ei os vossos vícios. E desta maneira satisfaremos às obrigações do sal, que melhor vos está ouvi-las vivos, que experimentá-las depois de mortos.


Começando, pois, pelos vossos louvores, irmãos peixes, bem vos pudera eu dizer, que entre todas as criaturas viventes e sensitivas, vós fostes as primeiras que Deus criou. A vós criou primeiro que as aves do ar, a vós primeiro que aos animais da terra, e a vós primeiro que ao mesmo homem. Ao homem deu Deus a monarquia e o domínio de todos os animais dos três elementos, e nas provisões, em que o honrou com estes poderes, os primeiros nomeados foram os peixes: Ut præsit piscibus maris, et volatilibus cæli, et bestiis, universaeque terræ (Génes. I - 26). Entre todos os animais do mundo, os peixes são os mais e os peixes maiores. Que comparação têm em número as espécies das aves e as dos animais terrestres com as dos peixes? Que comparação na grandeza o elefante com a baleia? Por isso Moisés, cronista da criação, calando os nomes de todos os animais, só a ela nomeou pelo seu: Creavit Deus cete grandia (Ibid. I - 21). E os três músicos da fornalha da Babilónia o cantaram também como singular entre todos: Benedicite, cete et omnia quæ moventur in aquis, Domino (Dan. III - 79). Estes e outros louvores, estas e outras excelências de vossa geração e grandeza vos pudera dizer, ó peixes; mas isto é lá para os homens, que se deixam levar destas vaidades, e é também para os lugares em que tem lugar a adulação, e não para o púlpito.


Vindo pois, irmãos, às vossas virtudes, que são as que só podem dar o verdadeiro louvor, a primeira que se me oferece aos olhos, hoje, é aquela obediência, com que chamados acudistes todos pela honra de vosso Criador e Senhor, e aquela ordem, quietação e atenção com que ouvistes a palavra de Deus da boca de seu servo António. Oh, grande louvor verdadeiramente para os peixes, e grande afronta e confusão para os homens! Os homens perseguindo a António, querendo-o lançar da terra e ainda do mundo, se pudessem, porque lhe repreendia seus vícios, porque lhe não queria falar à vontade e condescender com seus erros, e no mesmo tempo os peixes em inumerável concurso acudindo a sua voz, atentos e suspensos às suas palavras, escutando com silêncio, e com sinais de admiração e assenso (como se tiveram entendimento) o que não entendiam. Quem olhasse neste passo para o mar e para a terra, e visse na terra os homens tão furiosos e obstinados e no mar os peixes tão quietos e tão devotos, que havia de dizer? Poderia cuidar que os peixes irracionais se tinham convertido em homens, e os homens não em peixes, mas em feras. Aos homens deu Deus uso de razão, e não aos peixes; mas neste caso os homens tinham a razão sem o uso, e os peixes o uso sem a razão. Muito louvor mereceis, peixes, por este respeito e devoção que tivestes aos pregadores da palavra de Deus, e tanto mais quanto não foi só esta a vez em que assim o fizestes. Ia Jonas, pregador do mesmo Deus, embarcado em um navio, quando se levantou aquela grande tempestade; e como o trataram os homens, como o trataram os peixes? Os homens lançaram-no ao mar a ser comido dos peixes, e o peixe que o comeu, levou-o às praias de Nínive, para que lá pregasse e salvasse aqueles homens. É possível que os peixes ajudam a salvação dos homens, e os homens lançam ao mar os ministros da salvação? Vede, peixes, e não vos venha vanglória, quanto melhor sois que os homens. Os homens tiveram entranhas para deitar Jonas ao mar, e o peixe recolheu nas entranhas a Jonas, para o levar vivo à terra.


Mas porque nestas duas acções teve maior parte a omnipotência que a natureza (como também em todas as milagrosas que obram os homens), passo às virtudes naturais e próprias vossas. Falando dos peixes, Aristóteles diz que só eles entre todos os animais se não domam nem domesticam. Dos animais terrestres o cão é tão doméstico, o cavalo tão sujeito, o boi tão serviçal, o bugio tão amigo ou tão lisonjeiro, e até os leões e os tigres com arte e benefícios se amansam. Dos animais do ar, afora aquelas aves que se criam e vivem connosco, o papagaio nos fala, o rouxinol nos canta, o açor nos ajuda e nos recreia; e até as grandes aves de rapina, encolhendo as unhas, reconhecem a mão de quem recebem o sustento. Os peixes, pelo contrário, lá se vivem nos seus mares e rios, lá se mergulham nos seus pegos, lá se escondem nas suas grutas, e não há nenhum tão grande que se fie do homem, nem tão pequeno que não fuja dele. Os autores comummente condenam esta condição dos peixes, e a deitam à pouca docilidade ou demasiada bruteza; mas eu sou de mui diferente opinião. Não condeno, antes louvo muito aos peixes este seu retiro, e me parece que se não fora natureza, era grande prudência. Peixes! Quanto mais longe dos homens, tanto melhor; trato e familiaridade com eles, Deus vos livre! Se os animais da terra e do ar querem ser seus familiares, façam-no muito embora, que com suas pensões o fazem. Cante-lhe aos homens o rouxinol, mas na sua gaiola; diga-lhe ditos o papagaio, mas na sua cadeia; vá com eles à caça o açor, mas nas suas piozes; faça-lhe bufonerias o bugio, mas no seu cepo; contente-se o cão de lhe roer um osso, mas levado onde não quer pela trela; preze-se o boi de lhe chamarem fermoso ou fidalgo, mas com o jugo sobre a cerviz, puxando pelo arado e pelo carro; glorie-se o cavalo de mastigar freios dourados, mas debaixo da vara e da espora; e se os tigres e os leões lhe comem a ração da carne que não caçaram nos bosques, sejam presos e encerrados com grades de ferro. E entretanto vós, peixes, longe dos homens e fora dessas cortesanias, vivereis só convosco, sim, mas como peixe na água. De casa e das portas adentro tendes o exemplo de toda esta verdade, o qual vos quero lembrar, porque há filósofos que dizem que não tendes memória.


No tempo de Noé sucedeu o dilúvio que cobriu e alagou o mundo, e de todos os animais quais livraram melhor? Dos leões escaparam dois, leão e leoa, e assim dos outros animais da terra; das águias escaparam duas, fêmea e macho, e assim das outras aves. E dos peixes? Todos escaparam, antes não só escaparam todos, mas ficaram muito mais largos que dantes, porque a terra e o mar tudo era mar. Pois se morreram naquele universal castigo todos os animais da terra e todas as aves, porque não morreram também os peixes? Sabeis porquê? Diz Santo Ambrósio: porque os outros animais, como mais domésticos ou mais vizinhos, tinham mais comunicação com os homens, os peixes viviam longe e retirados deles. Facilmente pudera Deus fazer que as águas fossem venenosas e matassem todos os peixes, assim como afogaram todos os outros animais. Bem o experimentais na força daquelas ervas com que, infeccionados os poços e lagos da mesma água vos mata; mas como o dilúvio era um castigo universal que Deus dava aos homens por seus pecados, e ao mundo pelos pecados dos homens, foi altíssima providência da divina justiça que nele houvesse esta diversidade ou distinção, para que o mesmo mundo visse que da companhia dos homens lhe viera todo o mal e que por isso os animais que viviam mais perto deles foram também castigados e os que andavam longe ficaram livres. Vede, peixes, quão grande bem é estar longe dos homens. Perguntado um grande filósofo, qual era a melhor terra do mundo, respondeu que a mais deserta, porque tinha os homens mais longe. Se isto vos pregou também Santo António, e foi este um dos benefícios de que vos exortou a dar graças ao Criador, bem vos pudera alegar consigo, que quanto mais buscava a Deus, tanto mais fugia dos homens. Para fugir dos homens deixou a casa de seus pais e se recolheu ou acolheu a uma religião, onde professasse perpétua clausura. E porque nem aqui o deixavam os que ele tinha deixado, primeiro deixou Lisboa, depois Coimbra, e finalmente Portugal. Para fugir e se esconder dos homens, mudou o hábito, mudou o nome, e até a si mesmo se mudou, ocultando sua grande sabedoria debaixo da opinião de idiota, com que não fosse conhecido nem buscado, antes deixado de todos, como lhe sucedeu com seus próprios irmãos no capítulo geral de Assis. De ali se retirou a fazer vida solitária em um ermo, do qual nunca saíra, se Deus como por força o não manifestara, e por fim acabou a vida em outro deserto tanto mais unido com Deus, quanto mais apartado dos homens.


III
Este é, peixes, em comum o natural que em todos vós louvo, e a felicidade de que vos dou o parabém, não sem inveja. Descendo ao particular, infinita matéria fora se houvera de discorrer pelas virtudes de que o autor da natureza a dotou e fez admirável em cada um de vós. De alguns somente farei menção. E o que tem o primeiro lugar entre todos como tão celebrado na Escritura, é aquele santo peixe de Tobias, a quem o texto sagrado não dá outro nome, que de grande, como verdadeiramente o foi nas virtudes interiores, em que só consiste a verdadeira grandeza. Ia Tobias caminhando com o anjo S. Rafael, que o acompanhava, e descendo a lavar os pés do pó do caminho nas margens de um rio, eis que o investe um grande peixe com a boca aberta em acção de que o queria tragar. Gritou Tobias assombrado, mas o anjo lhe disse que pegasse no peixe pela barbatana e o arrastasse para terra; que o abrisse e lhe tirasse as entranhas e as guardasse, porque lhe haviam de servir muito. Fê-lo assim Tobias, e perguntando que virtude tinham as entranhas daquele peixe que lhe mandara guardar, respondeu o anjo que o fel era bom para sarar da cegueira, e o coração para lançar fora os demónios: Cordis ejus particulam, si super carbones ponas, fumus ejus extricat omne genus Dæmoniorum: et fel valet ad ungendos, oculos, in quibus fuerit albugo, et sanabuntur (Tob. VI - 8). Assim o disse o anjo, e assim o mostrou logo a experiência, porque sendo o pai de Tobias cego, aplicando-lhe o filho aos olhos um pequeno do fel, cobrou inteiramente a vista; e tendo um demónio chamado Asmodeu morto sete maridos a Sara, casou com ela o mesmo Tobias; e queimando na casa parte do coração, fugiu dali o demónio e nunca mais tornou. De sorte que o fel daquele peixe tirou a cegueira a Tobias, o velho, e lançou os demónios de casa de Tobias, o moço. Um peixe de tão bom coração e de tão proveitoso fel, quem o não louvará muito? Certo que se a este peixe o vestiram de burel e o ataram com uma corda, parecia um retrato marítimo de Santo António.


Abria Santo António a boca contra os hereges, e enviava-se a eles, levado do fervor e zelo da fé e glória divina. E eles que faziam? Gritavam como Tobias e assombravam-se com aquele homem e cuidavam que os queria comer. Ah homens, se houvesse um anjo que revelasse qual é o coração desse homem e esse fel que tanto vos amarga, quão proveitoso e quão necessário vos é! Se vós lhe abrísseis esse peito e lhe vísseis as entranhas, como é certo que havíeis de achar e conhecer claramente nelas que só duas cousas pretende de vós, e convosco: uma é alumiar e curar vossas cegueiras, e outra lançar-vos os demónios fora de casa. Pois a quem vos quer tirar as cegueiras, a quem vos quer livrar dos demónios, perseguis vós?! Só uma diferença havia entre Santo António e aquele peixe: que o peixe abriu a boca contra quem se lavava, e Santo António abria a sua contra os que não queriam lavar.


Ah moradores do Maranhão, quanto eu vos pudera agora dizer neste caso! Abri, abri estas entranhas; vede, vede este coração. Mas ah sim, que me não lembrava! Eu não vos prego a vós, prego aos peixes.


Passando dos da Escritura aos da história natural, quem haverá que não louve e admire muito a virtude tão celebrada da rémora ? No dia de um santo menor, os peixes menores devem preferir aos outros. Quem haverá, digo, que não admire a virtude daquele peixezinho tão pequeno no corpo e tão grande na força e no poder, que, não sendo maior de um palmo, se se pega ao leme de uma nau da Índia, apesar das velas e dos ventos, e de seu próprio peso e grandeza, a prende e amarra mais que as mesmas âncoras, sem se poder mover, nem ir por diante? Oh se houvera uma rémora na terra, que tivesse tanta força como a do mar, que menos perigos haveria na vida, e que menos naufrágios no mundo!


Se alguma rémora houve na terra, foi a língua de Santo António, na qual, como na rémora, se verifica o verso de São Gregório Nazianzeno: Lingua quidem parva est, sed viribus omnia vincit. O Apóstolo Santiago, naquela sua eloquentíssima Epístola, compara a língua ao leme da nau e ao freio do cavalo. Uma e outra comparação juntas declaram maravilhosamente a virtude da rémora, a qual, pegada ao leme da nau, é freio da nau e leme do leme. E tal foi a virtude e força da língua de Santo António. O leme da natureza humana é o alvedrio, o piloto é a razão; mas quão poucas vezes obedecem à razão os ímpetos precipitados do alvedrio? Neste leme, porém, tão desobediente e rebelde, mostrou a língua de António quanta força tinha, como rémora, para domar a fúria das paixões humanas. Quantos, correndo fortuna na nau Soberba, com as velas inchadas do vento e da mesma soberba (que também é vento), se iam desfazer nos baixos, que já rebentavam por proa, se a língua de António, como rémora, não tivesse mão no leme, até que as velas se amainassem, como mandava a razão, e cessasse a tempestade de fora e a de dentro? Quantos, embarcados na nau Vingança, com a artilharia abocada e os bota-fogos acesos, corriam enfunados a dar-se batalha, onde se queimariam ou deitariam a pique, se a rémora da língua de António lhe não detivesse a fúria, até que composta a ira e ódio, com bandeiras de paz se salvassem amigavelmente? Quantos, navegando na nau Cobiça, sobrecarregada até às gáveas e aberta com o peso por todas as costuras, incapaz de fugir, nem se defender, dariam nas mãos dos corsários com perda do que levavam e do que iam buscar, se a língua de António os não fizesse parar, como rémora, até que, aliviados da carga injusta, escapassem do perigo e tomassem porto? Quantos, na nau Sensualidade, que sempre navega com cerração, sem sol de dia, nem estrelas de noite, enganados do canto das sereias e deixando-se levar da corrente, se iriam perder cegamente, ou em Cila, ou em Caríbdis, onde não aparecesse navio nem navegante, se a rémora da língua de António os não contivesse, até que esclarecesse a luz, e se pusessem em vista?


Esta é a língua, peixes, do vosso grande pregador, que também foi rémora vossa, enquanto o ouvistes; e porque agora está muda (posto que ainda se conserva inteira) se vêem e choram na terra tantos naufrágios.


Mas para que da admiração de uma tão grande virtude vossa, passemos ao louvor ou inveja de outra não menor, admirável é igualmente a qualidade daquele outro peixezinho, a que os latinos chamaram torpedo. Ambos estes peixes conhecemos cá mais de fama que de vista; mas isto têm as virtudes grandes, que quanto são maiores, mais se escondem. Está o pescador com a cana na mão, o anzol no fundo e a bóia sobre a água, e em lhe picando na isca o torpedo, começa a lhe tremer o braço. Pode haver maior, mais breve e mais admirável efeito? De maneira que, num momento, passa a virtude do peixezinho, da boca ao anzol, do anzol à linha, da linha à cana e da cana ao braço do pescador.


Com muita razão disse, que este vosso louvor o havia de referir com inveja. Quem dera aos pescadores do nosso elemento, ou quem lhe pusera esta qualidade tremente, em tudo o que pescam na terra! Muito pescam, mas não me espanto do muito; o que me espanta é que pesquem tanto, e que tremam tão pouco. Tanto pescar e tão pouco tremer!


Pudera-se fazer problema: onde há mais pescadores e mais modos e traças, de pescar, se no mar ou na terra? E é certo que na terra. Não quero discorrer por eles, ainda que fora grande consolação para os peixes; baste fazer a comparação com a cana, pois é o instrumento do nosso caso. No mar, pescam-se as canas, na terra pescam as varas (e tanta sorte de varas); pescam as ginetas, pescam as bengalas, pescam os bastões e até os ceptros pescam, e pescam mais que todos, porque pescam cidades e reinos inteiros. Pois é possível que pescando os homens cousas de tanto peso, lhes não trema a mão e o braço?! Se eu pregara aos homens e tivera a língua de Santo António, eu os fizera tremer.


Vinte e dois pescadores destes se acharam acaso a um sermão de Santo António, e as palavras do Santo os fizeram tremer a todos de sorte que todos, tremendo, se lançaram a seus pés, todos, tremendo, confessaram seus furtos, todos, tremendo, restituíram o que podiam (que isto é o que faz tremer mais neste pecado que nos outros), todos enfim mudaram de vida e de ofício, e se emendaram.


Quero acabar este discurso dos louvores e virtudes dos peixes com um, que não sei se foi ouvinte de Santo António e aprendeu dele a pregar. A verdade é que me pregou a mim, e se eu fora outro, também me convertera. Navegando de aqui para o Pará (que é bem não fiquem de fora os peixes da nossa costa), vi correr pela tona da água de quando em quando, a saltos, um cardume de peixinhos que não conhecia; e como me dissessem que os Portugueses lhe chamavam quatro-olhos, quis averiguar ocularmente a razão deste nome, e achei que verdadeiramente têm quatro olhos, em tudo cabais e perfeitos. Dá graças a Deus, lhe disse, e louva a liberalidade de sua Divina Providência para contigo; pois às águias, que são os linces do ar, deu somente dois olhos, e aos linces, que são as águias da terra, também dois; e a ti, peixezinho, quatro. Mais me admirei ainda, considerando nesta maravilha a circunstância do lugar. Tantos instrumentos de vista a um bichinho do mar, nas praias daquelas mesmas terras vastíssimas, onde permite Deus que estejam vivendo em cegueira tantos milhares de gentes há tantos séculos?! Oh quão altas e incompreensíveis são as razões de Deus, e quão profundo o abismo de seus juízos!


Filosofando, pois, sobre a causa natural desta providência, notei que aqueles quatro olhos estão lançados um pouco fora do lugar ordinário, e cada par deles, unidos como os dois vidros de um relógio de areia, em tal forma que os da parte superior olham direitamente para cima, e os da parte inferior direitamente para baixo. E a razão desta nova arquitectura, é porque estes peixezinhos, que sempre andam na superfície da água, não só são perseguidos dos outros peixes maiores do mar, senão também de grande quantidade de aves marítimas, que vivem naquelas praias; e como têm inimigos no mar e inimigos no ar, dobrou-lhes a natureza as sentinelas e deu-lhes dois olhos, que direitamente olhassem para cima, para se vigiarem das aves, e outros dois que direitamente olhassem para baixo, para se vigiarem dos peixes.


Oh que bem informaram estes quatro olhos uma alma racional, e que bem empregada fora neles, melhor que em muitos homens! Esta é a pregação que me fez aquele peixezinho, ensinando-me que, se tenho fé e uso de razão, só devo olhar direitamente para cima, e só direitamente para baixo: para cima, considerando que há Céu, e para baixo, lembrando-me que há Inferno. Não me alegou para isso passo da Escritura; mas então me ensinou o que quis dizer David em um, que eu não entendia: Averte oculos meos ne videant vanitatem (Salmo CXVIII - 37). Voltai-me, Senhor, os olhos para que não vejam a vaidade. Pois David não podia voltar os seus olhos para onde quisesse? Do modo que ele queria, não. Ele queria voltados os seus olhos, de modo que não vissem a vaidade, e isto não o podia fazer neste mundo, para qualquer parte que voltasse os olhos, porque neste mundo tudo é vaidade: Vanitas vanitatum, et omnia vanitas (Ecles. I - 2). Logo, para não verem os olhos de David a vaidade, havia-lhos de voltar Deus de modo que só vissem e olhassem para o outro mundo em ambos seus hemisférios; ou para o de cima, olhando direitamente só para o Céu, ou para o de baixo, olhando direitamente só para o Inferno. E esta é a mercê que pedia a Deus aquele grande Profeta, e esta a doutrina que me pregou aquele peixezinho tão pequeno.


Mas ainda que o Céu e o Inferno se não fez para vós, irmãos peixes, acabo, e dou fim a vossos louvores, com vos dar as graças do muito que ajudais a ir ao Céu e não ao Inferno, os que se sustentam de vós. Vós sois os que sustentais as Cartuxas e os Buçacos, e todas as santas famílias, que professam mais rigorosa austeridade; vós os que a todos os verdadeiros cristãos ajudais a levar a penitência das quaresmas; vós aqueles com que o mesmo Cristo festejou a sua páscoa, as duas vezes que comeu com seus discípulos depois de ressuscitado. Prezem-se as aves e os animais terrestres de fazer esplêndidos e custosos os banquetes dos ricos, e vós gloriai-vos de ser companheiros do jejum e da abstinência dos justos. Tendes todos quantos sois tanto parentesco e simpatia com a virtude, que, proibindo Deus no jejum a pior e mais grosseira carne, concede o melhor e mais delicado peixe. E posto que na semana só dois se chamam vossos, nenhum dia vos é vedado. Um só lugar vos deram os astrólogos entre os signos celestes, mas os que só de vós se mantêm na terra, são os que têm mais seguros os lugares do Céu. Enfim, sois criaturas daquele elemento, cuja fecundidade entre todos é própria do Espírito Santo: Spiritus Domini fæcundabat aquas(Génes. I - 5 Sept.).


Deitou-vos Deus a bênção, que crescêsseis e multiplicásseis; e para que o Senhor vos confirme essa bênção, lembrai-vos de não faltar aos pobres com o seu remédio. Entendei que no sustento dos pobres tendes seguros os vossos aumentos. Tomai o exemplo nas irmãs sardinhas. Porque cuidais que as multiplica o Criador em número tão inumerável? Porque são sustento de pobres. Os solhos e os salmões são muito contados, porque servem à mesa dos reis e dos poderosos; mas o peixe que sustenta a fome dos pobres de Cristo, o mesmo Cristo o multiplica e aumenta. Aqueles dois peixes companheiros dos cinco pães do deserto, multiplicaram tanto, que deram de comer a cinco mil homens. Pois se peixes mortos, que sustentam a pobres, multiplicam tanto, quanto mais e melhor o farão os vivos! Crescei, peixes, crescei e multiplicai, e Deus vos confirme a sua bênção.


IV


Antes, porém, que vos vades, assim como ouvistes os vossos louvores, ouvi também agora as vossas repreensões. Servir-vos-ão de confusão, já que não seja de emenda. A primeira cousa que me desedifica, peixes, de vós, é que vos comeis uns aos outros. Grande escândalo é este, mas a circunstância o faz ainda maior. Não só vos comeis uns aos outros, senão que os grandes comem os pequenos. Se fora pelo contrário, era menos mal. Se os pequenos comeram os grandes, bastara um grande para muitos pequenos; mas como os grandes comem os pequenos, não bastam cem pequenos, nem mil, para um só grande. Olhai como estranha isto Santo Agostinho: Homines pravis, præversisque cupiditatibus facti sunt, sicut piscis invicem se devorantes: «Os homens com suas más e perversas cobiças, vêm a ser como os peixes que se comem uns aos outros». Tão alheia cousa é, não só da razão, mas da mesma natureza, que, sendo todos criados no mesmo elemento, todos cidadãos da mesma pátria, e todos finalmente irmãos, vivais de vos comer! Santo Agostinho, que pregava aos homens, para encarecer a fealdade deste escândalo, mostrou-lho nos peixes; e eu, que prego aos peixes, para que vejais quão feio e abominável é, quero que o vejais nos homens.


Olhai, peixes, lá do mar para a terra. Não, não: não é isso o que vos digo. Vós virais os olhos para os matos e para o sertão? Para cá, para cá; para a cidade é que haveis de olhar. Cuidais que só os Tapuias se comem uns aos outros? Muito maior açougue é o de cá, muito mais se comem os brancos. Vedes vós todo aquele bulir, vedes todo aquele andar, vedes aquele concorrer às praças e cruzar as ruas; vedes aquele subir e descer as calçadas, vedes aquele entrar e sair sem quietação nem sossego? Pois tudo aquilo é andarem buscando os homens como hão-de comer, e como se hão-de comer. Morreu algum deles, vereis logo tantos sobre o miserável a despedaçá-lo e comê-lo. Comem-no os herdeiros, comem-no os testamenteiros, comem-no os legatários, comem-no os acredores; comem-no os oficiais dos órfãos, e os dos defuntos e ausentes; come-o o médico, que o curou ou ajudou a morrer; come-o o sangrador que lhe tirou o sangue; come-o a mesma mulher, que de má vontade lhe dá para mortalha o lençol mais velho da casa; come-o o que lhe abre a cova, o que lhe tange os sinos, e os que, cantando, o levam a enterrar; enfim, ainda o pobre defunto o não comeu a terra, e já o tem comido toda a terra.


Já se os homens se comeram somente depois de mortos, parece que era menos horror e menos matéria de sentimento. Mas para que conheçais a que chega a vossa crueldade, considerai, peixes, que também os homens se comem vivos assim como vós. Vivo estava Job, quando dizia: Quare persequimini me, et carnibus meis saturamini? (Job, XIX - 22): «Porque me perseguis tão desumanamente, vós, que me estais comendo vivo e fartando-vos da minha carne?» Quereis ver um Job destes?


Vede um homem desses que andam perseguidos de pleitos ou acusados de crimes, e olhai quantos o estão comendo. Come-o o meirinho, come-o o carcereiro, come-o o escrivão, come-o o solicitador, come-o o advogado, come-o o inquiridor, come-o a testemunha, come-o o julgador, e ainda não está sentenciado, já está comido. São piores os homens que os corvos. O triste que foi à forca, não o comem os corvos senão depois de executado e morto; e o que anda em juízo, ainda não está executado nem sentenciado, e já está comido.


E para que vejais como estes comidos na terra são os pequenos, e pelos mesmos modos com que vós comeis no mar, ouvi a Deus queixando-se deste pecado: Nonne cognoscent omnes, qui operantur iniquitatem, qui devorant plebem meam, ut cibum panis (Salmo Xlll - 4). Cuidais, diz Deus, que não há-de vir tempo em que conheçam e paguem o seu merecido aqueles que cometem a maldade? E que maldade é esta, à qual Deus singularmente chama a maldade, como se não houvera outra no mundo? E quem são aqueles que a cometem? A maldade é comerem-se os homens uns aos outros, e os que a cometem são os maiores que comem os pequenos: Qui devorant plebem meam, ut cibum panis.


Nestas palavras, pelo que vos toca, importa, peixes, que advirtais muito outras tantas cousas, quantas são as mesmas palavras. Diz Deus que comem os homens não só o seu povo, senão declaradamente a sua plebe! Plebem meam, porque a plebe e os plebeus, que são os mais pequenos, os que menos podem e os que menos avultam na república, estes são os comidos. E não só diz que os comem de qualquer modo, senão que os engolem e os devoram: Qui devorant. Porque os grandes que têm o mando das cidades e das províncias, não se contenta a sua fome de comer os pequenos um por um, ou poucos a poucos, senão que devoram e engolem os povos inteiros: Qui devorant plebem meam. E de que modo os devoram e comem? Ut cibum panis: não como os outros comeres, senão como pão. A diferença que há entre o pão e os outros comeres, é que para a carne, há dias de carne, e para o peixe, dias de peixe, e para as frutas, diferentes meses no ano; porém o pão é comer de todos os dias, que sempre e continuadamente se come; e isto é o que padecem os pequenos. São o pão quotidiano dos grandes; e assim como o pão se come com tudo, assim com tudo e em tudo são comidos os miseráveis pequenos, não tendo, nem fazendo ofício em que os não carreguem, em que os não multem, em que os não defraudem, em que os não comam, traguem e devorem: Qui devorant plebem meam, ut cibum panis.


Parece-vos bem isto, peixes? Representa-se-me que com o movimento das cabeças estais todos dizendo que não, e com olhardes uns para os outros, vos estais admirando e pasmando de que entre os homens haja tal injustiça e maldade! Pois isto mesmo é o que vós fazeis. Os maiores comeis os pequenos; e os muito grandes não só os comem um por um, senão os cardumes inteiros, e isto continuadamente sem diferença de tempos, não só de dia, senão também de noite, às claras e às escuras, como também fazem os homens.


Se cuidais, porventura, que estas injustiças entre vós se toleram e passam sem castigo, enganais-vos. Assim como Deus as castiga nos homens, assim também por seu modo as castiga em vós. Os mais velhos, que me ouvis e estais presentes, bem vistes neste Estado, e quando menos ouviríeis murmurar aos passageiros nas canoas, e muito mais lamentar aos miseráveis remeiros delas, que os maiores que cá foram mandados, em vez de governar e aumentar o mesmo Estado, o destruíram; porque toda a fome que de lá traziam, a fartavam em comer e devorar os pequenos.


Assim, foi; mas, se entre vós se acham acaso alguns dos que, seguindo a esteira dos navios, vão com eles a Portugal e tornam para os mares pátrios, bem ouviriam estes lá no Tejo, que esses mesmos maiores, que cá comiam os pequenos, quando lá chegam acham outros maiores que os comam também a eles. Este é o estilo da divina justiça tão antigo e manifesto, que até os gentios o conheceram e celebraram:


Vos quibus rector maris, atque terræ
Jus dedit magnum necis, atque vitæ;
Ponite inflatos, tumidosque vultus,
Quidquid a vobis minor extimescit
Maior hoc vobis Dominus minatur


Notai, peixes, aquela definição de Deus: Rector maris atque terrae. Governador do mar e da terra; para que não duvideis que o mesmo estilo, que Deus guarda com os homens na terra, observa também convosco no mar. Necessário é logo que olheis por vós e não façais pouco caso da doutrina que vos deu o grande doutor da Igreja, Santo Ambrósio, quando, falando convosco, disse: Cave nedum alium insequeris, incidas in validiorem. Guarde-se o peixe que persegue o mais fraco para o comer, não se ache na boca do mais forte, que o engula a ele. Nós o vemos aqui cada dia. Vai o xaréu correndo atrás do bagre, como o cão após a lebre, e não vê o cego que lhe vem nas costas o tubarão com quatro ordens de dentes, que o há-de engolir de um bocado. É o que com maior elegância vos disse também Santo Agostinho: Prædo minoris fit præda maioris. Mas não bastam, peixes, estes exemplos para que acabe de se persuadir a vossa gula, que a mesma crueldade que usais com os pequenos, tem já aparelhado o castigo na voracidade dos grandes?


Já que assim o experimentais com tanto dano vosso, importa que de aqui por diante sejais mais repúblicos e zelosos do bem comum, e que este prevaleça contra o apetite particular de cada um, para que não suceda que, assim como hoje vamos a muitos de vós tão diminuídos, vos venhais a consumir de todo. Não vos bastam tantos inimigos de fora e tantos perseguidores tão astutos e pertinazes, quantos são os pescadores, que nem de dia nem de noite deixam de vos pôr em cerco e fazer guerra por tantos modos?! Não vedes que contra vós se emalham e entralham as redes, contra vós se tecem as nassas, contra vós se torcem as linhas, contra vós se dobram e farpam os anzóis, contra vós as fisgas e os arpões? Não vedes que contra vós até as canas são lanças e as cortiças armas ofensivas? Não vos basta, pois, que tenhais tantos e tão armados inimigos de fora, senão que também vós de vossas portas adentro o haveis de ser mais cruéis, perseguindo-vos com uma guerra mais que civil e comendo-vos uns aos outros? Cesse, cesse, já, irmãos peixes, e tenha fim algum dia esta tão perniciosa discórdia; e pois vos chamei e sois irmãos, lembrai-vos das obrigações deste nome. Não estáveis vós muito quietos, muito pacíficos e muito amigos todos, grandes e pequenos, quando vos pregava Santo António? Pois continuai assim, e sereis felizes.


Dir-me-eis (como também dizem os homens) que não tendes outro modo de vos sustentar. E de que se sustentam entre vós muitos, que não comem os outros? O mar é muito largo, muito fértil, muito abundante, e só com o que bota às praias pode sustentar grande parte dos que vivem dentro nele. Comerem-se uns animais aos outros é voracidade e sevícia, e não estatuto da natureza. Os da terra e do ar, que hoje se comem, no princípio do mundo não se comiam, sendo assim conveniente e necessário para que as espécies de todos se multiplicassem. O mesmo foi (ainda mais claramente) depois do dilúvio, porque tendo escapado somente dois de cada espécie, mal se podiam conservar se se comessem. E finalmente no tempo do mesmo dilúvio, em que todos viveram juntos dentro na arca, o lobo estava vendo o cordeiro, o gavião a perdiz, o leão o gamo, e cada um aqueles em que se costuma cevar; e se acaso lá tiveram essa tentação, todos lhe resistiram e se acomodaram com a ração do paiol comum, que Noé lhes repartia. Pois se os animais dos outros elementos mais cálidos foram capazes desta temperança, porque o não serão os da água? Enfim, se eles em tantas ocasiões pelo desejo natural da própria conservação e aumento, fizeram da necessidade virtude, fazei-o vós também; ou fazei a virtude sem necessidade e será maior virtude.


Outra coisa muito geral, que não tanto me desedifica, quanto me lastima em muitos de vós, é aquela tão notável ignorância e cegueira que em todas as viagens experimentam os que navegam para estas partes. Toma um homem do mar um anzol, ata-lhe um pedaço de pano cortado e aberto em duas ou três pontas, lança-o por um cabo delgado até tocar na água, e em o vendo o peixe, arremete cego a ele e fica preso e boqueando, até que, assim suspenso no ar, ou lançado no convés, acaba de morrer. Pode haver maior ignorância e mais rematada cegueira que esta? Enganados por um retalho de pano, perder a vida?!


Dir-me-eis que o mesmo fazem os homens. Não vo-lo nego. Dá um exército batalha contra outro exército, metem-se os homens pelas pontas dos piques, dos chuços e das espadas, e porquê? Porque houve quem os engodou e lhes fez isca com dois retalhos de pano. A vaidade entre os vícios é o pescador mais astuto e que mais facilmente engana os homens. E que faz a vaidade? Põe por isca na ponta desses piques, desses chuços e dessas espadas dois retalhos de pano, ou branco, que se chama hábito de Malta, ou verde, que se chama de Avis, ou vermelho, que chama de Cristo e de Santiago; e os homens por chegarem a passar esse retalho de pano ao peito, não reparam em tragar e engolir o ferro. E depois disso que sucede? O mesmo que a vós. O que engoliu o ferro, ou ali, ou noutra ocasião ficou morto; e os mesmos retalhos de pano tornaram outra vez ao anzol para pescar outros.


Por este exemplo vos concedo, peixes, que os homens fazem o mesmo que vós, posto que me parece que não foi este o fundamento da vossa resposta ou escusa, porque cá no Maranhão ainda que se derrame tanto sangue, não há exércitos, nem esta ambição de hábitos.


Mas nem por isso vos negarei que também cá se deixam pescar os homens pelo mesmo engano, menos honrada e mais ignorantemente. Quem pesca as vidas a todos os homens do Maranhão, e com quê? Um homem do mar com uns retalhos de pano. Vem um mestre de navio de Portugal com quatro varreduras das lojas, com quatro panos e quatro sedas, que já se lhe passou a era e não têm gasto e que faz? Isca com aqueles trapos aos moradores da nossa terra: dá-lhes uma sacadela e dá-lhes outra, com que cada vez lhes sobe mais o preço; e os bonitos, ou os que o querem parecer, todos esfaimados aos trapos, e ali ficam engasgados e presos, com dívidas de um ano para outro ano, e de uma safra para outra safra, e lá vai a vida. Isto não é encarecimento. Todos a trabalhar toda a vida, ou na roça, ou na cana, ou no engenho, ou no tabacal; e este trabalho de toda a vida, quem o leva? Não o levam os coches, nem as liteiras, nem os cavalos, nem os escudeiros, nem os pajens, nem os lacaios, nem as tapeçarias, nem as pinturas, nem as baixelas, nem as jóias; pois em que se vai e despende toda a vida? No triste farrapo com que saem à rua, e para isso se matam todo o ano.


Não é isto, meus peixes, grande loucura dos homens com que vos escusais? Claro está que sim; nem vós o podeis negar. Pois se é grande loucura esperdiçar a vida por dois retalhos de pano, quem tem obrigação de se vestir, vós, a quem Deus vestiu do pé até à cabeça, ou de peles de tão vistosas e apropriadas cores, ou de escamas prateadas e douradas, vestidos que nunca se rompem, nem gastam com o tempo, nem se variam ou podem variar com as modas; não é maior ignorância e maior cegueira deixarde-vos enganar ou deixarde-vos tomar pelo beiço com duas tirinhas de pano? Vede o vosso Santo António, que pouco o pôde enganar o mundo com essas vaidades. Sendo moço e nobre, deixou as galas de que aquela idade tanto se preza, trocou-as por uma loba de sarja e uma correia de cónego regrante; e depois que se viu assim vestido, parecendo-lhe que ainda era muito custosa aquela mortalha, trocou a sarja pelo burel e a correia pela corda. Com aquela corda e com aquele pano, pescou ele muitos, e só estes se não enganaram e foram sisudos.


V


Descendo ao particular, direi agora, peixes, o que tenho contra alguns de vós. E começando aqui pela nossa costa, no mesmo dia em que cheguei a ela, ouvindo os roncadores e vendo o seu tamanho, tanto me moveram o riso como a ira. É possível que sendo vós uns peixinhos tão pequenos, haveis de ser as roncas do mar?! Se com uma linha de coser e um alfinete torcido, vos pode pescar um aleijado, porque haveis de roncar tanto? Mas por isso mesmo roncais. Dizei-me: o espadarte porque não ronca? Porque, ordinariamente, quem tem muita espada, tem pouca língua. Isto não é regra geral; mas é regra geral que Deus não quer roncadores, e que tem particular cuidado de abater e humilhar aos que muito roncam. S. Pedro, a quem muito bem conheceram vossos antepassados, tinha tão boa espada, que ele só avançou contra um exército inteiro de soldados romanos; e se Cristo lha não mandara meter na bainha, eu vos prometo que havia de cortar mais orelhas que a de Malco. Contudo, que lhe sucedeu naquela mesma noite? Tinha roncado e barbateado Pedro que, se todos fraqueassem, só ele havia de ser constante até morrer, se fosse necessário; e foi tanto pelo contrário, que só ele fraqueou mais que todos, e bastou a voz de uma mulherzinha para o fazer tremer e negar. Antes disso já tinha fraqueado na mesma hora em que prometeu tanto de si. Disse-lhe Cristo no horto que vigiasse, e vindo de aí a pouco a ver se o fazia, achou-o dormindo com tal descuido, que não só o acordou do sono, senão também do que tinha blasonado: Sic non potuisti una hora vigilare mecum? (Marcos XIV - 37). Vós, Pedro, sois o valente que havíeis de morrer por mim, e não pudestes uma hora vigiar comigo? Pouco há tanto roncar, e agora tanto dormir? Mas assim sucedeu. O muito roncar antes da ocasião, é sinal de dormir nela. Pois que vos parece, irmãos roncadores? Se isto sucedeu ao maior pescador, que pode acontecer ao menor peixe? Medi-vos, e logo vereis quão pouco fundamento tendes de blasonar, nem roncar.


Se as baleias roncaram, tinha mais desculpa a sua arrogância na sua grandeza. Mas ainda nas mesmas baleias não seria essa arrogância segura. O que é a baleia entre os peixes, era o gigante Golias entre os homens. Se o rio Jordão e o mar de Tiberíades têm comunicação com o Oceano, como devem ter, pois dele manam todos, bem deveis de saber que este gigante era a ronca dos filisteus. Quarenta dias contínuos esteve armado no campo, desafiando a todos os arraiais de Israel, sem haver quem se lhe atrevesse; e no cabo, que fim teve toda aquela arrogância? Bastou um pastorzinho com um cajado e uma funda, para dar com ele em terra. Os arrogantes e soberbos tomam-se com Deus, e quem se toma com Deus, sempre fica debaixo. Assim que, amigos roncadores, o verdadeiro conselho é calar e imitar a Santo António. Duas cousas há nos homens, que os costumam fazer roncadores, porque ambas incham: o saber e o poder. Caifás roncava de saber: Vos nescitis quidquam (João, Xl - 49). Pilatos roncava de poder: Nescis quia potestatem habeo? (João, XIX - 10). E ambos contra Cristo.


Mas o fiel servo de Cristo, António, tendo tanto saber, como já vos disse, e tanto poder, como vós mesmo experimentastes, ninguém houve jamais que o ouvisse falar em saber ou poder, quanto mais blasonar disso. E porque tanto calou, por isso deu tamanho brado.


Nesta viagem, de que fiz menção, e em todas as que passei a Linha Equinocial, vi debaixo dela o que muitas vezes tinha visto e notado nos homens, e me admirou que se houvesse estendido esta ronha e pegado também aos peixes. Pegador es se chamam estes de que agora falo, e com grande propriedade, porque sendo pequenos, não só se chegam a outros maiores, mas de tal sorte se lhes pegam aos costados, que jamais os desferram. De alguns animais de menos força e indústria se conta que vão seguindo de longe aos leões na caça, para se sustentarem do que a eles sobeja. O mesmo fazem estes pegador es, tão seguros ao perto como aqueles ao longe; porque o peixe grande não pode dobrar a cabeça, nem voltar a boca sobre os que traz às costas, e assim lhes sustenta o peso e mais a fome.


Este modo de vida, mais astuto que generoso, se acaso se passou e pegou de um elemento a outro, sem dúvida que o aprenderam os peixes do alto, depois que os nossos portugueses o navegaram; porque não parte vice-rei ou governador para as conquistas, que não vá rodeado de pegadores, os quais se arrimam a eles, para que cá lhe matem a fome, de que lá não tinham remédio. Os menos ignorantes desenganados da experiência, despegam-se e buscam a vida por outra via; mas os que se deixam estar pegados à mercê e fortuna dos maiores, vem-lhes a suceder no fim o que aos pegadores do mar.


Rodeia a nau o tubarão nas calmarias da Linha com os seus pegadores às costas, tão cerzidos com a pele, que mais parecem remendos ou manchas naturais, que os hóspedes ou companheiros. Lançam-lhe um anzol de cadeia com a ração de quatro soldados, arremessa-se furiosamente à presa, engole tudo de um bocado, e fica preso. Corre meia companha a alá-lo acima, bate fortemente o convés com os últimos arrancos; enfim, morre o tubarão, e morrem com ele os pegadores.


Parece-me que estou ouvindo a S. Mateus, sem ser Apóstolo pescador, descrevendo isto mesmo na terra. Morto Herodes, diz o Evangelista, apareceu o anjo a José no Egipto, e disse-lhe, que já se podia tornar para a pátria, porque eram mortos todos aqueles que queriam tirar a vida ao Menino: Defuncti sunt enim qui quærebant animam Pueri (Mat. II - 20). Os que queriam tirar a vida a Cristo Menino eram Herodes e todos os seus, toda a sua família, todos os seus aderentes, todos os que seguiam e pendiam da sua fortuna. Pois é possível que todos estes morressem juntamente com Herodes? Sim: porque em morrendo o tubarão, morrem também com ele os pegadores: Defuncto Herode, defuncti sunt qui quaerebant animam Pueri. Eis aqui, peixezinhos ignorantes e miseráveis, quão errado e enganoso é este modo de vida que escolhestes. Tomai o exemplo nos homens, pois eles o não tomam em vós, nem seguem, como deveram, o de Santo António.


Deus também tem os seus pegadores. Um destes era David, que dizia: Mihi autem adhærere Deo bonum est. (Salmo LXXII - 2). Peguem-se outros aos grandes da terra, que eu só me quero pegar a Deus. Assim o fez também Santo António, e senão, olhai para o mesmo santo, e vede como está pegado com Cristo e Cristo com ele. Verdadeiramente se pode duvidar qual dos dois é ali o pegador; e parece que é Cristo, porque o menor é sempre o que se pega ao maior, e o Senhor fez-se tão pequenino, para se pegar a António. Mas António também se fez menor, para se pegar mais a Deus. Daqui se segue que todos os que se pegam a Deus, que é imortal, seguros estão de morrer como os outros pegadores. E tão seguros, que ainda no caso em que Deus se fez homem e morreu, só morreu para que não morressem todos os que se pegassem a ele. Bem se viu nos que estavam já pegados, quando disse: Si ergo me quæritis, sinite hos abire (João, XVIII - 8): Se me buscais a mim, deixai ir a estes. E posto que deste modo só se podem pegar os homens, e vós, meus peixezinhos, não, ao menos devereis imitar aos outros animais do ar e da terra, que quando se chegam aos grandes e se amparam do seu poder, não se pegam de tal sorte que morram juntamente com eles. Lá diz a Escritura daquela famosa árvore, em que era significado o grande Nabucodonosor, que todas as aves do céu descansavam sobre os seus ramos, e todos os animais da terra se recolhiam à sua sombra, e uns e outros se sustentavam de seus frutos; mas também diz, que tanto que foi cortada esta árvore, as aves voaram e os outros animais fugiram. Chegai-vos embora aos grandes; mas não de tal maneira pegados, que vos mateis por eles, nem morrais com eles.


Considerai, pegadores vivos, como morreram os outros que se pegaram àquele peixe grande, e porquê. O tubarão morreu porque comeu, e eles morreram pelo que não comeram. Pode haver maior ignorância que morrer pela fome e boca alheia? Que morra o tubarão porque comeu, matou-o a sua gula; mas que morra o pegador pelo que não comeu, é a maior desgraça que se pode imaginar! Não cuidei que também nos peixes havia pecado original. Nós, os homens, fomos tão desgraçados, que outrem comeu e nós o pagamos. Toda a nossa morte teve princípio na gulodice de Adão e Eva; e que hajamos de morrer pelo que outrem comeu, grande desgraça! Mas nós lavamo-nos desta desgraça com uma pouca de água, e vós não vos podeis lavar da vossa ignorância com quanta água tem o mar.


Com os voadores tenho também uma palavra, e não é pequena a queixa. Dizei-me, voadores, não vos fez Deus para peixes? Pois porque vos meteis a ser aves? O mar fê-lo Deus para vós, e o ar para elas. Contentai-vos com o mar e com nadar, e não queirais voar, pois sois peixes. Se acaso vos não conheceis, olhai para as vossas espinhas e para as vossas escamas, e conhecereis que não sois aves, senão peixes, e ainda entre os peixes não dos melhores. Dir-me-eis, voador, que vos deu Deus maiores barbatanas que aos outros de vosso tamanho. Pois porque tivestes maiores barbatanas, por isso haveis de fazer das barbatanas asas?! Mas ainda mal, porque tantas vezes vos desengana o vosso castigo. Quisestes ser melhor que os outros peixes, e por isso sois mais mofino que todos. Aos outros peixes do alto, mata-os o anzol ou a fisga, a vós sem fisga nem anzol, mata-vos a vossa presunção e o vosso capricho. Vai o navio navegando e o marinheiro dormindo, e o voador toca na vela ou na corda, e cai palpitando. Aos outros peixes mata-os a fome e engana-os a isca; ao voador mata-o a vaidade de voar, e a sua isca é o vento. Quanto melhor lhe fora mergulhar por baixo da quilha e viver, que voar por cima das antenas e cair morto!


Grande ambição é que, sendo o mar tão imenso, lhe não basta a um peixe tão pequeno todo o mar, e queira outro elemento mais largo. Mas vede, peixes, o castigo da ambição. O voador, fê-lo Deus peixe, e ele quis ser ave, e permite o mesmo Deus que tenha os perigos de ave e mais os de peixe. Todas as velas para ele são redes, como peixe, e todas as cordas, laços, como ave. Vê, voador, como correu pela posta o teu castigo. Pouco há nadavas vivo no mar com as barbatanas, e agora jazes em um convés amortalhado nas asas. Não contente com ser peixe, quiseste ser ave, e já não és ave nem peixe; nem voar poderás já, nem nadar. A natureza deu-te a água, tu não quiseste senão o ar, e eu já te vejo posto ao fogo. Peixes, contente-se cada um com o seu elemento. Se o voador não quisera passar do segundo ao terceiro, não viera a parar no quarto. Bem seguro estava ele do fogo, quando nadava na água, mas porque quis ser borboleta das ondas, vieram-se-Ihe a queimar as asas.


À vista deste exemplo, peixes, tomai todos na memória esta sentença: Quem quer mais do que lhe convém, perde o que quer e o que tem. Quem pode nadar e quer voar, tempo virá em que não voe nem nade. Ouvi o caso de um voador da terra: Simão Mago, a quem a arte mágica, na qual era famosíssimo, deu o sobrenome, fingindo-se que ele era o verdadeiro filho de Deus, sinalou o dia em que nos olhos de toda Roma havia de subir ao Céu, e com efeito começou a voar muito alto; porém a oração de S. Pedro, que se achava presente, voou mais depressa que ele, e caindo lá de cima o mago, não quis Deus que morresse logo, senão que aos olhos também de todos quebrasse, como quebrou, os pés.


Não quero que repareis no castigo, senão no género dele. Que caia Simão, está muito bem caído; que morra, também estaria muito bem morto, que o seu atrevimento e a sua arte diabólica o merecia. Mas que de uma queda tão alta não rebente, nem quebre a cabeça ou os braços, senão os pés?! Sim, diz S. Máximo, porque quem tem pés para andar, e quer asas para voar, justo é que perca as asas e mais os pés. Elegantemente o Santo Padre: Ut qui paulo ante volare tentaverat, subito ambulare non posset; et qui pennas assumpserat, plantas amitteret. Se Simão tem pés e quer asas, pode andar e quer voar; pois quebrem-se-lhe as asas, para que não voe, e também os pés, para que não ande. Eis aqui, voadores do mar, o que sucede aos da terra, para que cada um se contente com o seu elemento. Se o mar tomara exemplo nos rios, depois que Ícaro se afogou no Danúbio, não haveria tantos Ícaros no Oceano.




Oh, alma de António, que só vós tivestes asas e voastes sem perigo, porque soubestes voar para baixo e não para cima! Já S. João viu no Apocalipse aquela mulher, cujo ornato gastou todas as luzes ao Firmamento, e diz que lhe foram dadas duas grandes asas de águia: Datæ sunt mulieri alæ duæ aquilæ magnæ: (Apoc. XII - 14). E para quê? Ut volaret in desertum. Para voar ao deserto. Notável cousa, que não debalde lhe chamou o mesmo Profeta, grande maravilha. Esta mulher estava no céu: Signum magnum apparauit in cælo, mulier amicta sole. Pois se a mulher estava no céu e o deserto na terra, como lhe dão asas para voar ao deserto? Porque há asas para subir e asas para descer. As asas para subir são muito perigosas, as asas para descer muito seguras; e tais foram as de Santo António. Deram-se à alma de Santo António duas asas de águia, que foi aquela duplicada sabedoria natural e sobrenatural tão sublime, como sabemos. E ele que fez? Não estendeu as asas para subir, encolheu-as para descer; e tão encolhidas, que, sendo a Arca do Testamento, era reputado, como já vos disse, por leigo e sem ciência. Voadores do mar (não falo com os da terra), imitai o vosso santo pregador. Se vos parece que as vossas barbatanas vos podem servir de asas, não as estendais para subir, porque vos não suceda encontrar com alguma vela ou algum costado; encolhei-as para descer, ide-vos meter no fundo em alguma cova; e se aí estiverdes mais escondidos, estareis mais seguros.


Mas já que estamos nas covas do mar, antes que saiamos delas, temos lá o irmão polvo, contra o qual têm suas queixas, e grandes, não menos que S. Basílio e Santo Ambrósio. O polvo, com aquele seu capelo na cabeça, parece um monge; com aqueles seus raios estendidos, parece uma estrela; com aquele não ter osso nem espinha, parece a mesma brandura, a mesma mansidão. E debaixo desta aparência tão modesta, ou desta hipocrisia tão santa, testemunham constantemente os dois grandes Doutores da Igreja latina e grega, que o dito polvo é o maior traidor do mar. Consiste esta traição do polvo primeiramente em se vestir ou pintar das mesmas cores de todas aquelas cores a que está pegado. As cores, que no camaleão são gala, no polvo são malícia; as figuras, que em Proteu são fábula, no polvo são verdade e artifício. Se está nos limos, faz-se verde; se está na areia, faz-se branco; se está no lodo, faz-se pardo; e se está em alguma pedra, como mais ordinariamente costuma estar, faz-se da cor da mesma pedra. E daqui que sucede? Sucede que o outro peixe, inocente da traição, vai passando desacautelado, e o salteador, que está de emboscada dentro do seu próprio engano, lança-lhe os braços de repente, e fá-lo prisioneiro. Fizera mais Judas? Não fizera mais, porque nem fez tanto. Judas abraçou a Cristo, mas outros o prenderam; o polvo é o que abraça e mais o que prende. Judas com os braços fez o sinal, e o polvo dos próprios braços faz as cordas. Judas é verdade que foi traidor, mas com lanternas diante; traçou a traição às escuras, mas executou-a muito às claras. O polvo, escurecendo-se a si, tira a vista aos outros, e a primeira traição e roubo que faz é a luz, para que não distinga as cores. Vê, peixe aleivoso e vil, qual é a tua maldade, pois Judas em tua comparação já é menos traidor!


Oh, que excesso tão afrontoso e tão indigno de um elemento tão puro, tão claro e tão cristalino como o da água, espelho natural não só da terra, senão do mesmo céu! Lá disse o Profeta por encarecimento, que «nas nuvens do ar até a água é escura»: Tenebrosa aqua in nubibus aeris. (Salmo XVII - 12). E disse nomeadamente nas nuvens do ar, para atribuir a escuridade ao outro elemento, e não à água; a qual em seu próprio elemento sempre é clara, diáfana e transparente, em que nada se pode ocultar, encobrir nem dissimular. E que neste mesmo elemento se crie, se conserve e se exercite com tanto dano de bem público um monstro tão dissimulado, tão fingido, tão astuto, tão enganoso e tão conhecidamente traidor!


Vejo, peixes, que pelo conhecimento que tendes das terras em que batem os vossos mares, me estais respondendo e convindo, que também nelas há falsidades, enganos, fingimentos, embustes, ciladas e muito maiores e mais perniciosas traições. E sobre o mesmo sujeito que defendeis, também podereis aplicar aos semelhantes outra propriedade muito própria; mas pois vós a calais, eu também a calo. Com grande confusão, porém, vos confesso tudo, e muito mais do que dizeis, pois o não posso negar. Mas ponde os olhos em António, vosso pregador, e vereis nele o mais puro exemplar da candura, da sinceridade e da verdade, onde nunca houve dolo, fingimento ou engano. E sabei também que para haver tudo isto em cada um de nós bastava antigamente ser português, não era necessário ser santo.


Tenho acabado, irmãos peixes, os vossos louvores e repreensões, e satisfeito, como vos prometi, às duas obrigações do sal, posto que do mar, e não da terra: Vos estis sal terræ. Só resta fazer-vos uma advertência muito necessária, para os que viveis nestes mares. Como eles são tão esparcelados e cheios de baixios, bem sabeis que se perdem e dão à costa muitos navios, com que se enriquece o mar e a terra se empobrece. Importa, pois, que advirtais, que nesta mesma riqueza tendes um grande perigo, porque todos os que se aproveitam dos bens dos naufragantes ficam excomungados e malditos.


Esta pena de excomunhão, que é gravíssima, não se pôs a vós senão aos homens, mas tem mostrado Deus, por muitas vezes, que quando os animais cometem materialmente o que é proibido por esta lei, também eles incorrem, por seu modo, nas penas dela, e no mesmo ponto começam a definhar, até que acabam miseravelmente.


Mandou Cristo a S. Pedro que fosse pescar, e que na boca do primeiro peixe que tomasse acharia uma moeda, com que pagar certo tributo. Se Pedro havia de tomar mais peixe que este, suposto que ele era o primeiro, do preço dele, e dos outros podia fazer o dinheiro, com que pagar aquele tributo, que era de uma só moeda de prata, e de pouco peso. Com que mistério manda logo o Senhor que se tire da boca deste peixe, e que seja ele o que morra primeiro que os demais?


Ora estai atentos. Os peixes não batem moeda no fundo do mar, nem têm contratos com os homens, donde lhes possa vir dinheiro; logo, a moeda que este peixe tinha engolido era de algum navio que fizera naufrágio naqueles mares. E quis mostrar o Senhor que as penas que S. Pedro ou seus sucessores fulminam contra os homens, que tomam os bens dos naufragantes, também os peixes por seu modo as incorrem, morrendo primeiro que os outros, e com o mesmo dinheiro que engoliram atravessado na garganta.


Oh que boa doutrina era esta para a terra, se eu não pregara para o mar! Para os homens não há mais miserável morte, que morrer com o alheio atravessado na garganta; porque é pecado de que o mesmo S. Pedro, e o mesmo Sumo Pontífice não pode absolver. E posto que os homens incorrem a morte eterna, de que não são capazes os peixes, eles contudo apressam a sua temporal, como neste caso, se materialmente, como tenho dito, se não abstêm dos bens dos naufragantes.


VI


Com esta última advertência vos despido, ou me despido de vós, meus peixes. E para que vades consolados do sermão, que não sei quando ouvireis outro, quero-vos aliviar de uma desconsolação mui antiga, com que todos ficastes desde o tempo em que se publicou o Levítico. Na lei eclesiástica ou ritual do Levítico, escolheu Deus certos animais, que lhe haviam de ser sacrificados; mas todos eles ou animais terrestres ou aves, ficando os peixes totalmente excluídos dos sacrifícios. E quem duvida que esta exclusão tão universal era digna de grande desconsolação e sentimento para todos os habitadores de um elemento tão nobre, que mereceu dar a matéria ao primeiro sacramento? O motivo principal de serem excluídos os peixes foi porque os outros animais podiam ir vivos ao sacrifício, e os peixes geralmente não, senão mortos; e coisa morta não quer Deus que se lhe ofereça, nem chegue aos seus altares. Também este ponto era muito importante e necessário aos homens, se eu lhes pregara a eles. Oh quantas almas chegam àquele altar mortas, porque chegam e não têm horror de chegar, estando em pecado mortal! Peixes, dai muitas graças a Deus de vos livrar deste perigo, porque melhor é não chegar ao sacrifício, que chegar morto. Os outros animais ofereçam a Deus o ser sacrificados; vós oferecei-lhe o não chegar ao sacrifício; os outros sacrifiquem a Deus o sangue e a vida; vós sacrificai-lhe o respeito e a reverência.


Ah peixes, quantas invejas vos tenho a essa natural irregularidade! Quanto melhor me fora não tomar a Deus nas mãos, que tomá-lo tão indignamente! Em tudo o que vos excedo, peixes, vos reconheço muitas vantagens. A vossa bruteza é melhor que a minha razão e o vosso instinto melhor que o meu alvedrio. Eu falo, mas vós não ofendeis a Deus com as palavras; eu lembro-me, mas vós não ofendeis a Deus com a memória; eu discorro, mas vós não ofendeis a Deus com o entendimento; eu quero, mas vós não ofendeis a Deus com a vontade. Vós fostes criados por Deus, para servir ao homem, e conseguis o fim para que fostes criados; a mim criou-me para o servir a Ele, e eu não consigo o fim para que me criou. Vós não haveis de ver a Deus, e podereis aparecer diante dele muito confiadamente, porque o não ofendestes; eu espero que O hei-de ver; mas com que rosto hei-de aparecer diante do seu divino acatamento, se não cesso de O ofender? Ah que quase estou por dizer que me fora melhor ser como vós, pois de um homem que tinha as minhas mesmas obrigações, disse a Suma Verdade, que «melhor lhe fora não nascer homem»: Si natus non fuisset homo ille. E pois os que nascemos homens, respondemos tão mal às obrigações de nosso nascimento, contentai-vos, peixes, e dai muitas graças a Deus pelo vosso.


Benedicite, cete et omnia quæ moventur in aquis, Domino: «Louvai, peixes, a Deus, os grandes e os pequenos», e repartidos em dois coros tão inumeráveis, louvai-o todos uniformemente. Louvai a Deus, porque vos criou em tanto número. Louvai a Deus, que vos distinguiu em tantas espécies; louvai a Deus, que vos vestiu de tanta variedade e formosura; louvai a Deus, que vos habilitou de todos os instrumentos necessários para a vida; louvai a Deus, que vos deu um elemento tão largo e tão puro; louvai a Deus, que, vindo a este mundo, viveu entre nós, e chamou para si aqueles que convosco e de vós viviam; louvai a Deus, que vos sustenta; louvai a Deus, que vos conserva; louvai a Deus, que vos multiplica; louvai a Deus, enfim, servindo e sustentando ao homem, que é o fim para que vos criou; e assim como no princípio vos deu sua bênção, vo-la dê também agora. Ámen. Como não sois capazes de Glória, nem de Graça, não acaba o vosso Sermão em Graça e Glória.