O barroco literário português
São João Baptista
Saturday, 8 May 2010
Manuel Maria Barbosa du Bocage (1765 - 1805)
Poeta português natural de Setúbal, de ascendência francesa por parte da mãe. A sua vocação foi incentivada pelo ambiente familiar. Madame Fiquet du Bocage, uma tia-avó do poeta, era uma poetisa ilustre na época e traduzira o poeta suíço pré-romântico Gessner. O próprio pai de Bocage lia o pré-romântico inglês Young e cultivava a poesia nas horas vagas. Igualmente o marcou, como ele próprio o sublinhou, a morte da mãe aos dez anos de idade («Aos dois lustros a morte devorante/me roubou, terna mãe, teu doce agrado»). Frequentou a Academia Real dos Guarda-Marinhas, para onde entrou em 1783, entregando-se, mais do que aos estudos, à boémia literária da Lisboa da época, frequentando botequins, sobretudo o Nicola, do Rossio, ao qual o seu nome ficou para sempre ligado, como famoso improvisador de versos. Embarcou para Goa (1786) e serviu na guarnição de Damão (1789). Mais tarde, desertou, embarcando para Macau, e daí regressou a Lisboa em 1790, ano em que foi fundada a Nova Arcádia, na qual ingressou, adoptando o nome poético de Elmano Sadino. Dela foi expulso, em 1794, devido ao seu espírito independente, sarcástico e indisciplinado.
Inquieto e atraído pela vida boémia, foi preso a 10 de Agosto de 1797, acusado de ideias contra a ordem social, expressas na «Epístola a Marília», texto anti-religioso, e no soneto dedicado a Napoleão, símbolo do ideal revolucionário da época. Julgado, apesar de tudo, com alguma benevolência, por «erro contra a religião», a Inquisição ordenou que o preso fosse «doutrinado». Obrigado, por sentença, a recolher ao Hospício das Necessidades, aí se dedicou ao estudo e à tradução de várias obras, entre as quais as Metamorfoses, de Ovídio. Saiu em liberdade em 1799, convertendo-se a uma vida mais regrada em casa da irmã, Maria Francisca, que sustentou com trabalhos de tradução. Marcado pelas atribulações do seu percurso, a sua vida terminou precocemente e com um doloroso arrependimento, patente nos seus últimos poemas. Bocage é um poeta pré-romântico em que o arcadismo ainda está bem presente. Dos seus poemas irradia o angustiado sentido da existência e do aniquilamento, expresso em oposições dramáticas (o amor, céu e inferno, a morte, horror e libertação) e o gosto pelo macabro, em simultâneo com o convencionalismo arcádico das alegorias. De entre as formas poéticas que cultivou destaca-se o soneto.
Muitas vezes evocando o paralelismo entre a sua vida e a de Camões, morreu aos 40 anos, em Lisboa, deixando publicadas, em três volumes, Rimas (1791, 1799 e 1804), completadas com a publicação póstuma de novos volumes e obras sobre a sua criação poética (Poesia de Manuel Maria de Barbosa du Bocage, de Inocêncio da Silva, 1853, e Obras Poéticas de Bocage, de Teófilo Braga, 1875).
A personalidade de Manuel Maria Barbosa du Bocage parece simbolizar a fase final e insanável do conflito entre o arcadismo e o romantismo, entre a dependência relativamente às instituições senhoriais-absolutistas e relativamente ao público editorial, entre o enquadramento absolutista-senhorial e o enquadramento mercantil e trocista do escritor. O Elmano Sadino da Nova Arcádia é já romântico por temperamento, apesar de muito vocabulário e muito alegorismo arcádicos e dos seus laivos de iluminismo. A sua arte versificatória, sobretudo no soneto, tem tido muitos admiradores, entre os quais, significativamente, o parnasiano brasileiro Olavo Bilac. Todavia, esse encanto é um tanto monótono e fácil, e a sua orquestração verbal das grandes expansões tumultuosas soa muitas vezes a falso. O que o distingue melhor é a agitação psicológica que traz pela primeira vez à poesia portuguesa: o sentimento agudo da personalidade, o horror do aniquilamento na morte. Tal egotismo percebe-se ainda na maneira abstracta e retórica com que, em nome da Razão, se revolta contra a humilhação da dependência e contra o despotismo; no gosto do fúnebre e do nocturno, e nos clamores não menos retóricos de ciúme, de blasfémia ou contrição. Esse gosto já tão romântico do funéreo e tenebroso percorre grande parte da poesia de Bocage. Quero fartar o meu coração de horrores, desfecho de um dos sonetos mais característicos, compendia a sua imaginação sedenta do hórrido ou horrendo, de horríssonos furores: tempestades reais ou míticas, crimes lendários, históricos ou noticiados nas gazetas, pesadelos, agonias frenéticas, visões de antros ou abismos, minuciosas descrições de beberagens, esconjuros e outros bruxedos. Não se sabe em que medida isto é o simples saborear de uma estética (dantesca, shakespeariana e, então, romântica) do locus horrendus, que vira do avesso o locus amoenus do pastoralismo clássico; em que medida o poeta é efectivamente presa de uma obsessão irracional incontrolável, uma espécie de pavor sagrado à procura de imagens; ou em que medida isso traduz uma ânsia, ao mesmo tempo inextinguível e medrosa, de abarcar numa consciência humana todos os medos e dores que ela, espontaneamente, evita, que ela mal enfrenta sem se desagregar. Em qualquer caso, a expressão mais vivida, original e comunicativa dos seus horrores encontra-se nos sonetos, epístolas e no poema narrativo Trabalhos da Vida Humana, onde refere as suas provações e aflições do cárcere.
Camões, grande Camões, quão semelhante
Camões, grande Camões, quão semelhante
Acho teu fado ao meu, quando os cotejo!
Igual causa nos fez, perdendo o Tejo,
Arrostar co'o sacrílego gigante;
Como tu, junto ao Ganges sussurrante,
Da penúria cruel no horror me vejo;
Como tu, gostos vãos, que em vão desejo,
Também carpindo estou, saudoso amante.
Ludíbrio, como tu, da Sorte dura
Meu fim demando ao Céu, pela certeza
De que só terei paz na sepultura.
Modelo meu tu és, mas... oh, tristeza!...
Se te imito nos transes da Ventura,
Não te imito nos dons da Natureza.
Importuna Razão, não me persigas
Importuna Razão, não me persigas;
Cesse a ríspida voz, que em vão murmura;
Se a lei de Amor, se a força da ternura
Nem domas, nem contrastas, nem mitigas;
Se acusas os mortais, e os não obrigas,
Se (conhecendo o mal) não dás a cura,
Deixa-me apreciar minha loucura,
Importuna Razão, não me persigas.
É teu fim, teu projecto, encher de pejo
Esta alma, frágil vítima daquela
Que, injusta e vária, noutros laços vejo:
Queres que fuja de Marília bela,
Que a maldiga, a desdenhe; e o meu desejo
É carpir, delirar, morrer por ela.
Liberdade, onde estás? Quem te demora?
Liberdade, onde estás? Quem te demora?
Quem faz que o teu influxo em nós não caia?
Porque (triste de mim!), porque não raia
Já na esfera de Lísia a tua aurora?
Da santa redenção é vinda a hora
A esta parte do mundo, que desmaia.
Oh!, venha... Oh!, venha, e trémulo descaia
Despotismo feroz, que nos devora!
Eia! Acode ao mortal que, frio e mudo,
Oculta o pátrio amor, torce a vontade,
E em fingir, por temor, empenha estudo.
Movam nossos grilhões tua piedade;
Nosso númen tu és, e glória, e tudo,
Mãe do génio e prazer, ó Liberdade!
Ânsias terríveis, íntimos tormentos
Ânsias terríveis, íntimos tormentos,
Negras imagens, hórridas lembranças,
Amargosas, mortais desconfianças,
Deixai-me sossegar alguns momentos.
Sofrei que logre os vãos contentamentos
Que sonham minhas doidas esperanças;
A posse de alvo rosto, e louras tranças,
Onde presos estão meus pensamentos.
Deixai-me confiar na formosura,
Cruéis! Deixai-me crer num doce engano,
Blasonar de fantástica ventura.
Que mais mal me quereis, que maior dano
Do que vagar nas trevas da loucura,
Aborrecendo a luz do desengano?
Magro, de olhos azuis, carão moreno
Magro, de olhos azuis, carão moreno,
Bem servido de pés, meão na altura,
Triste de facha, o mesmo de figura,
Nariz alto no meio, e não pequeno;
Incapaz de assistir num só terreno,
Mais propenso ao furor do que à ternura,
Bebendo em níveas, por taça escura,
De zelos infernais letal veneno;
Devoto incensador de mil deidades
(Digo, de moças mil) num só momento,
E somente no altar amando os frades;
Eis Bocage em quem luz algum talento;
Saíram dele mesmo estas verdades,
Num dia em que se achou mais pachorrento.
Meu ser evaporei na lida insana
Meu ser evaporei na lida insana
Do tropel de paixões, que me arrastava;
Ah! Cego eu cria, ah! mísero eu sonhava
Em mim quase imortal a essência humana.
De que inúmeros sóis a mente ufana
Existência falaz me não dourava!
Mas eis sucumbe a Natureza escrava
Ao mal, que a vida em sua origem dana.
Prazeres, sócios meus, e meus tiranos!
Esta alma, que sedenta em si não coube,
No abismo vos sumiu dos desenganos.
Deus, oh Deus!... Quando a morte a luz me roube,
Ganhe um momento o que perderam anos,
Saiba morrer o que viver não soube.
Apenas vi do dia a luz brilhante
Apenas vi do dia a luz brilhante
Lá de Túbal no empório celebrado,
Em sanguíneo carácter foi marcado
Pelos Destinos meu primeiro instante.
Aos dois lustros a morte devorante
Me roubou, terna mãe, teu doce agrado;
Segui Marte depois, e em fim meu fado
Dos irmãos e do pai me pôs distante.
Vagando a curva terra, o mar profundo,
Longe da pátria, longe da ventura,
Minhas faces com lágrimas inundo.
E enquanto insana multidão procura
Essas quimeras, esses bens do mundo,
Suspiro pela paz da sepultura.
Fiei-me nos sorrisos da Ventura
Fiei-me nos sorrisos da Ventura,
Em mimos feminis. Como fui louco!
Vi raiar o prazer; porém tão pouco
Momentâneo relâmpago não dura.
No meio agora desta selva escura,
Dentro deste penedo húmido e oco,
Pareço, até no tom lúgubre e rouco,
Triste sombra a carpir na sepultura.
Que estância para mim tão própria é esta!
Causais-me um doce e fúnebre transporte,
Áridos matos, lôbrega floresta!
Ah!, não me roubou tudo a negra Sorte:
Inda tenho este abrigo, inda me resta
O pranto, a queixa, a solidão e a morte.
Oh retrato da Morte, oh Noite amiga
Oh retrato da Morte, oh Noite amiga
Por cuja escuridão suspiro há tanto!
Calada testemunha de meu pranto,
De meus desgostos secretária antiga!
Pois manda Amor, que a ti somente os diga,
Dá-lhes pio agasalho no teu manto;
Ouve-os, como costumas, ouve, enquanto
Dorme a cruel, que a delirar me obriga.
E vós, oh cortesãos da escuridade,
Fantasmas vagos, mochos piadores,
Inimigos, como eu, da claridade!
Em bandos acudi aos meus clamores;
Quero a vossa medonha sociedade,
Quero fartar meu coração de horrores.
Já Bocage não sou!... À cova escura
Já Bocage não sou!... À cova escura
Meu estro vai parar desfeito em vento...
Eu aos Céus ultrajei! O meu tormento
Leve me torne sempre a terra dura.
Conheço agora já quão vã figura
Em prosa e verso fez meu louco intento;
Musa!... Tivera algum merecimento
Se um raio de razão seguisse pura!
Eu me arrependo; a língua quase fria
Brade em alto pregão à mocidade,
Que atrás do som fantástico corria.
Outro Aretino fui... A santidade
Manchei!... Oh! Se me creste, gente impia,
Rasga meus versos, crê na eternidade!
Anastácio da Cunha
José Anastácio da Cunha (1744-1787) nasceu em Lisboa e seguiu a carreira das armas. Esteve algum tempo a fazer serviço em Valença como oficial de artilharia, sendo nomeado pelo Marquês de Pombal lente da Universidade de Coimbra devido aos seus profundos conhecimentos de Matemática. Além de obras sobre essa disciplina, escreveu poesia. É considerado um dos pré-românticos portugueses. As suas obras poéticas foram publicadas em 1836 sob o título de Composições Poéticas. Em 1826 foi publicada em Paris A Voz da Razão.
POEMA
Tantos anos de amor na prisão dura.
Padecendo martírios cento a cento.
Já sair não espero da amargura.
Nem para me queixar já tenho alento.
Informam-te da minha desventura
Os ecos dos meus ais. Ah ! Se algum vento,
Benigno a teus ouvidos, porventura,
Levar alguns, tem dó do meu tormento.
Se deres algum pranto à crueldade
Do meu mal, poderei menos senti-lo:
Teu pranto abrandará sua impiedade.
Louco, que peço? Basta que, ao ouvi-lo.
Te enterneças. Ao menos, por piedade
Basta que digas: – Mísero Mertilo?
POEMA
Tantos anos de amor na prisão dura.
Padecendo martírios cento a cento.
Já sair não espero da amargura.
Nem para me queixar já tenho alento.
Informam-te da minha desventura
Os ecos dos meus ais. Ah ! Se algum vento,
Benigno a teus ouvidos, porventura,
Levar alguns, tem dó do meu tormento.
Se deres algum pranto à crueldade
Do meu mal, poderei menos senti-lo:
Teu pranto abrandará sua impiedade.
Louco, que peço? Basta que, ao ouvi-lo.
Te enterneças. Ao menos, por piedade
Basta que digas: – Mísero Mertilo?
Marquesa de Alorna
D. Leonor de Almeida Portugal Lorena e Lencastre, Marquesa de Alorna (1750-1839) nasceu em Lisboa. Tendo seu pai sido preso acusado de participar no atentado ao rei D. José, Leonor, de oito anos, entrou com sua irmã para o convento de Chelas, vindo somente a sair após a morte do Marquês de Pombal. Casou com o Conde de Oeynhausen e viajou por Viena, Berlim e Londres. As suas obras obras foram publicadas em 1844 em seis volumes com o título genérico de Obras Poéticas.
Soneto
Vai a fresca manhã alvorecendo
Vão os bosques as aves acordando,
Vai-se o Sol mansamente levantando
E o mundo à vista dele renascendo.
Veio a noite os objectos desfazendo
E nas sombras foi todos sepultando;
Eu, desperta, o meu fado lamentando.
Fui coa ausência da luz esmorecendo.
Neste espaço, em que dorme a Natureza.
Porque vigio assim tão cruelmente?
Porque me abafa ó peso da tristeza?
Ah, que as mágoas que sofre o descontente,
As mais delas são faltas de firmeza.
Torna a alentar-te, ó Sol resplandecente!
Soneto
Vai a fresca manhã alvorecendo
Vão os bosques as aves acordando,
Vai-se o Sol mansamente levantando
E o mundo à vista dele renascendo.
Veio a noite os objectos desfazendo
E nas sombras foi todos sepultando;
Eu, desperta, o meu fado lamentando.
Fui coa ausência da luz esmorecendo.
Neste espaço, em que dorme a Natureza.
Porque vigio assim tão cruelmente?
Porque me abafa ó peso da tristeza?
Ah, que as mágoas que sofre o descontente,
As mais delas são faltas de firmeza.
Torna a alentar-te, ó Sol resplandecente!
O Pré-Romantismo
Dá-se este nome, na história da literatura portuguesa, ao conjunto de manifestações duma sensibilidade e dum gosto românticos antes de 1825, data que se toma convencionalmente para marcar o início do Romantismo em Portugal. A ideia de que o Romantismo, ou certos aspectos dele, se encontram, em germe, na segunda metade do séc. XVIII remonta à historiografia literária oitocentista...
(...) Hoje podemos definir o Pré-Romantismo pelas seguintes características: inculca-se o perfil do poeta nascido sob o signo infeliz, inclinado à melancolia e ao desespero; assim, o poeta compraz-se no isolamento e na paisagem emsombrada, lúgubre; a intuição do mistério do universo leva-o a confiar em agouros e pressentimentos, aumentando a sua inquietação; o poeta vive intensamente pelos afectos, pelas emoções e até pelos sentidos, é um ser vibrátil, apaixonado, e o instrumento da perseguição dos Fados é muitas vezes um amor total, de corpo e alma, avassalador, ou então violentamente sensual; o instinto, segundo a lição de Rousseau, é nimbado de inocência, e chega-se a entender o amor como um absoluto, uma espécie de religião depuradora e exaltante que a sociedade não tem o direito de tolher; a poesia dá vazão ao tumulto interior, torna-se expansiva e confidencial, tende a confundir-se com a vida; por outro lado, procura-se uma linguagem nova, não só impressionante, excessiva, de tintas violentas, mas capaz de traduzir imediata e fielmente o próprio fluxo subjectivo (aqui oscila-se entre a espontaneidade emocional e a declamação espectacular); reagindo-se contra o racionalismo iluminístico, exprime-se a nostalgia do maravilhoso ou do pitoresco folclórico (lendas, contos de fadas, velhos usos e tradições); enfim, o gosto da paisagem diferente e do maravilhoso etnográfico leva aos primeiros assomos de exotismo (entre nós o exotismo brasílico).
Estes aspectos, que naturalmente se entrelaçam, abrangem a maior parte, e a mais significativa, do que virá a ser o Romantismo; mas surgem, por ora, associados, não raro de modo paradoxal, quer ao neoclassicismo (figuração mitológica, alegoria, imitação, adopção de modelos greco-latinos e quinhentistas), quer ao iluminismo (afirmações de deísmo, endeusamento da Razão e da Liberdade). Note-se que, rigorosamente, não há Pré-Romantismo, pois não se trata de um movimento uno e de directrizes conscientes, mas sim pré-românticos, cada um com a sua feição individual e combinando de modo sui generis ingredientes neoclássicos e pré-românticos. Só depois do Romantismo seria possível tomar consciência de como este movimento se anunciou e foi elaborando no séc. XVIII, ante litteram.
Note-se ainda que os aspectos atrás apontados nem são comuns a todos os autores considerados pré-românticos nem se manifestam simultaneamente. Com efeito, não são comuns: o endeusamento do amor que é paixão voluptuosa e sublimação do instinto encontra-se em José Anastácio, em Bocage, mas não em Xavier de Matos ou em Filinto; mais brando e espiritual é o erotismo de Gonzaga, apesar de certos pormenores «realistas» do retrato físico da noiva; a criação duma linguagem imediata da sensibilidade, incerta e ofegante, é privilégio de José Anastácio; entretanto, não propende este à pintura do locus horrendus onde, solitário, o poeta se afoga em tristeza - pintura em que convergem Xavier de Matos, a Marquesa de Alorna, Bocage (...) o fluminense António Pereira de Sousa Caldas, se tem aqui jus a menção, é pela ode «Ao Homem Selvagem», onde contrapõe as leis sociais, «montão de cadeias» que infelicitam os homens, às leis que escreveu nos nossos peitos a Natureza «simples e constante» (lição de Rousseau), ou pelo estilo caloroso, fremente, ou ainda pela inquietação religiosa, que também se descobre em José Anastácio e Bocage: «A minha alma inconstante / Crê, presume, vacila, incerta treme, / E em dúvidas cruéis aflita geme»; a nostalgia do maravilhoso popular ou tradicional (contos de fadas, literatura de cordel) singulariza Filinto Elísio, acicatado pelas saudades da Pátria e da infância e sob o estímulo do germanismo introduzido em Portugal por Alcipe (a Marquesa de Alorna); são também as queixas do exilado o que mais impressiona em Bento Luís Viana, «Filinto Insulano» (S. Miguel, 1794-Londres, 1823)? cujas Poesias (Paris, 1821) cantam a Liberdade e exaltam «Rousseau, Voltaire, Montesquieu divinos»; o exotismo brasílico aproxima Santa Rita Durão e J. Basílio da Gama, nascidos na colónia, e o árcade Cruz e Silva, nascido na metrópole, já atento à natureza e às lendas do Brasil (nomeadamente nas Metamorfoses).
Por outro lado, convém insistir, esses aspectos não se afirmam simultaneamente. Agrupar os chamados pré-românticos em gerações ajudaria a compreender o modo como o Pré-Romantismo se processou entre nós.
Coelho, Jacinto do Prado, DICIONÁRIO DE LITERATURA, 3ª edição, 3º volume
O terceiro quartel do século XVIII em Portugal foi profundamente perturbado pela acção do marquês de Pombal, «déspota esclarecido» segundo um modelo que a conjuntura nacional o temperamento do ministro afeiçoaram de maneira empírica, apressada e contraditória. A ideologia ou as ideologias do «Iluminismo» penetraram com dificuldade nos esquemas mentais Nação que deviam retomar propostas de há século já. Adoptaram-se assim ideias de Colbert ainda eis para a definição do estatuto social de uma nova classe sobre a qual Pombal devia apoiar seu sistema. As reformas do ministro tendiam a levar a cabo uma cisão entre a corte e a sua nobreza ainda barroca e uma elite burguesa empreendedora no plano dos negócios. Cisão - mas também fusão, se a nobreza aceitasse servir, m derrogação, as ideias progressistas de Pombal. O Colégio dos Nobres, instalado em lugar Colégio dos Jesuítas expulsos, velará por esta fusão necessária. O processo de evolução ti social foi, na aparência, provocado e sem dúvida p acelerado pelo terramoto de 1755, que permitiu ao ministro ver-se investido de plenos poderes. Uma nova cidade saiu então da sua vontade ; os planos de Lisboa pombalina traduzem esquemas ideológicos novos, a sua realização será sobretudo devida aos capitais dos apaniguados de Pombal (1) .Pode falar-se então de uma espécie de mutação na vida nacional. A Lisboa nova, espécie de Salento real, será o décor que o «terrível marquês» oferece à sua própria acção reformadora - comparável também a um terra- moto.
Nesta cidade em ruínas, cujos projectos de reconstrução, sob um desenho barroco voluntariamente empobrecido e ainda derivado do maneirismo espanhol de Herrera, anunciam as virtudes do neoclassicismo - nesta cidade racional, os próprios poetas exaltavam a sageza de uma realidade burguesa e quotidiana. Constituindo então a poesia o único domínio literário importante pela sua qualidade, nela devemos procurar os sintomas significativos de uma alteração estrutural. Sob Pombal, a poesia, levada por esta reforma da mentalidade, tinha por dever instruir. Verney, conselheiro filosófico que o ministro conservava prudentemente a distância, impunha-lhe limites demasiado estreitos que um poeta como Correia Garção (meio Diderot meio Boileau, pela força de circunstâncias anacrónicas) alargava com a sua verve crítica, no quadro da nova Arcádia, academia de poetas fiel ao ditador.
As regras que resistiam ainda aos dados do quotidiano impunham, porém, o uso de uma cultura clássica ancilosada cujas imagens mito- lógicas encontravam uma justificação nas poéticas de Aristóteles e de Horácio, manejadas com constância. Horácio, Virgílio, Ovídio e Píndaro também são modelos seguidos e frequente- mente traduzidos. Mas, por detrás da hábil fachada de um neoclassicismo literário, fortes sentimentos individuais despontavam já, mesmo entre os amigos do marquês reformador .
Dois poetas nascidos em 1774 vão permitir-nos precisar o movimento subtil que orienta a cultura dos árcades e marca já o seu processo de dissolução. Os historiadores da literatura dão-lhes o nome de «pré-românticos», separando-os, assim, da sua geração ainda submetida a valores clássicos - e nós devemos aceitar este nome, sem dúvida perigoso mas que sugere os caminhos do futuro. Actores no seio da crise de consciência da segunda metade do século XVIII, Tomás António Gonzaga e José Anastácio da Cunha, um magistrado e um matemático, procuram no interior do código académico uma possibilidade de expressão erótica. Ê precisa- mente por aí que o código explode...
Os amores adocicados dos pastores da Arcádia, ficções ad usum dos «outeiros» dos conventos de religiosas, salons de uma sociedade cristalizada em hábitos do século XVII, não poderão bastar quando a carne geme verdadeira- mente ou se abandona ao prazer. Separado da sua jovem amada por um destino trágico de pseudoconspirador posto a ferros, Gonzaga, aos quarenta anos, desenrola, na sua prisão, um longo canto de amor e de agonia, em sequências poéticas às quais dá o nome sugestivo de «liras».
Eu tenho um coração maior que o mundo,
Tu, formosa Marília, bem o sabes:
Um coração, e basta,
Onde tu mesma cabes.
Este coração que o poeta compara ao mundo é posto a nu pela primeira vez numa análise onde o próprio mundo deve caber, por intermédio do quotidiano. Descrições, evocações, lamentações, planos para o futuro ( um futuro burguês e horaciano ao mesmo tempo), o medo de ter perdido todas as coisas, inclusivamente a sua bela - tudo isto flui no poema de Gonzaga, em versos por vezes muito belos na sua simplicidade.
É certo que o poeta deu um nome de pastora à sua amada e ele próprio tomou um nome pastoril. «Marília» e «Dirceu» não são, porém, mais do que pseudónimos de circunstância que a convenção poética impõe: nem por isso o jogo do poeta deixa de ser um jogo novo, em que ele inteiramente se compromete. Mesmo se, deportado para Moçambique, Gonzaga aí se casa um ano mais tarde, enquanto a sua «Marília», casada também, morrerá octogenária, inspirando então um folhetim irónico a um jovem escritor dos anos 50...
A vida pregou a ambos uma partida que se tornará numa simples recordação, Pode comentar-se cinicamente a sua história lembrando a pressa que Gonzaga pôs em publicar o poema, no próprio ano em que tomou o caminho do exílio: esta história de amor infeliz alcança uma solução sábia e realista de que os pastores antigos não teriam sido capazes. Ela não deixou por isso de se tornar um tema de «Modinha» brasileira, docemente melancólica...
Também José Anastácio da Cunha dá um nome de pastora à amada, mas a sua Margarida, maciça camponesa disposta aos jogos sensuais do poeta, está presente por detrás de «Marfida», com a sua inteira verdade carnal. José Anastácio leu e traduziu Anacreonte, Horácio, Virgílio e também Milton, Pope e Shakespeare, Montesquieu e Voltaire - mas o que nos interessa é marcar a nova perspectiva que ele propôs à poesia portuguesa :
Não vês, inda de gosto sufocados,
Um no outro nossos peitos esculpidos?
- uma flama, um ardor dos sentidos, o glorioso desespero de possuir a mulher, a própria febre do amor físico de que o poeta traduz quase o ritmo tumultuoso.
A sinceridade destes dois casos, a definição de uma situação pessoal que se dirige à própria realidade, que se identifica inteiramente com ela, significa uma mutação que não é somente intelectual: é preciso ver aí um dos elementos de base de uma nova estrutura sociocultural que se anuncia. E não é certamente por acaso que Gonzaga, filho de brasileiro, integrado na vida da colónia, participou numa conspiração nacionalista cujo fim era a independência. :m igualmente significativo que José Anastácio (autor de um lúcido quadro-requisitório da cultura portuguesa, em 1780, mantido em estado de manuscrito) tivesse sido vítima da Inquisição, acusado de más leituras filosóficas. A libertação e a liberdade, referidas a uma pátria ou a um espírito, casam-se com o conhecimento do amor: José Anastácio, morto aos quarenta e três anos, é, em certa medida, um «libertino» - um libertino provinciano e tranquilo, como convinha ao fim do século XVIII português, que, após a queda de Pombal (1777), era varrido por uma feroz reacção clerical. Por isso ele não será publicado antes de 1839, editado então pelos liberais românticos, que, treze anos antes, não suspeitavam ainda da existência da parte mais significativa da sua obra - e que não deixaram, aliás, de fazer apreender a edição, por «abuso de liberdade de imprensa em matéria religiosa»...
Também como libertino será considerado um poeta vinte anos mais jovem mas falecido em 1805, quatro anos antes de Gonzaga: Bocage . Detenhamo-nos nesta outra personagem-chave do panorama literário do fim do século XVIII. Figura popular da boémia lisboeta, improvisa- dor célebre, Bocage esbanjou o seu talento em escaramuças de poetas calaceiros, clientes habituais de cafés de nomes pitorescos -proletariado intelectual resultante da mutação da sociedade portuguesa que, tendo perdido os seus mecenas, não tinha podido substituí-los. Agrupados numa «Nova Arcádia», enganavam-se eles a si próprios com uma ilusão académica que já não era do seu tempo. Situada entre duas épocas, a sua poesia não era, muitas vezes, mais do que um jogo hábil de palavras em que a cultura clássica se esvaziava de sentido. Assim fazia Bocage - mas o seu talento lançava-o mais longe, como que contra a própria vontade.
Por detrás das suas numerosas paixões, marcadas por eternos nomes de pastoras, e das suas sátiras, de rara violência, rompem a inquietação e a angústia. A obsessão da morte é o tema-chave da poesia de Bocage : a morte que ele reclama e teme - libertação, castigo ou per- dão. Mas, sobretudo, uma espécie de terror per- manente, uma presença nocturna que não o abandona - e que já não é o trio das Parcas, mesmo se ele ainda pode assim chamá-la. Este terror abre-se sobre o vazio, sobre o nada- sobre uma vida eterna que não seria mais do que ilusão e engano. Angustiado, o poeta gritará contra a «pavorosa ilusão da eternidade»; mas ditará no seu leito de morte um arrependimento de além tumba: «Já Bocage não sou! ...À cova escura...»
Com Bocage , é a morte e a noite ( «Oh retrato da morte, oh noite amiga» ) que surgem no sentido de modernidade dos Portugueses. Mas, com ele, a liberdade ( «mãe dos prazeres, doce Liberdade» ) adquire também uma cor nova que a França libertina ilumina, ao mesmo tempo que lhe oferece «o Deus da razão», 0 seu Deus que Bocage brandirá contra o «Deus do fanatismo», o «Deus que horroriza a Natureza». A Inquisição condenará as suas ideias filosóficas - mas não poderá nada contra o sentido da natureza que o poeta descobria traduzindo Bernardin de Saint-Pierre e Delille, já que, mesmo iludindo as descrições precisas do primeiro, ele não deixava de ser sensível às «ruínas», aos «castelos», aos «conventos abandonados» do segundo, arsenal de imagens de um gosto novo.
Chefe de fila dos Elmanistas, clã de poetas que, no limiar do Romantismo, se reclamavam da Arcádia, feliz ele próprio por usar um nome de pastor antigo, Bocage-Elmano é, contudo, um homem solitário, à sombra da morte que outros poetas só quarenta anos mais tarde sen- tirão. E a sua morte não deixará de ser interpretada pelos românticos de 1849 como um «suicídio» - desfecho lógico das «lutas de uma vocação incompreendida com as exigências miseráveis da sociedade». Ao mesmo tempo, um poeta ilustre insistirá sobre o seu carácter popular, vendo nele «um homem do povo», «o criador de uma poesia plebeia» ; mas vendo também nele um poeta maldito - igual a Camões, «pobre», «criminoso» e «malfadado» como ele. Camões, de quem José Anastácio da Cunha havia já denunciado, em cólera pré-romântica, o destino miserável que a pátria lhe tinha oferecido...
Um equívoco popular e anedótico se constituiu à volta da vida de Bocage , tanto quanto um equívoco literário em torno da sua obra; é preciso, porém, observar que, nele, os valores instintivos prevalecem sobre os valores culturais. O seu lugar é portanto ao lado de José Anastácio e de Gonzaga e não junto de Filinto Elísio, o chefe de fila dos Filintistas, poetas-«pastores» que vão opor-se aos Elmanistas, numa guerra pueril que precede a formação de uma consciência crítica dos problemas do Romantismo.
O P.e Nascimento, «Filinto Elísio» para os poetas, merece por seu lado uma pausa no nosso inquérito.
Contemporâneo de Gessner e de Wieland, este padre horaciano, que, passada a quarentena, em 1778, fugiu da Inquisição e foi instalar-se em Paris, onde morreu em 1819, foi uma espécie de pólo e de plaque tournante da poesia portuguesa nos fins do século XVIII. O seu nome encontra-se em relação com o dos poetas que marcam a transição do esquema cultural que era o seu para uma inspiração nova que não podia ainda definir-se e que Filinto não poderia certamente aceitar. A sua poética composta em Paris, em 1790, ocupação se não obsessão de emigrado comprometido na «defesa da língua (portuguesa)», é já um tratado arcaizante; a sua poesia, obedecendo às mesmas ideias, não é mais do que um monumento de gosto horaciano: ele sabe evitar as armadilhas académicas, mas, cantando a liberdade e lamentando-se do exílio, não procura inovações sentimentais, antes pelo contrário. E, contudo, os elogios de Filinto Elísio constituíram a melhor das recompensas para Bocage e para a sua aluna Alcipe, tradutora de Thomson, de Gray e de Wieland - que ele próprio traduzirá, assim como Chateaubriand. Lamartine, a quem deu lições de português, consagrou-lhe estâncias em que falava do seu exílio. O maior dos poetas românticos, Garrett , valer-se-á dele, defendê-lo-á sempre, após ter-lhe atribuído a composição de um dos seus primeiros poemas-romances, pelo qual o Romantismo surgia na literatura portuguesa. A fidelidade de Garrett ao velho poeta traduzia-se então por uma forma hábil e requintada, obedecendo, ela própria, aos mais puros valores clássicos. Ê através do ensino de Filinto que a influência de Horácio persistirá na cultura da primeira geração romântica nacional: E assim, paradoxalmente, os Filintistas foram mais modernos que os companheiros de Bocage ...
Entre uma e outra geração há, contudo, um poeta que nos ajuda a compreender a ev9lução dos sentimentos e das formas, ao longo destes anos incertos: «Alcipe», que Filinto baptizou, como ela baptizou «Filinto». O velho poeta foi seu mestre, enleado, talvez, num amor platónico; Bocage dedicar-lhe-á as próprias poesias, em 1804.
França, José-Augusto, O ROMANTISMO EM PORTUGAL, volume I, Livros Horizonte, Lisboa, 1975-1977
Verney VERDADEIRO MÉTODO DE ESTUDAR
ESTILO SIMPLES E ESTILO MEDÍOCRE
Ao estilo sublime contrapomos o estilo simples ou humilde. Assim como as coisas grandes devem explicar-se magnificamente, assim o que é humilde deve-se dizer com estilo mui simples e modo de exprimir mui natural. As expressões do estilo simples são tiradas dos modos mais comuns de falar a língua; e isto não se pode fazer sem perfeito conhecimento da dita língua. Esta é, segundo os mestres da arte, a grande dificuldade do estilo simples. Fácil coisa é a um homem de alguma literatura ornar o discurso com figuras; antes todos propendemos para isso, não só porque o discurso se encurta, mas porque talvez nos explicamos melhor com uma figura do que com muitas palavras. Pelo contrário, para nos explicarmos naturalmente e sem figura, é necessário buscar o termo próprio, que exprima o que se quer, o qual nem sempre se acha, ou, ao menos, não sem dificuldade, e sempre se quer perfeita inteligência da língua para o executar. Além disto, as figuras encantam o leitor e impedem-lhe penetrar é descobrir os vícios que se cobrem com tão ricos vestidos. Não assim no estilo simples, o qual, como não faz pompa de ornamemtos, deixa considerar miudamente os pensamentos do escritor...
Isto que digo das expressões comuns e naturais deve-se entender com proporção. Não quero dizer que um homem civil fale como a plebe, mas que fale naturalmente. A matéria do estilo humilde não pede elevação de figuras, etc., mas nem por isso se deve exprimir com aquelas toscas palavras de que usa o povo ignorante. Não é o mesmo estilo baixo que estilo simples. O estilo baixo são modos de falar dos ignorantes e pouco cultos: o estilo simples é modo de falar natural e sem ornamentos, mas com palavras próprias e puras. Pode um pensamento ter estilo sublime, e não ser pensamento sublime; e pode achar-se um pensamento sublime, com estilo simples. Explico-me. Para ser sublime o estilo, basta que eu vista um pensamento e o orne com figuras próprias, ainda que o pensamento nada tenha de sublime. Pelo contrário, chamamos simplesmente sublime (com os retóricos) àquela beleza e galantaria de um pensamento que agrada e eleva o leitor, ainda que seja proferida com as mais simples palavras. De sorte que o sublime pode-se achar em um só pensamento nu figura, etc. Importa muito entender e distinguir isto, para não ser enfadonho nas conversações e nas obras que pedem estilo humilde.
Do que... tenho dito fica claro qual é o estilo medíocre: aquele, digo, que participa de um e outro estilo. Também este estilo não é pouco dificultoso, porque é necessário conservar uma mediania que não degenere em viciosos extremos. e são poucos aqueles que conhecem as coisas na sua justa proporção e formam aquela ideia que merecem. Já disse que a matéria é a que determina qual há-de ser o estilo; e assim uma matéria medíocre pede um estilo proporcionado. A maior parte das coisas de que falamos são medíocres; e daqui vem que neste estilo de falar deve-se empregar um homem que quer falar bem e conseguir fama de homem eloquente. Um homem de juízo, que conhece as coisas como são, Forma delas ideias justas e verdadeiras, e as explica com as palavras que são mais próprias. Donde vem que o estilo medíocre compete propriamente às Ciências todas, à História e outras coisas deste género, nas quais se representam coisas não vis, mas medíocres; porém representam-se da mesma sorte que são, e com palavras próprias.
Também as cartas de negócios graves, ou eruditas, e aquelas de cerimónia a pessoas grandes, etc., costumam ser neste estilo. É, porém, de advertir que o estilo medíocre admite todos os ornamentas da arte: beleza de figuras, metáforas, pensamentos finos, belas descrições, harmonia do número e da cadência. Contudo, não tem a vivacidade e grandeza do sublime. Participa de um e outro, sem se assemelhar a nenhum. Tem mais força e abundância que o simples, menos elevação que o sublime, e prossegue com passo igual e mui brandamente.
Verdadeiro Método de Estudar, Carta VI.
Ao estilo sublime contrapomos o estilo simples ou humilde. Assim como as coisas grandes devem explicar-se magnificamente, assim o que é humilde deve-se dizer com estilo mui simples e modo de exprimir mui natural. As expressões do estilo simples são tiradas dos modos mais comuns de falar a língua; e isto não se pode fazer sem perfeito conhecimento da dita língua. Esta é, segundo os mestres da arte, a grande dificuldade do estilo simples. Fácil coisa é a um homem de alguma literatura ornar o discurso com figuras; antes todos propendemos para isso, não só porque o discurso se encurta, mas porque talvez nos explicamos melhor com uma figura do que com muitas palavras. Pelo contrário, para nos explicarmos naturalmente e sem figura, é necessário buscar o termo próprio, que exprima o que se quer, o qual nem sempre se acha, ou, ao menos, não sem dificuldade, e sempre se quer perfeita inteligência da língua para o executar. Além disto, as figuras encantam o leitor e impedem-lhe penetrar é descobrir os vícios que se cobrem com tão ricos vestidos. Não assim no estilo simples, o qual, como não faz pompa de ornamemtos, deixa considerar miudamente os pensamentos do escritor...
Isto que digo das expressões comuns e naturais deve-se entender com proporção. Não quero dizer que um homem civil fale como a plebe, mas que fale naturalmente. A matéria do estilo humilde não pede elevação de figuras, etc., mas nem por isso se deve exprimir com aquelas toscas palavras de que usa o povo ignorante. Não é o mesmo estilo baixo que estilo simples. O estilo baixo são modos de falar dos ignorantes e pouco cultos: o estilo simples é modo de falar natural e sem ornamentos, mas com palavras próprias e puras. Pode um pensamento ter estilo sublime, e não ser pensamento sublime; e pode achar-se um pensamento sublime, com estilo simples. Explico-me. Para ser sublime o estilo, basta que eu vista um pensamento e o orne com figuras próprias, ainda que o pensamento nada tenha de sublime. Pelo contrário, chamamos simplesmente sublime (com os retóricos) àquela beleza e galantaria de um pensamento que agrada e eleva o leitor, ainda que seja proferida com as mais simples palavras. De sorte que o sublime pode-se achar em um só pensamento nu figura, etc. Importa muito entender e distinguir isto, para não ser enfadonho nas conversações e nas obras que pedem estilo humilde.
Do que... tenho dito fica claro qual é o estilo medíocre: aquele, digo, que participa de um e outro estilo. Também este estilo não é pouco dificultoso, porque é necessário conservar uma mediania que não degenere em viciosos extremos. e são poucos aqueles que conhecem as coisas na sua justa proporção e formam aquela ideia que merecem. Já disse que a matéria é a que determina qual há-de ser o estilo; e assim uma matéria medíocre pede um estilo proporcionado. A maior parte das coisas de que falamos são medíocres; e daqui vem que neste estilo de falar deve-se empregar um homem que quer falar bem e conseguir fama de homem eloquente. Um homem de juízo, que conhece as coisas como são, Forma delas ideias justas e verdadeiras, e as explica com as palavras que são mais próprias. Donde vem que o estilo medíocre compete propriamente às Ciências todas, à História e outras coisas deste género, nas quais se representam coisas não vis, mas medíocres; porém representam-se da mesma sorte que são, e com palavras próprias.
Também as cartas de negócios graves, ou eruditas, e aquelas de cerimónia a pessoas grandes, etc., costumam ser neste estilo. É, porém, de advertir que o estilo medíocre admite todos os ornamentas da arte: beleza de figuras, metáforas, pensamentos finos, belas descrições, harmonia do número e da cadência. Contudo, não tem a vivacidade e grandeza do sublime. Participa de um e outro, sem se assemelhar a nenhum. Tem mais força e abundância que o simples, menos elevação que o sublime, e prossegue com passo igual e mui brandamente.
Verdadeiro Método de Estudar, Carta VI.
Correia Garção DISSERTAÇÃO TERCEIRA
(... ) Entre as sólidas máximas com que Horácio pretende formar um bom poeta, não é, - como vós sabeis -, menos importante a imitação. Não falo da imitação da Natureza, mas da imitação dos bons autores, daquela imitação à qual deve a Arcádia sua grande reputação e não pequena parte dos honrados elogios com que foi recebida de nossos mais prudentes e doutos patrícios, e que há-de espalhar seu nome pelas nações estrangeiras. Este foi em todos os séculos e será em todas as idades o maior segredo de tão divina arte.
Os Gregos e os Latinos, que dia e noite não devemos largar das mãos, estes soberbos originais, são a única fonte de que manam boas odes, boas tragédias e excelentes epopeias.
Este é o verdadeiro génio a que o vulgo chama veia poética e os doutos entusiasmo.
Muito pode o espírito humano! Mas nunca terá força para subir tão alto se não for pela estrada que trilharam os antigos poetas e oradores. Entre nós, depois que acabaram os bons dias da poesia portuguesa, poucos foram os que penetraram semelhante mistério, de que são miseráveis testemunhas as obras dos seiscentistas. Guardava o Céu para a Arcádia a honra e a vaidade de erguer esta bandeira e levar consigo seus compatriotas. Hoje todos desejam imitar os Antigos, todos estudam pelos Gregos, pelos Latinos e pelos nossos bons autores: mas, fugindo de Cila, quantos varam em Caríbdes?
Querem ser imitadores e não passam de uns humildes plagiários.
Para evitar tão depravado extremo, nos recomenda Horácio o modo com que devem ser imitados os Antigos; e ainda que neste lugar estabeleça outras regras para conseguirmos tão desejado fim, a mim me pareceu, olhando para o vício mais comum, que devia escolher para assunto as poucas mas importantes palavras com que tão grande crítico nos ensina a imitar e nos mostra o perigo de que devemos fugir.
Muitos, querendo imitar Virgílio, fazem uma má tradução desta ou daquela imagem de tão grande poeta; e escravos de suas palavras não passam de tradutores. Não imitam, roubam e despedaçam as obras alheias: desfiguram o que lhes agradou, como se tomassem por empresa fazer-nos aborrecer o que admiramos. Disto acha-se que enfermam tantas quantas são as obras que todos os dias aparecem cheias de lugares dos poetas, não imitados, mas servilmente traduzidos. É tão forte a preocupação de que nascem tão lastimosas desordens que muitos com vaidade e com soberba apontam e mostram os pensamentos ou ideias que roubaram ou traduziram.
[…]
Devemos imitar e seguir os Antigos: assim no-lo ensina Horácio, no-lo dita a razão, e o confessa todo o mundo literário. Mas esta doutrina, este bom conselho, devemos abraçá-lo e segui-lo de modo que mais pareça que o rejeitamos, isto é, imitando e não traduzindo. Os poetas devem ser imitados nas fábulas, nas imagens, nos pensamentos, no estilo; mas quem imita dever fazer seu o que imita. Se imito a fábula, devo conservar a acção, ou alma da fábula; mas devo variar de forma os episódios que pareça outra nova e minha. Se imito as pinturas, não devo no meu poema introduzir um Polifemo, mas do painel deste gigante posso tirar as cores para um Adamastor. Se imito o estilo, não devo servir-me das palavras dos Antigos, mas achar na linguagem portuguesa termos equivalentes, enérgicos e majestosos, sem torcer as frases, nem adoptar barbarismos.
Olhando para a prática dos Latinos e bons Modernos, achamos religiosamente guardados estes preceitos. Assim imita, Virgílio a Homero na sua Eneida, assim imita a Teócrito na sua Bucólica. Assim imitou Camões a Virgílio; António Ferreira a Horácio; Sófocles a Teócrito; Bion a Mosco.
[…] Feliz aquele que não só imita, mas excede ao seu original.
Correia Garção, Dissertação Terceira
(Nota: A "Dissertação Terceira" sobre ser o principal proveito para formar um bom Poeta procurar e seguir somente a imitação dos melhores autores da Antiguidade, recitada na conferência da Arcádia Lusitana no dia 7 de Novembro de 1757).
O ILUMINISMO
Enquanto na Europa se afirmavam o Iluminismo, o Racionalismo e o Experimentalismo em todas as áreas do pensamento, em Portugal vivia-se ainda o tradicionalismo da filosofia escolástica medieval. Sob o ponto de vista cultural, a primeira metade do século XVIII não é mais que um prolongamento do século anterior. Na sociedade de então só restava o exílio aos portugueses que realmente se preocupavam com a situação degradante a que se tinha chegado no país. Chamavam-se «estrangeirados» os intelectuais obrigados por causa das suas convicções a procurar refúgio no estrangeiro ou que precisavam de forte apoio real para não serem perseguidas pelas suas ideias iluministas, contaminadas portanto pelo «estrangeiro». Alguns tinham sido obrigados a desterrar-se para escapar à fogueira - o Cavaleiro de Oliveira tinha sido queimado «em estátua», num auto-de-fé de Lisboa; outros tinham conseguido um exílio dourado através da nomeação para um cargo diplomático, sendo o regresso condicionado pela protecção pessoal do rei. «Os estrangeirados», representantes das Luzes no espaço português, traziam as novas ideias iluministas e julgavam a realidade portuguesa utilizando novos critérios, inaceitáveis para a doxa reinante: assim, eles criticavam a superstição e o fanatismo, os abusos da Inquisição e o papel que eles julgavam funesto dos Jesuítas na educação nacional, e promoviam, de acordo com os ideais da época, a extinção dos autos-de-fé, dos processos do Santo Ofício, a justiça e a tolerância. Entre os estrangeirados mais importantes para a evolução ulterior do pensamento português contam-se Luís António Verney, D. Luiz da Cunha, Alexandre de Gusmão. Luís António Verney (1713-1792) publicou em 1746 o Verdadeiro Método de Estudar, que promovia uma série de medidas de reforma do ensino e da mentalidade portuguesa.
Arcádia Lusitana
A Arcádia era uma região da Hélade (Grécia), considerada pelas narrações lendárias como sendo a pátria de poetas e de músicos. Daí, o nome de Arcádia ter sido escolhido pelos literatos do século XVIII para designar as academias então fundadas com a finalidade de reformar a literatura e reagir contra o cultismo e o conceptismo. Também em Portugal se criou, em 1755, a Arcádia lusitana ou Ulissiponense de que foi fundador, entre outros, António Diniz da Cruz e Silva, que redigiu os estatutos. António Diniz da Cruz e Silva foi o autor do célebre poema herói-cómico “O Hissope”, que satiriza a ignorância, vaidade e indolência de certos membros do clero, a mania do francês na linguagem e os gongóricos.
Os sócios da Arcádia eram eleitos por unanimidade, em escrutínio secreto, sendo inicialmente em número de trinta e mais tarde de sessenta. Entre os sócios destacam-se Correia Garção (seu principal doutrinador literário), Francisco José Freire (Cândido Lusitano).
Sendo a crítica literária uma das principais finalidades da Arcádia, foi escolhida como insígnia um meio braço segurando um podão com a legenda «Inutilia truncat» (corta as inutilidades). Como divisa, ostentava um lírio, símbolo da Imaculada, sua padroeira, que, com uma sessão extraordinária, festejavam a 8 de Dezembro.
Na poesia procuraram inspirar-se em temas e formas clássicos, mesmo em algumas que não tinham sido cultivados no século XVI. Na linguagem preferiam formas rebuscadas, epítetos alatinados, compostos aglutinantes de origem grega e utilizavam o verso branco.
Como princípios fundamentais da teoria arcádica há ainda a salientar: a procura da verdade ou, pelo menos, da verosimilhança, a imitação da natureza seleccionada de maneira a compor um quadro belo, a apologia do equilíbrio razoável e da selecção ponderada; o fim útil da poesia que deve contribuir para o aperfeiçoamento moral e social do homem culto, e da razão; e o uso da mitologia de modo claramente inteligível como forma de «ornamentação» do texto poético.
A Arcádia também apostou na renovação do teatro para o que muito contribuiu a acção de Correia Garção, que escreveu duas dissertações sobre o carácter da tragédia e duas peças, «Teatro Novo» e «Assembleia ou Partida».
Nas dissertações recomenda que as cenas da violência sejam substituídas por uma narração eloquente; que a tragédia sirva como meio de purificação dos sentimentos pelo terror e pela piedade; que o útil esteja ligado ao agradável; e que, a imitação dos antigos não seja servil, mas tenha o cunho da originalidade. A Arcádia promoveu ainda a tradução de várias obras, entre outras, as comédias de Molière e diversas artes poéticas.
Apesar dos resultados positivos da Arcádia - depuração do gosto artístico (oposição ao barroco), renovação temporária do teatro, aproximação da literatura do real quotidiano e da vida social, função moral da obra literária, o seu fim estava próximo. Assim, em 1776, após um período de rápido declínio, a A deixou de existir.
Nem todos os literatos da época pertenciam à Arcádia Lusitana. São os dissidentes ou independentes. Alguns destes - José Anastácio da Cunha, Bocage, José Agostinho de Macedo criaram em 1790 a Nova Arcádia ou Academia das Belas Letras de Lisboa, que teve também vida efémera. No entanto, o padre Francisco Manuel do Nascimento (Filinto Elísio) Nicolau Tolentino e a marquesa de Alorna não se filiaram em nenhuma das Arcádias, não deixando porém de ser influenciados pelo seu espírito, chegando até a usar nomes arcádicos. Numa situação de transição do neoclassicismo para o romantismo encontram-se Filinto Elísio, José Anastácio da Cunha, a marquesa de Alorna (figura importante na dinamização da vida cultural da época, através do salão literário que organizava em sua casa) e, sobretudo, Bocage, que marcou o confluir do neoclassicismo e do romantismo. Romântico por temperamento, pela profunda consciência pessoal de que dá mostras, aliada a um sentimento fúnebre, o seu estilo encontra-se ainda marcado por recursos arcádicos. A par do acolhimento dado à sua arte versificadora, é de destacar a popularidade de que veio a gozar como poeta satírico e cómico.
Fora da Arcádia, há também a considerar António José da Silva, O Judeu, um dos maiores dramaturgos portugueses.
António José da Silva, O Judeu
(1705-1739)
Nascido no Rio de Janeiro, filho de cristãos-novos, vem a Lisboa em 1713 acompanhando a mãe que tinha sido presa pelo Santo Ofício. À chegada do Brasil também o pai foi encarcerado. Em 1726 é preso juntamente com a mãe, torturado e penitenciado em auto-da-fé. Conclui a sua formatura em Coimbra e começa a praticar advocacia. Já em 1729 tinha-se tornado famoso como autor de comédias e óperas e por isso lhe chamavam O Plauto Português. Em 1733 representa-se A Vida do Grande D. Quixote de la Mancha e do Gordo Sancho Pança. Entre 1734 e 1739 escreve e faz representar outras peças: Esopaida, Os Encantos de Medeia, O Anfitrião, O Labirinto de Creta, Guerras do Alecrim e da Mangerona.
Em 5 de Outubro de 1737 é preso juntamente com a esposa, que se encontrava grávida, e com a mãe, detida pela terceira vez. Não havia qualquer denúncia registada contra ele nem ordem escrita de captura, o que era excepcional. Excepcional era também ter sido preso por ordem do conselho das Três Inquisições do Reino e não pela Inquisição de Lisboa, como seria normal. Os executores de captura foram importantes familiares do Santo Ofício. Em 1739 é condenado à morte relaxado em carne na fogueira e entregue ao tribunal. Em Outubro foi enforcado e depois queimado como «relapso convicto e negativo». Dele ficou o exemplo cívico de um homem «mártir da inquisição» como lhe chamou Teófilo Braga, que não transige perante as perseguições que lhe foram movidas.
Luís António Verney
Luís António Verney (1713-1792) nasceu em Lisboa e faleceu em Roma. Estudou Filosofia na Casa do Oratório em Lisboa e na Universidade de Évora. Com 17 anos de idade, terminou o bacharelato em Filosofia e licenciou-se dois anos depois na mesma área. Partiu então para Roma, frequentando o curso de Teologia. Regressando a Portugal, dedica-se ao ensino e em 1741 é nomeado pelo papa arcediago de Évora. Parte definitivamente para Roma devido a problemas de saúde e principalmente devido a incompreensões por parte dos seus compatriotas. Em 1746 publica o Verdadeiro Método de Estudar. É uma obra redigida sob a forma epistolar que se apresenta dividida em 16 cartas, tratando questões relacionadas com as disciplinas leccionadas na época e com questões pedagógicas, como o acesso da mulher à cultura.
Eis os principais temas tratados:
Realça a importância da Gramática, da Ortografia e da Pontuação, a superioridade da língua grega e a necessidade de estudar a língua em português e não em latim (Carta Primeira), condenando as gramáticas latinas em latim (Cartas Segunda e Terceira);
Destaca a necessidade de incluir o estudo do grego e do hebraico nos cursos de Teologia e o estudo das línguas modernas - francês e italiano - para todas as ciências (Carta Quarta);
Critica o barroco, descrevendo os vários estilos da oratória, referindo-se às qualidades do Padre António Vieira como epistológrafo e ao exagero como orador, pois "deixou-se arrebatar do estilo do seu tempo" (Cartas Quinta e Sexta);
Refere a necessidade de uma Arte Poética portuguesa e partilha das opiniões de Boileau sobre a importância da verdade na Poesia; indica as duas qualidades essenciais do Poeta (engenho e juízo); critica o uso da mitologia pagã na poesia (a que nem Camões escapa) e das metáforas despropositadas nos poetas barrocos (Carta Sétima);
Elogia os filósofos dos tempos modernos e destaca o papel da educação e da cultura como elementos fundamentais para a promoção social (Cartas Oitava a Décima Primeira);
Destaca a importância da anatomia nos estudos de Medicina (Carta Décima Segunda);
Critica o atraso nas Leis, tece considerações sobre a Jurisprudência e sobre a Teologia (Cartas Décima Terceira a Décima Quinta);
Realça a importância que se deveria atribuir à educação das mulheres e os efeitos benéficos que daí adviriam na vida conjugal, na vida social e na educação dos filhos (Carta Décima Sexta).
Esta obra, onde é evidente o Iluminismo católico, está em sintonia com as modernas correntes de pensamento europeu e dos trabalhos de filósofos como Descartes e Locke.
Eis os principais temas tratados:
·Realça a importância da Gramática, da Ortografia e da Pontuação, a superioridade da língua grega e a necessidade de estudar a língua em português e não em latim (Carta Primeira), condenando as gramáticas latinas em latim (Cartas Segunda e Terceira);
·Destaca a necessidade de incluir o estudo do grego e do hebraico nos cursos de Teologia e o estudo das línguas modernas - francês e italiano - para todas as ciências (Carta Quarta);
·Critica o barroco, descrevendo os vários estilos da oratória, referindo-se às qualidades do Padre António Vieira como epistológrafo e ao exagero como orador, pois "deixou-se arrebatar do estilo do seu tempo" (Cartas Quinta e Sexta);
·Refere a necessidade de uma Arte Poética portuguesa e partilha das opiniões de Boileau sobre a importância da verdade na Poesia; indica as duas qualidades essenciais do Poeta (engenho e juízo); critica o uso da mitologia pagã na poesia (a que nem Camões escapa) e das metáforas despropositadas nos poetas barrocos (Carta Sétima);
·Elogia os filósofos dos tempos modernos e destaca o papel da educação e da cultura como elementos fundamentais para a promoção social (Cartas Oitava a Décima Primeira);
·Destaca a importância da anatomia nos estudos de Medicina (Carta Décima Segunda);
·Critica o atraso nas Leis, tece considerações sobre a Jurisprudência e sobre a Teologia (Cartas Décima Terceira a Décima Quinta);
·Realça a importância que se deveria atribuir à educação das mulheres e os efeitos benéficos que daí adviriam na vida conjugal, na vida social e na educação dos filhos (Carta Décima Sexta).
Esta obra, onde é evidente o Iluminismo católico, está em sintonia com as modernas correntes de pensamento europeu e dos trabalhos de filósofos como Descartes e Locke.
Para além do Verdadeiro Método de Estudar (1746), deixou-nos ainda: Apparatus ad Philosophiam et Theologiam (1751), De Re Metaphysica (1753) e Gramatica Latina (1758).
Correia Garção
Pedro António Correia Garção (1724-1772) nasceu em Lisboa. Frequentou o curso de Direito da Universidade de Coimbra, mas teve de abandonar os estudos, tornando-se oficial de secretaria e redactor da Gazeta de Lisboa. É considerado um dos mais importantes poetas neoclássicos da literatura portuguesa. Pertenceu à Arcádia Lusitana, utilizando o pseudónimo de Corydon Erimantheo. As suas poesias foram publicadas em 1778 num só volume intitulado Obras Poéticas. Escreveu duas comédias: Teatro Novo e Assembleia ou Partida.
Nicolau Tolentino
Nicolau Tolentino de Almeida (1741-1811) nasceu em Lisboa. Estudou em Coimbra e, regressando a Lisboa, torna-se professor de retórica. Ensinou durante quinze anos, conseguindo então um lugar de oficial na Secretaria de Estado dos Negócios do Reino. Foi autor de sonetos, odes, cartas e sátiras, que foram publicados em 1801 no volume Obras Poéticas. Foi um dissidente da Arcádia Lusitana. A edição das suas obras de 1861, organizada por José Torres, inclui algumas gravuras da autoria de Nogueira da Silva.
Filinto Elísio
Filinto Elísio (1734-1819), pseudónimo do Padre Francisco Manuel do Nascimento, foi um dos mais importantes poetas do Neoclassicismo português. Apesar de ser clérigo, lendo livros racionalistas franceses proibidos pela Inquisição, teve de fugir para França, exilando-se em Paris em 1778. Estabeleceu relações de amizade com o poeta Lamartine. As suas poesias foram publicadas em Paris em onze volumes entre 1817 e 1819, seguindo-se uma segunda edição em Lisboa de vinte e dois volumes entre 1836 e 1840. Além de poeta era tradutor, vertendo para português os Mártires de Chateaubriand e as Fábulas de La Fontaine.
Anastácio da Cunha
José Anastácio da Cunha (1744-1787) nasceu em Lisboa e seguiu a carreira das armas. Esteve algum tempo a fazer serviço em Valença como oficial de artilharia, sendo nomeado pelo Marquês de Pombal lente da Universidade de Coimbra devido aos seus profundos conhecimentos de Matemática. Além de obras sobre essa disciplina, escreveu poesia. É considerado um dos pré-românticos portugueses. As suas obras poéticas foram publicadas em 1836 sob o título de Composições Poéticas. Em 1826 foi publicada em Paris A Voz da Razão.
Arcádia Lusitana
A Arcádia era uma região da Hélade (Grécia), considerada pelas narrações lendárias como sendo a pátria de poetas e de músicos. Daí, o nome de Arcádia ter sido escolhido pelos literatos do século XVIII para designar as academias então fundadas com a finalidade de reformar a literatura e reagir contra o cultismo e o conceptismo. Também em Portugal se criou, em 1755, a Arcádia lusitana ou Ulissiponense de que foi fundador, entre outros, António Diniz da Cruz e Silva, que redigiu os estatutos. António Diniz da Cruz e Silva foi o autor do célebre poema herói-cómico “O Hissope”, que satiriza a ignorância, vaidade e indolência de certos membros do clero, a mania do francês na linguagem e os gongóricos.
Os sócios da Arcádia eram eleitos por unanimidade, em escrutínio secreto, sendo inicialmente em número de trinta e mais tarde de sessenta. Entre os sócios destacam-se Correia Garção (seu principal doutrinador literário), Francisco José Freire (Cândido Lusitano).
Sendo a crítica literária uma das principais finalidades da Arcádia, foi escolhida como insígnia um meio braço segurando um podão com a legenda «Inutilia truncat» (corta as inutilidades). Como divisa, ostentava um lírio, símbolo da Imaculada, sua padroeira, que, com uma sessão extraordinária, festejavam a 8 de Dezembro.
Na poesia procuraram inspirar-se em temas e formas clássicos, mesmo em algumas que não tinham sido cultivados no século XVI. Na linguagem preferiam formas rebuscadas, epítetos alatinados, compostos aglutinantes de origem grega e utilizavam o verso branco.
Como princípios fundamentais da teoria arcádica há ainda a salientar: a procura da verdade ou, pelo menos, da verosimilhança, a imitação da natureza seleccionada de maneira a compor um quadro belo, a apologia do equilíbrio razoável e da selecção ponderada; o fim útil da poesia que deve contribuir para o aperfeiçoamento moral e social do homem culto, e da razão; e o uso da mitologia de modo claramente inteligível como forma de «ornamentação» do texto poético.
A Arcádia também apostou na renovação do teatro para o que muito contribuiu a acção de Correia Garção, que escreveu duas dissertações sobre o carácter da tragédia e duas peças, «Teatro Novo» e «Assembleia ou Partida».
Nas dissertações recomenda que as cenas da violência sejam substituídas por uma narração eloquente; que a tragédia sirva como meio de purificação dos sentimentos pelo terror e pela piedade; que o útil esteja ligado ao agradável; e que, a imitação dos antigos não seja servil, mas tenha o cunho da originalidade. A Arcádia promoveu ainda a tradução de várias obras, entre outras, as comédias de Molière e diversas artes poéticas.
Apesar dos resultados positivos da Arcádia - depuração do gosto artístico (oposição ao barroco), renovação temporária do teatro, aproximação da literatura do real quotidiano e da vida social, função moral da obra literária, o seu fim estava próximo. Assim, em 1776, após um período de rápido declínio, a A deixou de existir.
Nem todos os literatos da época pertenciam à Arcádia Lusitana. São os dissidentes ou independentes. Alguns destes - José Anastácio da Cunha, Bocage, José Agostinho de Macedo criaram em 1790 a Nova Arcádia ou Academia das Belas Letras de Lisboa, que teve também vida efémera. No entanto, o padre Francisco Manuel do Nascimento (Filinto Elísio) Nicolau Tolentino e a marquesa de Alorna não se filiaram em nenhuma das Arcádias, não deixando porém de ser influenciados pelo seu espírito, chegando até a usar nomes arcádicos. Numa situação de transição do neoclassicismo para o romantismo encontram-se Filinto Elísio, José Anastácio da Cunha, a marquesa de Alorna (figura importante na dinamização da vida cultural da época, através do salão literário que organizava em sua casa) e, sobretudo, Bocage, que marcou o confluir do neoclassicismo e do romantismo. Romântico por temperamento, pela profunda consciência pessoal de que dá mostras, aliada a um sentimento fúnebre, o seu estilo encontra-se ainda marcado por recursos arcádicos. A par do acolhimento dado à sua arte versificadora, é de destacar a popularidade de que veio a gozar como poeta satírico e cómico.
Fora da Arcádia, há também a considerar António José da Silva, O Judeu, um dos maiores dramaturgos portugueses.
António José da Silva, O Judeu
(1705-1739)
Nascido no Rio de Janeiro, filho de cristãos-novos, vem a Lisboa em 1713 acompanhando a mãe que tinha sido presa pelo Santo Ofício. À chegada do Brasil também o pai foi encarcerado. Em 1726 é preso juntamente com a mãe, torturado e penitenciado em auto-da-fé. Conclui a sua formatura em Coimbra e começa a praticar advocacia. Já em 1729 tinha-se tornado famoso como autor de comédias e óperas e por isso lhe chamavam O Plauto Português. Em 1733 representa-se A Vida do Grande D. Quixote de la Mancha e do Gordo Sancho Pança. Entre 1734 e 1739 escreve e faz representar outras peças: Esopaida, Os Encantos de Medeia, O Anfitrião, O Labirinto de Creta, Guerras do Alecrim e da Mangerona.
Em 5 de Outubro de 1737 é preso juntamente com a esposa, que se encontrava grávida, e com a mãe, detida pela terceira vez. Não havia qualquer denúncia registada contra ele nem ordem escrita de captura, o que era excepcional. Excepcional era também ter sido preso por ordem do conselho das Três Inquisições do Reino e não pela Inquisição de Lisboa, como seria normal. Os executores de captura foram importantes familiares do Santo Ofício. Em 1739 é condenado à morte relaxado em carne na fogueira e entregue ao tribunal. Em Outubro foi enforcado e depois queimado como «relapso convicto e negativo». Dele ficou o exemplo cívico de um homem «mártir da inquisição» como lhe chamou Teófilo Braga, que não transige perante as perseguições que lhe foram movidas.
Luís António Verney
Luís António Verney (1713-1792) nasceu em Lisboa e faleceu em Roma. Estudou Filosofia na Casa do Oratório em Lisboa e na Universidade de Évora. Com 17 anos de idade, terminou o bacharelato em Filosofia e licenciou-se dois anos depois na mesma área. Partiu então para Roma, frequentando o curso de Teologia. Regressando a Portugal, dedica-se ao ensino e em 1741 é nomeado pelo papa arcediago de Évora. Parte definitivamente para Roma devido a problemas de saúde e principalmente devido a incompreensões por parte dos seus compatriotas. Em 1746 publica o Verdadeiro Método de Estudar. É uma obra redigida sob a forma epistolar que se apresenta dividida em 16 cartas, tratando questões relacionadas com as disciplinas leccionadas na época e com questões pedagógicas, como o acesso da mulher à cultura.
Eis os principais temas tratados:
Realça a importância da Gramática, da Ortografia e da Pontuação, a superioridade da língua grega e a necessidade de estudar a língua em português e não em latim (Carta Primeira), condenando as gramáticas latinas em latim (Cartas Segunda e Terceira);
Destaca a necessidade de incluir o estudo do grego e do hebraico nos cursos de Teologia e o estudo das línguas modernas - francês e italiano - para todas as ciências (Carta Quarta);
Critica o barroco, descrevendo os vários estilos da oratória, referindo-se às qualidades do Padre António Vieira como epistológrafo e ao exagero como orador, pois "deixou-se arrebatar do estilo do seu tempo" (Cartas Quinta e Sexta);
Refere a necessidade de uma Arte Poética portuguesa e partilha das opiniões de Boileau sobre a importância da verdade na Poesia; indica as duas qualidades essenciais do Poeta (engenho e juízo); critica o uso da mitologia pagã na poesia (a que nem Camões escapa) e das metáforas despropositadas nos poetas barrocos (Carta Sétima);
Elogia os filósofos dos tempos modernos e destaca o papel da educação e da cultura como elementos fundamentais para a promoção social (Cartas Oitava a Décima Primeira);
Destaca a importância da anatomia nos estudos de Medicina (Carta Décima Segunda);
Critica o atraso nas Leis, tece considerações sobre a Jurisprudência e sobre a Teologia (Cartas Décima Terceira a Décima Quinta);
Realça a importância que se deveria atribuir à educação das mulheres e os efeitos benéficos que daí adviriam na vida conjugal, na vida social e na educação dos filhos (Carta Décima Sexta).
Esta obra, onde é evidente o Iluminismo católico, está em sintonia com as modernas correntes de pensamento europeu e dos trabalhos de filósofos como Descartes e Locke.
Eis os principais temas tratados:
·Realça a importância da Gramática, da Ortografia e da Pontuação, a superioridade da língua grega e a necessidade de estudar a língua em português e não em latim (Carta Primeira), condenando as gramáticas latinas em latim (Cartas Segunda e Terceira);
·Destaca a necessidade de incluir o estudo do grego e do hebraico nos cursos de Teologia e o estudo das línguas modernas - francês e italiano - para todas as ciências (Carta Quarta);
·Critica o barroco, descrevendo os vários estilos da oratória, referindo-se às qualidades do Padre António Vieira como epistológrafo e ao exagero como orador, pois "deixou-se arrebatar do estilo do seu tempo" (Cartas Quinta e Sexta);
·Refere a necessidade de uma Arte Poética portuguesa e partilha das opiniões de Boileau sobre a importância da verdade na Poesia; indica as duas qualidades essenciais do Poeta (engenho e juízo); critica o uso da mitologia pagã na poesia (a que nem Camões escapa) e das metáforas despropositadas nos poetas barrocos (Carta Sétima);
·Elogia os filósofos dos tempos modernos e destaca o papel da educação e da cultura como elementos fundamentais para a promoção social (Cartas Oitava a Décima Primeira);
·Destaca a importância da anatomia nos estudos de Medicina (Carta Décima Segunda);
·Critica o atraso nas Leis, tece considerações sobre a Jurisprudência e sobre a Teologia (Cartas Décima Terceira a Décima Quinta);
·Realça a importância que se deveria atribuir à educação das mulheres e os efeitos benéficos que daí adviriam na vida conjugal, na vida social e na educação dos filhos (Carta Décima Sexta).
Esta obra, onde é evidente o Iluminismo católico, está em sintonia com as modernas correntes de pensamento europeu e dos trabalhos de filósofos como Descartes e Locke.
Para além do Verdadeiro Método de Estudar (1746), deixou-nos ainda: Apparatus ad Philosophiam et Theologiam (1751), De Re Metaphysica (1753) e Gramatica Latina (1758).
Correia Garção
Pedro António Correia Garção (1724-1772) nasceu em Lisboa. Frequentou o curso de Direito da Universidade de Coimbra, mas teve de abandonar os estudos, tornando-se oficial de secretaria e redactor da Gazeta de Lisboa. É considerado um dos mais importantes poetas neoclássicos da literatura portuguesa. Pertenceu à Arcádia Lusitana, utilizando o pseudónimo de Corydon Erimantheo. As suas poesias foram publicadas em 1778 num só volume intitulado Obras Poéticas. Escreveu duas comédias: Teatro Novo e Assembleia ou Partida.
Nicolau Tolentino
Nicolau Tolentino de Almeida (1741-1811) nasceu em Lisboa. Estudou em Coimbra e, regressando a Lisboa, torna-se professor de retórica. Ensinou durante quinze anos, conseguindo então um lugar de oficial na Secretaria de Estado dos Negócios do Reino. Foi autor de sonetos, odes, cartas e sátiras, que foram publicados em 1801 no volume Obras Poéticas. Foi um dissidente da Arcádia Lusitana. A edição das suas obras de 1861, organizada por José Torres, inclui algumas gravuras da autoria de Nogueira da Silva.
Filinto Elísio
Filinto Elísio (1734-1819), pseudónimo do Padre Francisco Manuel do Nascimento, foi um dos mais importantes poetas do Neoclassicismo português. Apesar de ser clérigo, lendo livros racionalistas franceses proibidos pela Inquisição, teve de fugir para França, exilando-se em Paris em 1778. Estabeleceu relações de amizade com o poeta Lamartine. As suas poesias foram publicadas em Paris em onze volumes entre 1817 e 1819, seguindo-se uma segunda edição em Lisboa de vinte e dois volumes entre 1836 e 1840. Além de poeta era tradutor, vertendo para português os Mártires de Chateaubriand e as Fábulas de La Fontaine.
Anastácio da Cunha
José Anastácio da Cunha (1744-1787) nasceu em Lisboa e seguiu a carreira das armas. Esteve algum tempo a fazer serviço em Valença como oficial de artilharia, sendo nomeado pelo Marquês de Pombal lente da Universidade de Coimbra devido aos seus profundos conhecimentos de Matemática. Além de obras sobre essa disciplina, escreveu poesia. É considerado um dos pré-românticos portugueses. As suas obras poéticas foram publicadas em 1836 sob o título de Composições Poéticas. Em 1826 foi publicada em Paris A Voz da Razão.
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