(... ) Entre as sólidas máximas com que Horácio pretende formar um bom poeta, não é, - como vós sabeis -, menos importante a imitação. Não falo da imitação da Natureza, mas da imitação dos bons autores, daquela imitação à qual deve a Arcádia sua grande reputação e não pequena parte dos honrados elogios com que foi recebida de nossos mais prudentes e doutos patrícios, e que há-de espalhar seu nome pelas nações estrangeiras. Este foi em todos os séculos e será em todas as idades o maior segredo de tão divina arte.
Os Gregos e os Latinos, que dia e noite não devemos largar das mãos, estes soberbos originais, são a única fonte de que manam boas odes, boas tragédias e excelentes epopeias.
Este é o verdadeiro génio a que o vulgo chama veia poética e os doutos entusiasmo.
Muito pode o espírito humano! Mas nunca terá força para subir tão alto se não for pela estrada que trilharam os antigos poetas e oradores. Entre nós, depois que acabaram os bons dias da poesia portuguesa, poucos foram os que penetraram semelhante mistério, de que são miseráveis testemunhas as obras dos seiscentistas. Guardava o Céu para a Arcádia a honra e a vaidade de erguer esta bandeira e levar consigo seus compatriotas. Hoje todos desejam imitar os Antigos, todos estudam pelos Gregos, pelos Latinos e pelos nossos bons autores: mas, fugindo de Cila, quantos varam em Caríbdes?
Querem ser imitadores e não passam de uns humildes plagiários.
Para evitar tão depravado extremo, nos recomenda Horácio o modo com que devem ser imitados os Antigos; e ainda que neste lugar estabeleça outras regras para conseguirmos tão desejado fim, a mim me pareceu, olhando para o vício mais comum, que devia escolher para assunto as poucas mas importantes palavras com que tão grande crítico nos ensina a imitar e nos mostra o perigo de que devemos fugir.
Muitos, querendo imitar Virgílio, fazem uma má tradução desta ou daquela imagem de tão grande poeta; e escravos de suas palavras não passam de tradutores. Não imitam, roubam e despedaçam as obras alheias: desfiguram o que lhes agradou, como se tomassem por empresa fazer-nos aborrecer o que admiramos. Disto acha-se que enfermam tantas quantas são as obras que todos os dias aparecem cheias de lugares dos poetas, não imitados, mas servilmente traduzidos. É tão forte a preocupação de que nascem tão lastimosas desordens que muitos com vaidade e com soberba apontam e mostram os pensamentos ou ideias que roubaram ou traduziram.
[…]
Devemos imitar e seguir os Antigos: assim no-lo ensina Horácio, no-lo dita a razão, e o confessa todo o mundo literário. Mas esta doutrina, este bom conselho, devemos abraçá-lo e segui-lo de modo que mais pareça que o rejeitamos, isto é, imitando e não traduzindo. Os poetas devem ser imitados nas fábulas, nas imagens, nos pensamentos, no estilo; mas quem imita dever fazer seu o que imita. Se imito a fábula, devo conservar a acção, ou alma da fábula; mas devo variar de forma os episódios que pareça outra nova e minha. Se imito as pinturas, não devo no meu poema introduzir um Polifemo, mas do painel deste gigante posso tirar as cores para um Adamastor. Se imito o estilo, não devo servir-me das palavras dos Antigos, mas achar na linguagem portuguesa termos equivalentes, enérgicos e majestosos, sem torcer as frases, nem adoptar barbarismos.
Olhando para a prática dos Latinos e bons Modernos, achamos religiosamente guardados estes preceitos. Assim imita, Virgílio a Homero na sua Eneida, assim imita a Teócrito na sua Bucólica. Assim imitou Camões a Virgílio; António Ferreira a Horácio; Sófocles a Teócrito; Bion a Mosco.
[…] Feliz aquele que não só imita, mas excede ao seu original.
Correia Garção, Dissertação Terceira
(Nota: A "Dissertação Terceira" sobre ser o principal proveito para formar um bom Poeta procurar e seguir somente a imitação dos melhores autores da Antiguidade, recitada na conferência da Arcádia Lusitana no dia 7 de Novembro de 1757).
No comments:
Post a Comment