São João Baptista

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Saturday, 8 May 2010

O ILUMINISMO

Enquanto na Europa se afirmavam o Iluminismo, o Racionalismo e o Experimentalismo em todas as áreas do pensamento, em Portugal vivia-se ainda o tradicionalismo da filosofia escolástica medieval. Sob o ponto de vista cultural, a primeira metade do século XVIII não é mais que um prolongamento do século anterior. Na sociedade de então só restava o exílio aos portugueses que realmente se preocupavam com a situação degradante a que se tinha chegado no país. Chamavam-se «estrangeirados» os intelectuais  obrigados por causa das suas convicções a procurar refúgio no estrangeiro ou que precisavam de forte apoio real para não serem perseguidas pelas suas ideias iluministas, contaminadas portanto pelo «estrangeiro». Alguns tinham sido obrigados a desterrar-se para escapar à fogueira - o Cavaleiro de Oliveira tinha sido queimado «em estátua», num auto-de-fé de Lisboa; outros tinham conseguido um exílio dourado através da nomeação para um cargo diplomático, sendo o regresso condicionado pela protecção pessoal do rei. «Os estrangeirados», representantes das Luzes no espaço português, traziam as novas ideias iluministas e julgavam a realidade portuguesa utilizando novos critérios, inaceitáveis para a doxa reinante: assim, eles criticavam a superstição e o fanatismo, os abusos da Inquisição e o papel que eles julgavam funesto dos Jesuítas na educação nacional, e promoviam, de acordo com os ideais da época, a extinção dos autos-de-fé, dos processos do Santo Ofício, a justiça e a tolerância. Entre os estrangeirados mais importantes para a evolução ulterior do pensamento português contam-se Luís António Verney, D. Luiz da Cunha, Alexandre de Gusmão. Luís António Verney (1713-1792) publicou em 1746 o Verdadeiro Método de Estudar, que promovia uma série de medidas de reforma do ensino e da mentalidade portuguesa.


Arcádia Lusitana


A Arcádia era uma região da Hélade (Grécia), considerada pelas narrações lendárias como sendo a pátria de poetas e de músicos. Daí, o nome de Arcádia ter sido escolhido pelos literatos do século XVIII para designar as academias então fundadas com a finalidade de reformar a literatura e reagir contra o cultismo e o conceptismo. Também em Portugal se criou, em 1755, a Arcádia lusitana ou Ulissiponense de que foi fundador, entre outros, António Diniz da Cruz e Silva, que redigiu os estatutos. António Diniz da Cruz e Silva foi o autor do célebre poema herói-cómico “O Hissope”, que satiriza a ignorância, vaidade e indolência de certos membros do clero, a mania do francês na linguagem e os gongóricos.
Os sócios da Arcádia eram eleitos por unanimidade, em escrutínio secreto, sendo inicialmente em número de trinta e mais tarde de sessenta. Entre os sócios destacam-se Correia Garção (seu principal doutrinador literário), Francisco José Freire (Cândido Lusitano).
Sendo a crítica literária uma das principais finalidades da Arcádia, foi escolhida como insígnia um meio braço segurando um podão com a legenda «Inutilia truncat» (corta as inutilidades). Como divisa, ostentava um lírio, símbolo da Imaculada, sua padroeira, que, com uma sessão extraordinária, festejavam a 8 de Dezembro.
Na poesia procuraram inspirar-se em temas e formas clássicos, mesmo em algumas que não tinham sido cultivados no século XVI. Na linguagem preferiam formas rebuscadas, epítetos alatinados, compostos aglutinantes de origem grega e utilizavam o verso branco.
Como princípios fundamentais da teoria arcádica há ainda a salientar: a procura da verdade ou, pelo menos, da verosimilhança, a imitação da natureza seleccionada de maneira a compor um quadro belo, a apologia do equilíbrio razoável e da selecção ponderada; o fim útil da poesia que deve contribuir para o aperfeiçoamento moral e social do homem culto, e da razão; e o uso da mitologia de modo claramente inteligível como forma de «ornamentação» do texto poético.
A Arcádia também apostou na renovação do teatro para o que muito contribuiu a acção de Correia Garção, que escreveu duas dissertações sobre o carácter da tragédia e duas peças, «Teatro Novo» e «Assembleia ou Partida».
Nas dissertações recomenda que as cenas da violência sejam substituídas por uma narração eloquente; que a tragédia sirva como meio de purificação dos sentimentos pelo terror e pela piedade; que o útil esteja ligado ao agradável; e que, a imitação dos antigos não seja servil, mas tenha o cunho da originalidade. A Arcádia promoveu ainda a tradução de várias obras, entre outras, as comédias de Molière e diversas artes poéticas.
Apesar dos resultados positivos da Arcádia - depuração do gosto artístico (oposição ao barroco), renovação temporária do teatro, aproximação da literatura do real quotidiano e da vida social, função moral da obra literária, o seu fim estava próximo. Assim, em 1776, após um período de rápido declínio, a A deixou de existir.
Nem todos os literatos da época pertenciam à Arcádia Lusitana. São os dissidentes ou independentes. Alguns destes - José Anastácio da Cunha, Bocage, José Agostinho de Macedo criaram em 1790 a Nova Arcádia ou Academia das Belas Letras de Lisboa, que teve também vida efémera. No entanto, o padre Francisco Manuel do Nascimento (Filinto Elísio) Nicolau Tolentino e a marquesa de Alorna não se filiaram em nenhuma das Arcádias, não deixando porém de ser influenciados pelo seu espírito, chegando até a usar nomes arcádicos. Numa situação de transição do neoclassicismo para o romantismo encontram-se Filinto Elísio, José Anastácio da Cunha, a marquesa de Alorna (figura importante na dinamização da vida cultural da época, através do salão literário que organizava em sua casa) e, sobretudo, Bocage, que marcou o confluir do neoclassicismo e do romantismo. Romântico por temperamento, pela profunda consciência pessoal de que dá mostras, aliada a um sentimento fúnebre, o seu estilo encontra-se ainda marcado por recursos arcádicos. A par do acolhimento dado à sua arte versificadora, é de destacar a popularidade de que veio a gozar como poeta satírico e cómico.
Fora da Arcádia, há também a considerar António José da Silva, O Judeu, um dos maiores dramaturgos portugueses.


António José da Silva, O Judeu


(1705-1739)
Nascido no Rio de Janeiro, filho de cristãos-novos, vem a Lisboa em 1713 acompanhando a mãe que tinha sido presa pelo Santo Ofício. À chegada do Brasil também o pai foi encarcerado. Em 1726 é preso juntamente com a mãe, torturado e penitenciado em auto-da-fé. Conclui a sua formatura em Coimbra e começa a praticar advocacia. Já em 1729 tinha-se tornado famoso como autor de comédias e óperas e por isso lhe chamavam O Plauto Português. Em 1733 representa-se A Vida do Grande D. Quixote de la Mancha e do Gordo Sancho Pança. Entre 1734 e 1739 escreve e faz representar outras peças: Esopaida, Os Encantos de Medeia, O Anfitrião, O Labirinto de Creta, Guerras do Alecrim e da Mangerona.
Em 5 de Outubro de 1737 é preso juntamente com a esposa, que se encontrava grávida, e com a mãe, detida pela terceira vez. Não havia qualquer denúncia registada contra ele nem ordem escrita de captura, o que era excepcional. Excepcional era também ter sido preso por ordem do conselho das Três Inquisições do Reino e não pela Inquisição de Lisboa, como seria normal. Os executores de captura foram importantes familiares do Santo Ofício. Em 1739 é condenado à morte relaxado em carne na fogueira e entregue ao tribunal. Em Outubro foi enforcado e depois queimado como «relapso convicto e negativo». Dele ficou o exemplo cívico de um homem «mártir da inquisição» como lhe chamou Teófilo Braga, que não transige perante as perseguições que lhe foram movidas.


Luís António Verney


Luís António Verney (1713-1792) nasceu em Lisboa e faleceu em Roma. Estudou Filosofia na Casa do Oratório em Lisboa e na Universidade de Évora. Com 17 anos de idade, terminou o bacharelato em Filosofia e licenciou-se dois anos depois na mesma área. Partiu então para Roma, frequentando o curso de Teologia. Regressando a Portugal, dedica-se ao ensino e em 1741 é nomeado pelo papa arcediago de Évora. Parte definitivamente para Roma devido a problemas de saúde e principalmente devido a incompreensões por parte dos seus compatriotas. Em 1746 publica o Verdadeiro Método de Estudar. É uma obra redigida sob a forma epistolar que se apresenta dividida em 16 cartas, tratando questões relacionadas com as disciplinas leccionadas na época e com questões pedagógicas, como o acesso da mulher à cultura.
Eis os principais temas tratados:
Realça a importância da Gramática, da Ortografia e da Pontuação, a superioridade da língua grega e a necessidade de estudar a língua em português e não em latim (Carta Primeira), condenando as gramáticas latinas em latim (Cartas Segunda e Terceira);
Destaca a necessidade de incluir o estudo do grego e do hebraico nos cursos de Teologia e o estudo das línguas modernas - francês e italiano - para todas as ciências (Carta Quarta);
Critica o barroco, descrevendo os vários estilos da oratória, referindo-se às qualidades do Padre António Vieira como epistológrafo e ao exagero como orador, pois "deixou-se arrebatar do estilo do seu tempo" (Cartas Quinta e Sexta);
Refere a necessidade de uma Arte Poética portuguesa e partilha das opiniões de Boileau sobre a importância da verdade na Poesia; indica as duas qualidades essenciais do Poeta (engenho e juízo); critica o uso da mitologia pagã na poesia (a que nem Camões escapa) e das metáforas despropositadas nos poetas barrocos (Carta Sétima);
Elogia os filósofos dos tempos modernos e destaca o papel da educação e da cultura como elementos fundamentais para a promoção social (Cartas Oitava a Décima Primeira);
Destaca a importância da anatomia nos estudos de Medicina (Carta Décima Segunda);
Critica o atraso nas Leis, tece considerações sobre a Jurisprudência e sobre a Teologia (Cartas Décima Terceira a Décima Quinta);
Realça a importância que se deveria atribuir à educação das mulheres e os efeitos benéficos que daí adviriam na vida conjugal, na vida social e na educação dos filhos (Carta Décima Sexta).


Esta obra, onde é evidente o Iluminismo católico, está em sintonia com as modernas correntes de pensamento europeu e dos trabalhos de filósofos como Descartes e Locke.


Eis os principais temas tratados:
·Realça a importância da Gramática, da Ortografia e da Pontuação, a superioridade da língua grega e a necessidade de estudar a língua em português e não em latim (Carta Primeira), condenando as gramáticas latinas em latim (Cartas Segunda e Terceira);
·Destaca a necessidade de incluir o estudo do grego e do hebraico nos cursos de Teologia e o estudo das línguas modernas - francês e italiano - para todas as ciências (Carta Quarta);
·Critica o barroco, descrevendo os vários estilos da oratória, referindo-se às qualidades do Padre António Vieira como epistológrafo e ao exagero como orador, pois "deixou-se arrebatar do estilo do seu tempo" (Cartas Quinta e Sexta);
·Refere a necessidade de uma Arte Poética portuguesa e partilha das opiniões de Boileau sobre a importância da verdade na Poesia; indica as duas qualidades essenciais do Poeta (engenho e juízo); critica o uso da mitologia pagã na poesia (a que nem Camões escapa) e das metáforas despropositadas nos poetas barrocos (Carta Sétima);
·Elogia os filósofos dos tempos modernos e destaca o papel da educação e da cultura como elementos fundamentais para a promoção social (Cartas Oitava a Décima Primeira);
·Destaca a importância da anatomia nos estudos de Medicina (Carta Décima Segunda);
·Critica o atraso nas Leis, tece considerações sobre a Jurisprudência e sobre a Teologia (Cartas Décima Terceira a Décima Quinta);
·Realça a importância que se deveria atribuir à educação das mulheres e os efeitos benéficos que daí adviriam na vida conjugal, na vida social e na educação dos filhos (Carta Décima Sexta).


Esta obra, onde é evidente o Iluminismo católico, está em sintonia com as modernas correntes de pensamento europeu e dos trabalhos de filósofos como Descartes e Locke.


Para além do Verdadeiro Método de Estudar (1746), deixou-nos ainda: Apparatus ad Philosophiam et Theologiam (1751), De Re Metaphysica (1753) e Gramatica Latina (1758).


Correia Garção


Pedro António Correia Garção (1724-1772) nasceu em Lisboa. Frequentou o curso de Direito da Universidade de Coimbra, mas teve de abandonar os estudos, tornando-se oficial de secretaria e redactor da Gazeta de Lisboa. É considerado um dos mais importantes poetas neoclássicos da literatura portuguesa. Pertenceu à Arcádia Lusitana, utilizando o pseudónimo de Corydon Erimantheo. As suas poesias foram publicadas em 1778 num só volume intitulado Obras Poéticas. Escreveu duas comédias: Teatro Novo e Assembleia ou Partida.
Nicolau Tolentino
Nicolau Tolentino de Almeida (1741-1811) nasceu em Lisboa. Estudou em Coimbra e, regressando a Lisboa, torna-se professor de retórica. Ensinou durante quinze anos, conseguindo então um lugar de oficial na Secretaria de Estado dos Negócios do Reino. Foi autor de sonetos, odes, cartas e sátiras, que foram publicados em 1801 no volume Obras Poéticas. Foi um dissidente da Arcádia Lusitana. A edição das suas obras de 1861, organizada por José Torres, inclui algumas gravuras da autoria de Nogueira da Silva.


Filinto Elísio


Filinto Elísio (1734-1819), pseudónimo do Padre Francisco Manuel do Nascimento, foi um dos mais importantes poetas do Neoclassicismo português. Apesar de ser clérigo, lendo livros racionalistas franceses proibidos pela Inquisição, teve de fugir para França, exilando-se em Paris em 1778. Estabeleceu relações de amizade com o poeta Lamartine. As suas poesias foram publicadas em Paris em onze volumes entre 1817 e 1819, seguindo-se uma segunda edição em Lisboa de vinte e dois volumes entre 1836 e 1840. Além de poeta era tradutor, vertendo para português os Mártires de Chateaubriand e as Fábulas de La Fontaine.


Anastácio da Cunha


José Anastácio da Cunha (1744-1787) nasceu em Lisboa e seguiu a  carreira das armas. Esteve algum tempo a fazer serviço em Valença como oficial de artilharia, sendo nomeado pelo Marquês de Pombal lente da Universidade de Coimbra devido aos seus profundos conhecimentos de Matemática. Além de obras sobre essa disciplina, escreveu poesia. É considerado um dos pré-românticos portugueses. As suas obras poéticas foram publicadas em 1836 sob o título de Composições Poéticas. Em 1826 foi  publicada em Paris A Voz da Razão.

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