Rodrigues Lobo consagrou o seu tempo, de forma quase exclusiva, à tarefa de escritor. Cantor do Lis, a sua obra denota uma especial preocupação pelos temas bucólicos e regionalistas. Estreou-se com Primeira e Segunda Parte dos Romances, em 1596, género ligado à tradição bucólica, com textos maioritariamente em castelhano. Em 1601, foi editado o romance bucólico Primavera, primeira parte de uma trilogia.
Rodrigues Lobo desenvolveu uma obra teórica de grande importância na estrutura da literatura barroca peninsular, de que é exemplo Corte na Aldeia (1619). Inserida no contexto histórico da Restauração, Corte na Aldeia constitui um preceituário de comportamentos cortesãos, sob a forma de diálogos, dirigido a uma camada aristocrática abrigada à sombra dos pequenos paços senhoriais de província durante a união dinástica com Espanha, reflectindo a obra algum tom patriótico, por exemplo pela apologia da língua portuguesa. Esta obra contém indicações relativas às formas de civilidade, aos comportamentos, à literatura, à ética, ao amor, deixando de lado questões religiosas e políticas. É de particular interesse a teorização em torno de questões estilísticas literárias, que aproxima o autor do cultismo e do conceptismo, típicos do barroco, embora alguns o situem antes na corrente do maneirismo. Outras obras suas manifestam, igualmente, um tom didáctico
Da sua obra, pode-se assinalar a Primeira e Segunda Parte dos Romances (1596), novelas Primavera (1601), Pastor Peregrino (1608)e Desengano (1614), prosa didáctica Corte na Aldeia (1619), poema O Condestabre de Portugal D. Nun'Álvares Pereira, Éclogas (1605), Cartas dos Grandes do Mundo (1934, publicação de Ricardo Jorge), Poesias (1945, publicação de Afonso Lopes Vieira), La jornada de Filipe III a Portugal.
Escreveu ainda as Églogas (1605), O Pastor Peregrino (1608), O Desenganado (1614; estas duas últimas obras constituindo com Primavera uma trilogia pastoril), o poema O Condestabre de Portugal D. Nuno Álvares Pereira, Cartas dos Grandes do Mundo e La jornada de Filipe III a Portugal. A sua produção poética revela uma forte influência da lírica de Camões, na temática da resignação e do desencanto, do bucolismo moralizante. A simplicidade de composição e a beleza formal dos seus sonetos colocaram-no entre os maiores escritores do barroco português.
POESIAS
Fermoso Tejo meu, quão diferente
Te vejo e vi, me vês agora e viste:
Turvo te vejo a ti, tu a mim triste,
Claro te vi eu já, tu a mim contente.
A ti foi-te trocando a grossa enchente
A quem teu largo campo não resiste;
A mim trocou-me a vista em que consiste
O meu viver contente ou descontente!
Já que somos no mal participantes,
Sejamo-lo no bem. Oh, quem me dera
Que fôramos em tudo semelhantes!
Mas lá virá a fresca Primavera:
Tu tornarás a ser quem eras dantes,
Eu não sei se serei quem dantes era.
Mil anos há que busco a minha estrela
E os Fados dizem que ma têm guardada;
Levantei-me de noite e madrugada,
Por mais que madruguei, não pude vê-la.
Já não espero haver alcance dela
Senão depois da vida rematada,
Que deve estar nos céus tão remontada
Que só lá poderei gozá-la e tê-la.
Pensamentos, desejos, esperança,
Não vos canseis em vão, não movais guerra,
Façamos entre os mais üa mudança:
Para me procurar vida segura
Deixemos tudo aquilo que há na terra,
Vamos para onde temos a ventura.
Fermoso rio Lis, que entre arvoredos
Ides detendo as águas vagarosas,
Até que üas sobre outras, de invejosas,
Ficam cobrindo o vão destes penedos;
Verdes lapas, que ao pé de altos rochedos
Sois morada das Ninfas mais fermosas,
Fontes, árvores, ervas, lírios, rosas,
Em quem esconde Amor tantos segredos;
Se vós, livres de humano sentimento,
Em quem não cabe escolha nem vontade,
Também às leis de Amor guardais respeito.
Como se há-de livrar meu pensamento
De render alma, vida e liberdade,
Se conhece a razão de estar sujeito?
Águas que, penduradas desta altura,
Caís sobre os penedos descuidadas,
Aonde, em branca escuma levantadas,
Ofendidas mostrais mais fermosura,
Se achais essa dureza tão segura,
Para que porfiais, águas cansadas?
Hei tantos anos já desenganadas,
E esta rocha mais áspera e mais dura.
Voltai atrás por entre os arvoredos,
Aonde caminhais com liberdade
Até chegar ao fim tão desejado.
Mas ai! que são de amor estes segredos.
Que vos não valerá própria vontade
Como a mim não valeu no meu cuidado.
Pastoral
Mote
Vai o rio de monte a monte,
Como passarei sem ponte?
Voltas
É o vau mui arriscado,
Só nele é certo o perigo;
O tempo como inimigo
Tem-me o caminho tomado.
Num monte está meu cuidado,
E eu, posto aqui noutro monte,
Como passarei sem ponte?
Tudo quanto a vista alcança
Coberto de males vejo:
D'aquém fica meu desejo
E d'além minha esperança.
Esta, contínua, me cansa
Porque está sempre defronte:
Como passarei sem ponte?
ÉCLOGA I
Dizem que já noutra idade
falaram os animais,
e eu creio que por sinais
inda hoje falam verdade.
Ouvi contar como então
se fez valente e temido
um vil jumento, escondido
nos despojos de um leão.
Enquanto de longe o viam
os outros fugiam dele:
eram milagres da pele
do rei, a que eles temiam.
Quis falar, buscou seus danos,
que os outros, com raiva crua,
fazem pagar pela sua
da outra pele os enganos.
Quantos há, na nossa aldeia,
leões e lobos fingidos,
que houveram de andar despidos,
se não fora a pele alheia!
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