A obra de António Vieira, de que é indissociável a sua intensa acção como homem público, compõe-se de cerca de 200 sermões, de mais de quinhentas cartas e uma série de documentos de política, diplomacia, profecia, religião, etc. Neles demonstra uma profunda capacidade de análise e denúncia dos vícios humanos, com grande realismo e inteligência implacável na sua acção moralista. Simultaneamente, Vieira foi o visionário do Quinto Império, o idealista utópico e profético de um messianismo em que se conjugavam as crenças sebastianistas tradicionais e as crenças messiânicas de origem judaica. Em ambos os casos, socorreu-se da sua extraordinária capacidade oratória, pela qual, num estilo claro, sedutor e simples, e segundo os preceitos escolásticos e retóricos da escola jesuíta, recorria a processos pseudológicos de interpretação das escrituras, num discurso fortemente alegórico e metafórico, aplicando os sinais e passagens da Bíblia à realidade sua contemporânea. Os seus textos revelam um grande virtuosismo no domínio da língua e dos seus efeitos no auditório, expandindo cada motivo de forma dialéctica e envolvente, causando espanto pelas revelações e consequências do seu jogo de raciocínios que, por vezes, se aproximam do maravilhoso. Exprimiu, de forma exemplar e viva, muitos dos princípios artísticos do barroco, o que levou, no iluminismo oitocentista, a um certo descrédito da sua figura. Considerado frequentemente um dos paradigmas da prosa clássica portuguesa, foi o maior orador sacro do país e, simultaneamente, um dos maiores apologistas do messianismo nacional, que justificava todo o seu empenho na valorização e reforma da economia e na força política do país. Os seus Sermões foram publicados em quinze volumes, entre 1679 e 1748. Conservam-se também as Cartas (1735), a História do Futuro, Livro Ante-Primeiro (1718) e uma Defesa Perante o Tribunal do Santo Ofício (1957), Clavis Prophetarum e História do Futuro.
Quinto Império A designação de Quinto Império deriva da exegese das visões do profeta Daniel. Uma estátua, vista em sonhos por Nabucodonosor, constituída por quatro metais, simbolizava quatro impérios ou reinos. Um novo império, ou reino, o quinto, estava prefigurado na mesma profecia por uma pedra gigantesca que se desprendia da montanha e reduzia a pó a estátua, avolumando-se de seguida até cobrir toda a Terra. É nesta pedra que Vieira vê Cristo e o seu Império, o quinto na ordem da sucessão, que está prestes a surgir graças ao anúncio do Evangelho a todos os povos. Trata-se, segundo as profecias, de um plano previsto desde toda a eternidade. Esse Quinto Império que se aproxima durará mil anos. Depois, será o fim do mundo e o reino da bem-aventurança para sempre, de que o Quinto Império foi apenas o limiar. Mas se alguém perguntar quando acontecerão estas coisas, a resposta de Vieira é que isto se deve realizar quando a fé invadir toda a Terra «de tal modo que não haja nenhum recanto, nenhum antro, nenhum esconderijo, nenhum buraco, nenhuma frincha, por onde a água, remanescendo, não penetre e passe». Será tanto o afluxo dos povos, vindos de todos os pontos da Terra, que se pode comparar a um dilúvio, para o qual Deus se há-de inclinar como para uma torrente de paz que inundará de glória toda a humanidade.
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