São João Baptista

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Friday, 19 February 2010

O Maneirismo


Designação utilizada pelo historiador de arte italiano Vasari (1511-1574) para caracterizar a obra de certos pintores e escultores europeus — mais especificamente italianos — do século XVI, que realizam uma arte de acordo com a maneira (o estilo) de certos artistas do Renascimento, muito embora superando-a no sentido de uma distorção subjectiva mais ou menos acentuada das regras canónicas das proporções e da harmonia, da simetria e do equilíbrio. Como tal, o maneirismo define um movimento de libertação dos princípios formais renascentistas que, nas artes plásticas, se pode verificar nas últimas obras de Miguel Ângelo, ou nas criações de Parmigianino, El Greco, ou dos portugueses Gaspar Dias, Diogo Teixeira e Simão Rodrigues.
Na periodização da literatura portuguesa, o maneirismo (1680-1620) segue a renascença e é prolongado pelo barroco em certos aspectos temáticos e estilísticos. As principais características desta corrente são o movimento, a fantasia, o drama e o subjectivismo.
A estética clássica é desviada pelo maneirismo que coexiste nas obras de certos clássicos como Camões com as normas renascentistas da criação artística. Antes do barroco, o maneirismo significa uma reacçao contra as ideias de normatividade, de equilíbrio, de beleza regular e contra a filosofia optimista do humanismo, substituída por um pessimismo fundamental relativo ao homem e ao lugar dominante no centro do universo. A expressão do patético, a consciência dos contrastes, limitações e vanidade da vida humana tornam-se mais agudas, manifestando-se, por exemplo, em inúmeras referências ao tema do desconcerto do mundo, frequente em Camões.
Enquanto o maneirismo se  manifesta numa ligação aos modelos literários  clássicos que apura e refina as suas características, sublinhando os  pormenores da composição e o seu carácter estático, seguindo um pendor melancólico, o barroco vai definir-se pela exibição espectacular de conflitos e oposições semânticas e sintácticas, em torno da reflexão sobre o tempo e a  mudança.
Ao longo do século XVI, o sentimento de confiança nas capacidades humanas que caracterizara o movimento renascentista sofreu alguns abalos. Crises sociais na Europa, conflitos entre Estados e grupos religiosos, levaram a um sentimento de cepticismo em relação à vida que, de certa forma, relegou para um plano mais teorético o papel interventivo dos humanistas. Assim, gerou-se um clima de alguma instabilidade e pessimismo, que se reflectiu, nas artes e na literatura, numa ruptura com a ortodoxia dos cânones estéticos do classicismo.

Em Portugal, esta situação geral somou-se ao declínio do império, favorecendo um sentimento de cepticismo e pessimismo, de frustração, avivado pela consciência do declínio, do contraste entre a grandeza passada (cantada por Camões em Os Lusíadas) e a mesquinhez do presente — consciência também dos limites humanos e da vanidade da vida.
A perda da independência nacional, em 1580, teve consequências importantes na literatura portuguesa, uma vez que a corte de Lisboa, que era o grande centro político e cultural, desapareceu. Assim sendo, muitos escritores refugiaram-se em paços senhoriais de província ou em Madrid, ou ainda em ordens religiosas. O bilinguismo, que já antes era corrente, acentuou-se. Dominou, neste período, a literatura devota e histórica produzida em ambiente conventual, para o que a Contra-Reforma, recuperando a escolástica, muito contribuiu.

São de destacar, pela sua importância e quantidade, as obras hagiográficas e a historiografia, principalmente do mosteiro de Alcobaça. Esta última é de extrema importância, na medida em que foi frequentemente veículo da justificação da existência de Portugal como país autónomo da Espanha. Neste âmbito se insere a Monarquia Lusitana, iniciada por frei Bernardo de Brito, em que é já manifesta a tendência para romancear, enriquecendo o texto histórico com numerosas narraçőes e enredos de natureza mitológica, fantástica ou cavaleiresca, atestando a falta de uma investigação histórica rigorosa.









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